Panorama Macroeconômico Artigos
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Nº 310 Julho / 2006 FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS issn 1234-5678 Panorama Macroeconômico Segundo a Carta Fipe, há sinais claros que o País está conseguindo diminuir um de seus grandes problemas: a enorme taxa de juros. Rodrigo Celoto analisa os resultados das contas públicas no acumulado de janeiro a maio deste ano, destacando o crescimento da receita do Tesouro e nova redução do superávit primário. Roberto Luis Troster analisa duas decisões: a do Copom em fixar a taxa Selic no nível mais baixo em três décadas, e a do CMN em fixar a meta de inflação para 2008 em 4,5%. Simão Davi Silber comenta o desempenho do setor externo brasileiro, projetando um superávit elevado para este ano. Antonio Carlos Lima Nogueira avalia a rentabilidade da produção de soja para a exportação, e destaca a necessidade de solução dos gargalos de infra-estrutura. Manuel Enriquez Garcia analisa dados sobre o nível de atividade e emprego, ressaltando resultado melhor do PIB no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2005 e crescimento da produção industrial. Artigos Carlos Eduardo Soares Gonçalves apresenta algumas teorias que tentam justificar a persistência das elevadas taxas de juros no País, a despeito da melhora nos indicadores econômicos. Cláudia Assunção dos Santos Viegas inicia uma série de três artigos em que analisará o movimento de fusões e aquisições na indústria nacional de bebidas e alimentos, e seus efeitos sobre o preço para os consumidores. Julio Manuel Pires e Iraci del Nero da Costa comentam como os recentes eventos ocorridos na Bolívia vieram a afetar a pretensão de Lula de ser a liderança da esquerda na América Latina. Daniela Corrêa analisa os quase quarenta anos de crescimento elevado da economia da Indonésia, interrompido apenas pela crise asiática, e o papel das políticas públicas nesse contexto. Nº 310 JULHO DE 2006 PANORAMA MACROECONÔMICO carta Fipe . ......................................................................................................................... 3 INFORMAÇÕES FIPE É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL DE CONJUNTURA ECONÔMICA DA FUNDAÇÃO issn 1234-5678 finanças públicas . ........................................................................................................... 4 Rodrigo Rodrigues Celoto política monetária ........................................................................................................... 6 Roberto Luis Troster CONSELHO CURADOR Hélio Nogueira da Cruz (Presidente) André Franco Montoro Filho Andrea Sandro Calabi Joaquim José Martins Guilhoto Ricardo Abramovay Maria Cristina Cacciamali Simão Davi Silber setor externo ..................................................................................................................... 8 Simão Davi Silber agricultura ........................................................................................................................ 9 Antonio Carlos Lima Nogueira nível de atividade e emprego . .....................................................................................11 Manuel Enriquez Garcia DIRETORIA DIRETOR PRESIDENTE Carlos Antonio Luque ARTIGOS 13 ........................................................................................................ juros reais no Brasil Carlos Eduardo Soares Gonçalves 16 .............................. transformações recentes na oferta e na demanda da indústria brasileira de alimentos e bebidas DIRETOR DE PESQUISA Eduardo Haddad DIRETOR DE CURSOS Paulo Picchetti PÓS-GRADUAÇÃO Cláudia Assunção dos Santos Viegas 20 ........................................................................................... lições da crise boliv(ar)iana