1 TÊXTEIS SENSÓRIOS SEABRA, Lavínnia Professora efetiva do curso
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1 TÊXTEIS SENSÓRIOS SEABRA, Lavínnia Professora efetiva do curso
TÊXTEIS SENSÓRIOS SEABRA, Lavínnia Professora efetiva do curso de Design de Moda – UFG [email protected] Resumo: O presente artigo apresenta, em breves palavras, como os tecidos podem ser objetos de produção sensível. Desta forma, mostra um pequeno caminho histórico da utilização destes materiais nas artes plásticas até à inserção de dispositivos eletrônicos na produção de sensações corpóreas, tendo como exemplos, os trabalhos de Hussein Chalayan, Pia Myrvold e Chistopher J. Glaister & Michelle Shakallis. Por esta, e outras razões, que vemos nos têxteis uma série de possibilidades de criação de trabalhos poéticos, que podem proporcionar várias outras sensações corporais. Abstract: This article presents, briefly, as the tissues can be objects of production sensitive. Thus, it shows a small way the historical use of these materials in the plastic arts to the insertion of electronic devices in the production of bodily sensations, taking as examples the work of Hussein Chalayan, Pia Myrvold and Christopher J. Glaister. For this and other reasons, we see in textiles a number of possibilities to create poetic works, which can provide various other bodily sensations. Introdução Os artigos têxteis sempre representaram a evolução social e, em muitos casos, foram mais do que grandes lençóis planos envoltos ao corpo. Estes materiais foram utilizados, a muito, como suportes das grandes pinturas ou como objetos de tapeçaria e proteção em imensas paredes de pedras de castelos do século XIX. Segundo Dinah Pezzolo (2007) o tecido teve um papel importante na preocupação com a individualização do corpo. Contudo, estes materiais maleáveis foram sendo melhorados e reinventados. Novos padrões surgiram, novos processos de desenvolvimento e tratamento foram criados. As estampas estão, hoje, no patamar da produção digital. A cartela de cores se ampliou, possibilitando novos padrões de composição visual. Novas texturas se sobressaíram e com elas, outras possibilidades de criação. Neste caminho, os artistas foram descobrindo que este tecido: fino ou grosso, estampado ou não, poderia sair da bidimensionalidade e ser objeto tridimensional. 1 Nas obras de Henri Matisse (1869-1945) os tecidos lhes foram inspiração para a criação de suas telas. Segundo reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo (2005) in Pezzolo (2007), “durante toda a sua vida, ele colecionou cortes de pano, tapetes, roupas e acessórios trazidos de vários países. Para onde fosse, levava amostras desse material e chamava essa ‘coleção de biblioteca de trabalho”’. Na decoração, os tecidos criaram um espetáculo visual à parte. No século XVII era comum a corte e a burguesia trocarem as suas mobílias quatro vezes ao ano. Isso permitia que as espessuras e cores dos materiais mudassem: veludo de lã para o inverno e tafetá no verão. No século XVIII os tecidos aparecem ainda mais nos ambientes; é o auge dos sofás, e suas formas e acabamentos precisavam ser primorosos. Estas situações históricas só foram ampliando as possibilidades de adaptação dos tecidos. Em Oiticica, que estes materiais saem completamente de sua primeira função de adorno, proteção e suporte bidimensional na arte, para se tornarem objetos de contemplação tridimensional através da performance intitulada Parangolé. Neste trabalho os artigos têxteis são movimentados, formando silhuetas diferenciadas através da participação do antes, observador. Agora esta pessoa faz parte do processo de criação. Ela mesma se movimenta, apresentando o seu corpo e a sua ocupação no espaço. Segundo Favaretto (2000, p. 114) “O Parangolé redefine a posição estética de Oiticica, em primeiro lugar pela abertura de um novo campo experimental com as imagens. Do ‘espetáculo de superfície’ das investigações concretas e neoconcretas às “ações espetaculares” da arte ambiental há uma transformação radical da expressão”. Desta forma, compreendermos que os tecidos podem possuir diversas aplicabilidades no que diz respeito à representação visual. Quando pensamos ter alcançado uma grande diversidade nas aplicações dos têxteis nas artes, vemos florescer os Toy Art confeccionados em tecidos, com cores diversas e formas inusitadas. Ainda podemos destacar os trabalhos arquitetônicos têxteis que são outras obras à parte. As estruturas destes lugares são todas pensadas para materiais flexíveis e que podem propiciar uma série de outras sensações estéticas em que, a arte se propõe a fazer hoje, ou seja, trazer o usuário para mais próximo do trabalho; fazendo-o experimentar, participar do processo de concepção final. 2 Tecidos e o Tecnológico Os têxteis sempre serão objetos de contemplação e suas características físicas e visuais foram e estão sendo aprimoradas, à medida que, o homem sentia e sente a necessidade de ampliar suas funções, adequando-as de maneira eficiente ao corpo. Segundo, Pezzolo (2007) os tecidos possuem como uma das características primordiais, o entrelaçamento da identidade social e cultural de um povo. É neste sentido, que tratamos nosso têxtil sensório como sendo uma diversidade de padronagens (bases) que podem expandir as informações do corpo virtual. Para Couchot (2003) As informações externas, do mundo real, são desmaterializadas nas relações homem e máquina, constituindo-se em possibilidades decodificadas no espaço numérico. Estas informações numéricas se transformam, expandindo a relação entre o cibernético e o corpo. Investigar criteriosamente como os tecidos podem ser aproveitados como sendo extensões das sensações, permite ampliar a criação de roupas artísticas eletrônicas que possuem, hoje, uma série de funções poéticas e estéticas, além de alguns pesquisadores interessados no assunto. Algumas empresas do setor ampliaram o leque de suas pesquisas, e estão dialogando com as áreas de artes e ciências para desenvolverem novas idéias. Daí pensarmos na moda como sendo uma estrutura de personalização da imagem (roupa) que o proponente pretende desenvolver. A moda neste projeto é a sustentação da criação de um objeto que se decodifica a partir do momento em que é transformado pelo usuário. Dentro desta linha de pensamento vamos ver uma série de trabalhos de moda, cuja participação do usuário é fundamental para que a poética se estabeleça. Mais adiante vamos apresentar alguns designers e estilistas que imergiram na cibernética e na robótica para ampliarem suas discussões estéticas na moda. O Tecido como Objeto Sensível Ao delimitarmos como tema, o tecido sensório, delineamos a possibilidade de construção de sensações em qualquer lugar, a qualquer momento. Nesta vertente, este texto possui como referencial, a evolução das roupas eletrônicas para que, possamos propor a ampliar a discussão utilizando o tecido sensório como extensão desta roupa. Esta peça 3 vestível não mais se veicula à apenas, proteção ou adorno. Esta roupa se metamorfoseia através dos aparatos tecnológicos. Desta forma, o potencial da roupa eletrônica tem provocado profundas mudanças na experiência entre corpo e mente. A roupa eletrônica proposta nesta discussão, advém deste tecido tecnologicamente modificado. É instigante ver a moda se apropriando dos suportes eletrônicos para criar peças, que instigam o olhar e a participação. Nesta perspectiva, ver a colaboração entre áreas diversas no desenvolvimento destes objetos, é entender que todo o processo de sua concepção é constituído de memórias e troca de informações múltiplas. Ao longo dos anos a moda foi ampliando o seu “cardápio” de criações e provocando no corpo mudanças estéticas através de novas formas, materiais e tecnologias. Neste sentido, os aparatos eletrônicos foram ampliando outros espaços e congregando novas significações para a roupa. Assim, como Oiticica através do trabalho Parangolé vai proporcionar relações interativas na arte através dos tecidos, a roupa eletrônica vai configurar um novo vestir. Fazendo um apanhado histórico, Bradley Quin recaptula um detalhe importante no processo de inserção da tecnologia no vestuário, provocando o sensacional. The dialogue between technolotions and fashion is nothing new. Looking back over the past two centuries reveals how fashion itself can be considered to be a history of technology. From the publicationo f Jules Verne's From the Earth to the Moon in 1865, the possibilities and potentials that technology held for clothing fascinated fashion and science alike. At a time when the design techniques used to create crinolines, corsets and soldier's uniforms were considered to be techniques innovations, the spacesuits that Verne's fictitious characters wore would have been a nineteenth-century fashion fantasy.