Julio Manuel Pires, Iraci del Nero da Costa Dante Mendes Aldrighi SECRETARIA EXECUTIVA Domingos Pimentel Bortoletto 22 .............................................. Indonésia: políticas de crescimento e a crise asiática Daniela Corrêa COORDENAÇÃO DE PUBLICAÇÕES SUPERVISÃO EDITORIAL E PRODUÇÃO Eny Elza Ceotto EDITOR CHEFE Gilberto Tadeu Lima CONSELHO EDITORIAL Ivo Torres Lenina Pomeranz Luiz Martins Lopes José Paulo Z. Chahad Maria Cristina Cacciamali Maria Helena Pallares Zockun Simão Davi Silber AS IDÉIAS E OPINIÕES EXPOSTAS NOS ARTIGOS SÃO DE RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DOS AUTORES, NÃO REFLETINDO A OPINIÃO DA FIPE ASSISTENTES Maria de Jesus Soares Luis Dias Pereira PROGRAMAÇÃO VISUAL E COMPOSIÇÃO Sandra Vilas Boas panorama macroeconômico carta Fipe Uma nova boa notícia foi dada em 19 de julho com o término da reunião do COPOM – Comitê de Política Monetária – do Banco Central: a taxa de juros caiu para 14,75%, o menor nível desde sua criação em 1986. Evidentemente, é preciso considerar as diferentes circunstâncias inflacionárias. Entretanto, foi a nona redução seguida dessa taxa e é importante que essa tendência continue. De outro lado, a taxa real de juros está agora em 10%, considerando que a inflação esperada para os próximos doze meses é de 4,33%. Ela é ainda elevada, a primeira do mundo, mas também está em queda. Há sinais claros que o País está conseguindo diminuir um de seus maiores problemas macroeconômicos dos últimos oito anos: a enorme taxa de juros. Em primeiro lugar, o Banco Central não terá que desinflar a economia para a meta de inflação nos próximos anos. Nesse contexto, o setor externo deverá contribuir negativamente para a demanda agregada daqui para a frente, o mesmo ocorrendo com os gastos públicos neste ano eleitoral. Finalmente, espera-se que a sociedade desacelere o crescimento do volume de crédito ao consumidor. Vejamos os seguintes dados. A taxa acumulada do IPCA nos últimos doze meses terminados em junho é de 4,03%. Para o ano, o mercado prevê taxa ainda menor: de 3,77%. A mesma taxa acumulada para o INPC é de 2,79%, e para o IPC-FIPE, de 1,85%. A falta maior para a política monetária, uma vez que o Banco Central nunca começou o período da meta com a inflação já no nível (ou abaixo) da mesma. De outro lado, a desaceleração, na margem, do saldo comercial já é bastante significativa. Isto mostra que o efeito-câmbio deverá impactar na desaceleração do saldo, o que já se fez sentir no primeiro semestre deste ano. Isto abrirá mais espaço para o aumento da absorção interna. O mesmo efeito, com alguma defasagem, deverá ocorrer com os gastos públicos neste ano eleitoral, com forte sazonalidade no seu padrão. Depois das eleições já se começará a sentir os efeitos da desaceleração nesses gastos, o que já está começando a acontecer. Desta forma, haverá ainda mais espaço para a expansão da absorção interna privada. julho de 2006 A perspectiva atual é muito melhor que em todos os outros sete anos da política de metas de inflação. Portanto, há motivos que reforçam a expectativa de que o Banco Central continue o processo de redução da taxa de juros, com o simultâneo cumprimento das metas de inflação (4,5% em 2007). da necessidade de desinflar vai dar uma folga muito O volume de crédito ao consumo, por sua vez, continua ainda em expansão acelerada. Ele representava 5,66% do PIB em dezembro de 2003, enquanto em maio último ele representava 8,82% do PIB. No entanto, há sinais de desaceleração da taxa de crescimento. Em setembro de 2005 a taxa de crescimento do volume de crédito ao consumo era de 40% relativamente ao mesmo mês do ano anterior. Esta taxa está em desaceleração e estava em 31% no último mês de maio. Portanto, também é a primeira vez que o Banco Central pode ter à frente um mercado de crédito com maior nível de saciedade e em desaceleração. Este cenário favorável só poderá ser interrompido se houver algum choque de oferta não acomodável na situação atual, o que não é impossível, mas não parece provável. Rodrigo Rodrigues Celoto (*) finanças públicas - acumulado de janeiro a maio a) Tesouro Nacional tabela 1 - resultado do Tesouro Nacional - R$ milhões A Receita total do Tesouro Nacional cresceu de 11.3% nos primeiros cinco meses do ano relativamente ao mesmo período do ano passado, saltando de R$ 194.7 bilhões em 2005 para R$ 216.7 bilhões em 2006. A Receitas do Tesouro Receita da Previdência 194.701 216.748 11,3% 153.654 170.596 11,0% 40.440 45.570 12,7% -2,5% 607 592 Transferências 34.859 37.803 8,4% 153.7 bilhões no mesmo período do ano passado, um Receita Líquida 159.842 178.945 12,0% crescimento de 11.0%, sendo que as receitas de Previ- Despesa Total 127.397 146.692 15,1% para R$ 45.6 bilhões. As transferências tiveram um acréscimo de 8.4% no período supracitado, passando de R$ 34.9 bilhões para R$ 37.8 bilhões no mesmo período do ano em curso. A receita líquida apresentou um crescimento de 12%. Receita do Banco Central % 06/05 receita do Tesouro foi de R$ 170.6 bilhões contra R$ dência cresceram 12.7%, saltando de R$ 40.4 bilhões julho de 2006 Receita Total Jan-Maio 2005 2006 Despesas do Tesouro 73.386 84.693 15,4% Pessoal e encargos 36.022 40.742 13,1% Custeio e Capital 37.093 43.707 17,8% Transferências ao Banco Central 271 244 -9,7% Despesas da Previdência Social 53.383 61.389 15,0% Despesas do Banco Central 629 610 -3,1% Resultado Primário Governo Central 32.444 32.253 -0,6% Tesouro Nacional 45.409 48.090 5,9% Previdência Social (12.943) (15.819) 22,2% Banco Central (22) A despesa total cresceu 15.1% nos primeiros cinco Resultado Primário Governo/PIB meses do ano contra igual período do ano passado, Fonte: STN. 4,32% (18) -18,8% 3,99% -7,6% saltando de R$ 127.4 bilhões para R$ 146.7 bilhões. As despesas com Pessoal e Encargos sociais foram de R$ b) Necessidade de Financiamento do Setor Público 40.7 bilhões no período, as despesas com benefícios previdenciários foram de R$ 61.4 bilhões e as despesas com custeio e capital foram de R$ 43.7 bilhões. Os três itens de despesa acima apresentaram, respectivamente, um acréscimo de 13.1%, 15% e 17.8%. O Resultado Primário do Governo Central ficou em R$ 32.2 bilhões (3.99% do PIB) contra R$ 32.4 bilhões (4.32% do PIB) no mesmo período do ano passado, sendo de R$ 48.1 bilhões o superávit do Tesouro Nacional, R$ 15.8 bilhões o déficit da Previdência Social e de R$ 18 milhões o déficit do Banco Central. O superávit primário dos primeiros cinco meses do ano foi de R$ 46.7 bilhões (5.8% do PIB) contra R$ 50.3 bilhões (6.7% do PIB) no mesmo período de 2005. O governo central diminuiu seu superávit de R$ 34.4 bilhões (4.57% do PIB) para R$ 31.6 bilhões (3.92% do PIB). Os governos regionais obtiveram um superávit de R$ 10.1 bilhões (1.25% do PIB) nos cinco primeiros meses do ano contra R$ 12 bilhões (1.6% do PIB) no mesmo período do ano anterior. As estatais saíram de um superávit primário de R$ 4 bilhões (0.53% do PIB) para um superávit de R$ 5 bilhões (0.62% do PIB). tabela 2 - necessidades de financiamento do setor público Nominal Governo central Governo federal1/ Bacen Governos regionais Governos estaduais Governos municipais Empresas estatais Empresas estatais federais Empresas estatais estaduais Empresas estatais municipais Juros nominais Governo central Governo federal1/ Bacen Governos regionais Governos estaduais Governos municipais Empresas estatais Empresas estatais federais Empresas estatais estaduais Empresas estatais municipais Primário Governo central Governo federal Bacen INSS Governos regionais Governos estaduais Governos municipais Empresas estatais