(2002, p. 03) Neste fascínio tecnológico proporcionado pela obra de Julio Verne, a moda vai se transformar, dando lugar a uma série de possibilidades técnicas que vão dimensionar uma outra vertente do vestir. E é nesta configuração que a moda foi se adaptando e caminhando para uma nova representação visual. Para Saltzman (2004) a relação do vestir e movimentar-se já sistematizam a interação corpo e roupa, contudo ela vai mais além: Este trabajo de investigación sobre la interación de las cualidades del textil y el movimiento del cuerpo resulta una frente inagotable de configuraciones morfológicas, 4 imposibles de imaginar antes de la producción de los prototipos. Tan numerosas son las variables a desarrollar que escapan a toda planificación: se bien se analizan movimientos rítmicos y pecursivos, el accionar del cuerpo en el vestido ... (2004, p. 152). O interesse pelo desenvolvimento artístico do vestível eletrônico parte de uma intensa busca pela descoberta de novas sensações. Isso acaba conferindo uma liberdade de criação e formação de opinião muita além das fronteiras do mercado de moda. As coleções que transitam pelas experimentações tecnológicas traduzem em formas, linhas e materiais, novas relações de criação poética, congregando um conjunto de propostas sofisticadas e impactantes. Para VENTURELLI (2006. p. 157): Busca-se uma estética que mergulhe na produção de novos infinitos a partir de uma emersão na finitude sensível, infinitos não só carregados de virtualidade como também de potencialidades atualizáveis, distinguindo-se dos universais catalogados pelas artes, a filosofia e a psicanálise tradicionais – não xenófoba, não racista, não falocrática, uma estética com um novo amor pelo desconhecido, em que se inclua o inconsciente maquínico e a produção inter-subejetiva, decorrente dos problemas do conhecimento cada vez mais “polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários, enfim.”(MORIN, 1999. p. 13). A verdade é que dentro de uma série de trabalhos desenvolvidos por designers, em parceria com empresas e colaboração com outras áreas, a preocupação com o não cotidiano e com a tecnologia é uma constante e tem sido cada vez mais bem elaborada e cobrada pelo próprio usuário. Isso ocorre por dois motivos simples: o primeiro consiste na apresentação de uma novidade constante; e o segundo consiste em uma pesquisa intensa pelo espetacular e consideravelmente à frente da atualidade em que estamos situados. Extensão da Roupa Eletrônica Citando alguns exemplos consideráveis sobre o trabalho com moda tecnológica, estão os estilistas: Hussein Chalayan com suas coleções ora robotizadas ora interconectadas com o público, via dispositivos digitais. Pia Myrvold que tem na cibercultura uma inspiração para desenvolver em seu website www.cybercouture.com mudanças no vestir, pois ela, dentro do universo da moda, é pioneira no tratar as novas relações como o espaço, a roupa, as tecnologias e a sociedade dentro de universo cibernético. Segundo ela, “I also 5 realised that a truly interdisciplinary universe could be linked by technology to the clothes and from the clothes into practical reality”. (QUIN, 2002, p.78). Chistopher J. Glaister & Michelle Shakallis, UK. Estes dois designers trabalham com a transformação de sinais do Iphone através da decodificação das estampas digitais na malha da roupa. (2005, p. 148). Além destes, vários outros exemplos são significativos, pois estão na mão da contemporaneidade e dialogando com as novas possibilidades que a tecnologia atual tem