Empresas estatais federais Empresas estatais estaduais Empresas estatais municipais 14 568 13 713 13 632 81 3 327 3 467 - 140 -2 472 - 837 -1 675 40 64 895 48 064 48 005 59 15 332 12 827 2 506 1 498 825 591 83 -50 326 -34 351 -47 316 22 12 942 -12 005 -9 360 -2 646 -3 970 -1 662 -2 265 - 43 63 641 73 284 74 106 - 822 5 416 4 755 661 -15 060 -14 248 - 940 128 157 146 129 025 130 159 -1 134 26 739 21 949 4 790 1 381 -1 070 2 220 230 -93 505 -55 741 -93 629 312 37 576 -21 323 -17 194 -4 129 -16 440 -13 178 -3 160 - 102 17 495 22 749 20 795 1 953 832 208 624 -6 085 -4 977 -1 209 101 64 206 54 402 52 468 1 934 10 917 8 992 1 925 -1 114 -2 120 913 93 -46 710 -31 654 -47 491 19 15 818 -10 085 -8 784 -1 301 -4 971 -2 856 -2 122 7 % PIB 2005 Jan-Maio 1,94 1,82 1,81 0,01 0,44 0,46 -0,02 -0,33 -0,11 -0,22 0,01 8,63 6,39 6,39 0,01 2,04 1,71 0,33 0,20 0,11 0,08 0,01 -6,70 -4,57 -6,30 0,00 1,72 -1,60 -1,25 -0,35 -0,53 -0,22 -0,30 -0,01 Ano 2006 Jan-Maio 3,28 3,78 3,82 -0,04 0,28 0,25 0,03 -0,78 -0,74 -0,05 0,01 8,11 6,66 6,72 -0,06 1,38 1,13 0,25 0,07 -0,06 0,11 0,01 -4,83 -2,88 -4,83 0,02 1,94 -1,10 -0,89 -0,21 -0,85 -0,68 -0,16 -0,01 2,17 2,82 2,58 0,24 0,10 0,03 0,08 -0,75 -0,62 -0,15 0,01 7,95 6,74 6,50 0,24 1,35 1,11 0,24 -0,14 -0,26 0,11 0,01 -5,79 -3,92 -5,88 0,00 1,96 -1,25 -1,09 -0,16 -0,62 -0,35 -0,26 0,00 julho de 2006 Discriminação R$ milhões Correntes 2005 2006 Jan-Maio Ano Jan-Maio Fonte: BCB. Notas: 1 - Inclui o INSS. (+) déficit (-) superávit. Os juros nominais de janeiro a maio totalizaram R$ 64.2 bilhões (7.95% do PIB) contra R$ 64.9 bilhões (8.63% do PIB) no mesmo período de 2005. Os gastos com juros do governo central subiram de 6.4% do PIB nos primeiros cinco meses do ano passado para 6.74% do PIB no mesmo período do corrente ano. As estatais reduziram seus gastos com juros de 0.2% do PIB para receitas com juros de 0.14% do PIB e os governos regionais também diminuíram seus gastos com juros de 2.04% do PIB para 1.35% do PIB. O resultado nominal decorrente do desempenho apresentado acima foi de R$ 17.5 bilhões (2.17% do PIB) de déficit contra um déficit de R$ 14.6 bilhões (1.94 % do PIB) no mesmo período do ano passado. O governo central fechou esses cinco primeiros do ano com um déficit nominal de 2.82% do PIB, os governos regionais com um déficit de R$ 0.1% do PIB e as empresas estatais com um superávit de 0.75% do PIB. (*) Economista – Participante do Grupo de Conjuntura da FIPE. E-mail: [email protected]. Roberto Luis Troster (*) política monetária julho de 2006 O Copom - Comitê de Política Monetária do Banco Central, na reunião de 19 de julho, reduziu a taxa básica para 14,75% a.a.. É a mais baixa desde a criação do Copom em 1996 e a menor taxa praticada pelo Banco Central do Brasil desde abril de 1975. É uma conquista importante que deve ser consolidada. A decisão foi tomada com um cenário externo agitado: há problemas no Oriente Médio – o conflito entre Israel e Líbano aumenta a tensão em toda a região –, o preço do petróleo está num patamar elevado e há indefinições na evolução das taxas de juros do FED – os últimos números da economia norte-americana aumentaram a percepção de que haverá mais uma elevação na reunião de agosto. Não obstante, o quadro macroeconômico interno se mostrou adequado para a continuação do processo de redução de juros. Todos os índices de inflação, bem como suas expectativas, estão consistentes com a redução de taxas e não há pressões de demanda no processo de estabilização de preços no horizonte de curto prazo. O processo de estabilização de preços é resultado da combinação de política monetária consistente, política de ajustes fiscais nos últimos anos e um câmbio valorizado por um cenário internacional conveniente para o ajuste externo brasileiro. A curto prazo o cenário se apresenta estável e as taxas devem ser reduzidas nas próximas reuniões. É razoável prever uma taxa inferior a 14% na virada do ano; entretanto, a manutenção de juros num patamar baixo e a possibilidade de reduções de juros mais significativas, no futuro, não está assegurada. O câmbio está valorizado e pode pressionar no futuro, a dinâmica do ajuste fiscal é precária e o crescimento da economia é baixo. Deve-se avançar em ganhos de produtividade e sustentabilidade fiscal para estabili- zar a taxa de juros num patamar baixo. Isto demanda determinação política. O Conselho Monetário Nacional fixou a meta de inflação para 2008 e ratificou a de 2007 em 4,50%. A decisão condicionará a política monetária no próximo biênio e pode também consolidar uma fase importante do Real. Enquanto uma meta ambiciosa demais limita o crescimento, uma frouxa demais alimenta desnecessariamente as expectativas. O regime de metas, combinado com o câmbio flexível e a disciplina fiscal, se iniciou há sete anos, substituindo o da “âncora cambial” no ápice da crise externa. Seu objetivo era fixar a diretriz para a atuação do Banco Central. Sua implantação foi complicada em razão dos choques de oferta – crise de energia, impactos do default argentino e dos escândalos contábeis etc. – e da estrutura de preços internos – indexação elevada e canais de transmissão de política monetária estreitos. Sua condução conseguiu combinar transparência com autônomia nas decisões, e flexibilidade para absorver crises com rigor em perseguir objetivos. Os resultados são positivos e a independência operacional do Banco Central do Brasil foi obtida por mérito. Até o início deste governo não havia uma meta de longo prazo explícita. Entretanto, o presidente do Banco Central e o então ministro da Fazenda fixaram a meta de longo prazo em 4,00%, em 2003. Os resultados obtidos até agora mostram que é factível terminar a década com a inflação estabilizada nesse patamar. O momento é oportuno para fixar a meta de 2008 nesse valor, com ganhos de bem-estar. O CMN repetiu, para 2008, a meta de 4,50% de 2006 e 2007, mas poderia ter sido mais audacioso e baixar para 4,00%. Desta forma, afirmaria o compromisso com uma inflação mais baixa, com a eliminação dos fatores que a tornam latente, e em especial a indexação, bem como com o cumprimento da meta de inflação de longo prazo. Os custos de transição são mínimos e os ganhos expressivos. O regime de metas de inflação foi um avanço institucional importante, que substituiu uma história de confiscos, planos econômicos mirabolantes, mudanças de moeda etc. com metas críveis, coordenando expectativas e minimizando os custos socias de absorção de choques. Há espaço para avançar mais. A inflação está arrefecendo, a taxa de captação externa está no patamar histórico mais baixo, o Real está valorizado e a dinâmica da dívida pública está sob controle. As taxas de juros internas estão em queda, e em algum momento, em 2008, as taxas de juros básicas nominais internas serão de um dígito. As metas de inflação de países industrializados que adotaram o regime estão centradas num patamar inferior: cerca de 2%. Entretanto, é conveniente consolidar a taxa de 4% por alguns anos e depois avançar. O Banco Central conseguiu, com muito esforço, uma boa reputação, e a competência de sua equipe é um consenso. Nos últimos anos, a aplicação do regime de metas de inflação no Brasil apresenta resultados notáveis; as expectativas apontam que as metas deste ano e do próximo, de 4,50%, serão atingidas. Houve uma melhora nos mecanismos de transmissão: o canal do crédito foi alargado, a parcela pós-fixada da dívida foi reduzida e o Copom ganhou credibilidade. A taxa de sacrifício – perda de crescimento dividido por perda de inflação – está em queda. Ou seja, os custos sociais de reduzir a inflação diminuíram. A