oferecido para ampliar as discussões, como por exemplo, entre: espaço, tempo, corpo e interação ou, tecnologia, ciência e arte. No contexto artístico, não se pode negar a importância do processo de criação que envolve várias pesquisas de diferentes áreas, comprovando cada vez mais a importância do artista de conhecer linguagens de programação para a elaboração dos softwares de arte, cuja finalidade difere muitas vezes da ciência, pois não é criado necessariamente para comprovar algum tipo de verdade, mas busca, na maioria das vezes, criar situações que despertem sensibilidades diversas, desde as corporais até as mais conceituais para o público que atua nos diferentes espaços de veiculação dessas obras, sejam eles virtuais ou reais. (VENTURELLI; MACIEL, 2008, p. 180). As mudanças na produção imagética através da contemporaneidade podem ser observadas a partir da introdução de novos mecanismos e instrumentação tecnológica, que provocaram e continuam provocando uma reorientação dos processos de representação plástica dos objetos. Assim, a configuração de um “novo” paradigma no desenvolvimento destas imagens tem sido uma das questões para as análises e investigações técnicocientíficas em muitas construções artísticas. São tantos os “apetrechos” eletrônicos em nosso cotidiano que, não há mais como ignorarmos uma realidade tão “espacial” e, ao mesmo tempo, tão virtual e engenhosa. O objeto de moda versus objeto de arte compreende o “reflexo do seu tempo e de sua sociedade” por apresentarem a mesma leitura, sendo ambos os objetos abertos e sujeitos à recriação, releitura e interpretação (MOURA,1995). Reflexões Finais 6 A transitoriedade dos objetos e fatos é um componente indissolúvel da vida, principalmente nos dias de hoje. Mutação, transformação, personalização e interação são conceitos que se consolidam como experiências, assim que acordamos. Eles nos acompanham, ao longo do dia, em um jogo constante de subjetividades e objetividades, com sucessivas alternâncias de avaliação a partir de modificações do ponto de observação e participação. Desta forma, somos levados a refletir sobre os processos de criação que envolvem todos estes conceitos. Para Tavares (2000, p. 38) “O fato estético não é exclusivamente efetivado a partir da fonte emissora. As possíveis interpretações se concretizam por meio da relação entre artista e receptor, mediada por diferentes interfaces e estabelecida pela própria obra enquanto mensagem”. Nesta perspectiva a arte, a tecnologia e a moda sustentam o pensamento aqui delineado, ou seja, algo como fonte de participação poética, híbrida e inter-relacionado com as questões do contemporâneo. Referências bibliográficas COLCHESTER, Chloë. The new textiles. – Londres: Thames & Hudson, 1991. COUCHOT, Edmond. A tecnologia na arte: da fotografia à realidade virtual. Traduzido por Sandra Rey. – Porto Alegre: Editora da UFRGS, 203. FAVARETTO, Celso. A Invenção de Hélio Oiticica. – São Paulo: EDUSP, 1992. GIBSON, Willian. Neuromancer. Tradução de Alexa Antunes. – São Paulo: Editora Aleph, 2003. MOURA, Mônica. Estilos de Arte, Estilos de Moda. Universidade Aberta – moda, cultura e comunicação. Fasc. Nº12, p. 4 e 5. Fundação Demócrito Rocha, Fortaleza, 1995. PEZZOLO, Dinah Bueno. Tecidos: história, tramas, tipos e usos. – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2007 QUINN, Bradley. Techno Fashion. – New York: Editora Oxford, 2002. SALTZMAN, Andrea. El cuerpo diseñado: sobre la formaen el proyecto de la vestimenta. – Buenos Aires: Paidós, 2004. SEYMOUR, Sabine. Fashionable Technology: the intersection of design, fashion, science and technology. Áustria: Springer- Verlag/Wien, 2008. TAVARES, Mônica. A recepção no contexto das poéticas interativas. Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, Escola de Comunicação e Artes, 2000. TOPHAM, Sean; SMITH, Coutenay. Xtreme Fashion. – Berlim: Editora Prestel, 2005. VENTURELLI, Suzete. Arte: espaço_tempo_imagem. – Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004. 7 ______________. MACIEL, Mario. Imagem Interativa. – Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008. 8