moeda é depositária da confiança social por suas funções de reserva de valor, unidade de conta e meio de pagamento e a taxa de juros é a relação entre o presente o futuro. É uma construção social que se ganha com dificuldade e se perde rapidamente. Baixar os juros exige perserverança. Há uma outra agenda complementar para baixar as taxas de juros dos tomadores de empréstimos, e inclui, além da redução dos juros básicos, a eliminação dos depósitos compulsórios, a racionalização da tributação de operações financeiras, o fim dos subsídios cruzados, a diminuição dos custos de observância, a melhoria do quadro institucional e o aparelhamento do judiciário. julho de 2006 A queda da inflação tem impactos positivos de bemestar: há uma diminuição nas taxas reais e nominais de juros, bem como na arrecadação do imposto inflacionário, a absorção de choques de oferta tem custos menores, há uma dispersão menor de preços, a volatilidade financeira é menor, a oferta de crédito é mais abundante, a possibilidade de surpresas inflacionárias diminui consideravelmente e, por fim, traz impactos positivos na desconcentração da renda. A agenda do futuro da moeda inclui a diminuição da incerteza jurisdicional, o aprimoramento dos mecanismos de transmissão, o abandono do ano calendário gregoriano, a composição do crédito, a dinâmica fiscal, a ampliação do Conselho Monetário Nacional, o índice de preços a ser utilizado, o tamanho da banda, a acomodação a choques, a independência do BC, a composição do Copom e os instrumentos de política monetária. É imperativo baixar os juros e mantê-los baixos definitivamente. As taxas elevadas concentram a renda e freiam o crescimento. É tempo de ousar, pois há uma percepção de que a aplicação rígida apresenta resultados melhores. A boa política econômica é consistente intertemporalmente e maximiza bem-estar. (*) Fipe e Febraban. E-mail: [email protected] Simão Davi Silber (*) julho de 2006 setor externo O desempenho do setor externo da economia brasileira continua sendo o grande destaque dos efeitos favoráveis das políticas macroeconômicas implementadas a partir de 1999. Após quase oito anos de regime de câmbio flutuante, e com a economia mundial crescendo a taxas próximas a 5% ao ano, o País conseguiu passar de um déficit de balanço de pagamentos em transações correntes de US$ 33,4 bilhões para um superávit de US$ 14,2 bilhões em 2005. Trata-se de um ajustamento das contas externas de US$ 47,6 bilhões, ou 6% do PIB. Para este ano a previsão é de que tal superávit ainda continuar elevado, devendo atingir a cifra de US$ 9 bilhões em 2006. Os parâmetros básicos de solvência externa do País melhoraram significativamente durante este período: a dívida externa líquida, que havia atingido seu máximo no ano de 1999 com uma cifra de US$ 205 bilhões, estava no patamar de US$ 120 bilhões em maio deste ano. Trata-se de uma redução de US$ 85 bilhões na dívida externa brasileira. Nos últimos dozes meses encerrados em junho, a exportação cumulativa do País foi de US$ 124 bilhões. Portanto, pelo critério dívida externa líquida/ exportações o País já é grau de investimento, pois este parâmetro situa-se abaixo da unidade. As exportações brasileiras não estão crescendo no mesmo ritmo que o do ano passado: com as informações disponíveis até junho, o crescimento trimestral dessazonalizado das exportações brasileiras foi de 7,8%, contra um crescimento de 19% das importações. A título de comparação, pode-se indicar que seis meses atrás as exportações estavam crescendo a uma taxa anualizada de 20% e as importações cresciam a 11%. Com isto o País deverá encerrar o ano com um superávit um pouco abaixo de US$ 40 bilhões, ainda extremamente elevado, mas inferior ao do ano passado, que beirou os US$ 45 bilhões. Nas demais contas do balanço de pagamentos, devese destacar: em primeiro lugar, a ampliação do déficit na conta serviços e rendas, que já havia apresentado um forte deterioração em 2005, particularmente em decorrência do aumento das remessas de lucros e dividendos de empresas estrangeiras com filiais no Brasil. No ano passado, esse déficit foi de US$ 34 bilhões; a persistir a tendência observada até maio, esse déficit será de US$ 35 bilhões neste ano. Em segundo lugar, o balanço em transações correntes deverá permanecer superavitário neste exercício, em um patamar próximo a US$ 9 bilhões (1% do PIB). Finalmente, a conta capital e financeira está superavitária em US$ 5 bilhões e as reservas do Banco Central são de US$ 63,5 bilhões. Com estes números pode-se concluir que o setor externo não é motivo de grandes preocupações para os formuladores da política macroeconômica brasileira. (*) Professor do Departamento de Economia da FEA-USP. E-mail: [email protected] Antonio Carlos Lima Nogueira (*) agricultura: a rentabilidade da produção de soja para exportação Qual é a rentabilidade da produção de soja para exportação no Brasil? No contexto da atual crise no agronegócio brasileiro, torna-se relevante observar o desempenho da principal cultura em área plantada de grãos, com 22,2 milhões de hectares (47% do total), segundo o levantamento de julho de 2006 da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). Para tanto é necessário avaliar o comportamento de indicadores que afetam a receita e a despesa da atividade, considerando-se o direcionamento da produção para a exportação. tabela 2 – rentabilidade da soja para exportação nos EUA, Argentina e Brasil tabela 1 – indicadores de produção de soja em MT e exportação Indicador Set./out. 2005 Abr. 2006 Dólar (R$) Diesel (US$/l) Frete e porto (US$/ton soja) Fertilizante 2/18/18 (US$/ton) Calcário (US$/ton) Colheitadeira de 23 pés (US$) Trator de 180 HP (US$) Defensivos (US$/ha) Produtividade (sacas/ha) 3,00 0,50 60,00 180,00 45,00 90.000,00 35.000,00 40,00 55 2,10 1,00 100,00 260,00 75,00 190.000,00 75.000,00 80,00 50 Fonte: Elaboração do autor com dados de Geld (2006). Considerando-se que os principais concorrentes do Brasil no mercado internacional de soja são os EUA e a Argentina, é importante fazer uma comparação entre as rentabilidades que esses países conseguem. Na Tabela 2 estão os cálculos da rentabilidade desses países e do Brasil no ponto de equilíbrio, caracterizado o custo agregado de frete e porto de US$ 80,00/ton de soja. julho de 2006 Com relação ao comércio exterior, o Dr. Steve Geld analisou a produção de soja no Estado do Mato Grosso e o seu escoamento pelo porto de Paranaguá, PR, em apresentação no Seminário Perspectivas para o Agribusiness em 2006/2007 (Bolsa Mercantil e de Futuros, maio 2006, São Paulo). Foram comparados os valores de alguns indicadores cotados em Dólar em set./out. 2002 e abr. 2006, conforme apresentado na Tabela 1. Observa-se que ocorreu uma desvalorização do Dólar de 30%, redução da produtividade em 9% e incrementos nos preços em Dólar dos insumos entre 44,4 e 114%. Fixando-se o nível de preço da soja, essas alterações provocam redução na receita e aumento líquido nos custos. Outra análise apresentada pelo Dr. Geld foi o impacto da distância do local da produção ao porto no resultado da atividade. Considerando-se as rotas rodoviárias disponíveis para o transporte do grão, os custos de transporte crescem em direção ao norte do Estado de Mato Grosso. Para exportações realizadas com a cotação de US$ 6,17/bushel na bolsa de Chicago, ajuste de US$ 0,10 (basis) e Dólar a R$ 2,36 define-se uma linha imaginária horizontal no mapa do MT próxima da cidade de Cuiabá, que representa o equilíbrio entre receita e despesa na produção de soja para exportação. Abaixo dessa linha a atividade gera resultado positivo, como em Primavera do Leste (US$ 20,26/ha) ou Campo Verde (US$ 52,63/ha). Acima da linha, a atividade gera prejuízos, como em Paranatinga (–US$ 36,69/ha), Campo Novo do Parecis (–US$ 60,70/ha) ou Sinop (–US$ 70,30/ha). Portanto, a produção de soja para exportação está inviabilizada em grande parte do Estado do Mato Grosso. Indicador Variação (%) - 30,0 50,0 66,6 44,4 66,6 111,1 114,3 100,0 - 9,0 CBOT (US$/bu) Prêmio (US$/bu) Preço FOB (US$/ton) Impostos de exportação (US$/ton) Frete + Porto Custo de produção (US$/ha) Produtividade (ton/ha) Custo por ton (US$) Margem (US$/ton)’ EUA Argentina Brasil 6,17 0,35 240,00 6,17 (0,10) 223,00 6,17 0,10 230,00 0,00 42,00 54,00 18,00 0,00 80,00 295,00 2,90 102,00 278,00 250,00 2,70 93,00 157,00 450,00 3,0 150,00 - Fonte: Elaboração do autor com dados de Geld (2006). Observa-se que os dois concorrentes se encontram em posição vantajosa com relação ao Brasil. Os EUA conseguem a maior margem do grupo, com US$ 278/ ton, com uma combinação de custos de frete e porto medianos e baixos custos de produção. A Argentina aparece em seguida com uma margem de US$ 157, obtida apesar da política irracional de cobrança de imposto sobre a exportação. Os custos de produção inferiores aos dos EUA e os baixos custos agregados de frete e porto produzem a vantagem na rentabilidade. julho de 2006 No caso do Brasil, é interessante avaliar as perspectivas dos diversos indicadores que possam alterar o quadro de baixa rentabilidade observado. Com relação ao custo de produção de US$ 450,00, sabe-se que os insumos industriais utilizados são derivados de petróleo (diesel e fertilizantes), cujo mercado internacional encontra-se em processo consistente de alta. Uma possibilidade de redução nesse item seria a adoção de biocombustíveis em larga escala, que também depende de investimentos em unidades processadoras e redes de distribuição. Portanto, não se pode esperar reduções relevantes nesse indicador como forma de aumentar a rentabilidade da atividade. na atuação dos portos. Assim, não se pode esperar alterações significativas nesse fator a curto prazo. Assim, a produção de soja para exportação no Brasil encontra-se em uma situação de impasse, na qual os ganhos obtidos em tecnologia e produtividade agrícola são perdidos nas etapas de logística. Esta condição torna-se ainda mais dramática se considerarmos que, entre os países analisados, é o único com potencial de expansão da área para aumentar a produção e aproveitar as oportunidades futuras previstas com o aumento do consumo global. Revela-se assim o desafio de solucionar os gargalos de infra-estrutura, com uma combinação de aprimoramentos institucionais e busca de recursos públicos e privados para investimentos. O resultado esperado é a obtenção de uma rentabilidade para a atividade que mantenha os agricultores atuais e atraia novos agentes econômicos. O preço de US$ 6,17/bushel encontra-se em nível acima do valor histórico, visto que a relação estoque/ consumo está em 28%, que é uma posição confortável. Entretanto, as perspectivas de aumento do consumo no futuro próximo, principalmente por parte da China, parecem indicar que o mercado estaria praticando um seguro para garantir esse abastecimento. Assim, também não se deve esperar aumento do preço internacional para a melhoria da rentabilidade da atividade no Brasil. Com relação à produtividade, o Brasil já consegue níveis superiores aos concorrentes, e dificilmente serão obtidos ganhos significativos nessa área, apesar dos constantes avanços obtidos com a biotecnologia. O custo agregado de frete e porto depende de investimentos em infra-estrutura e aumento da eficiência 10 (*) Doutorando da FEA-USP e Pesquisador do PENSA – Centro de Conhecimento em Agronegócios. E-mail: [email protected]. Manuel Enriquez Garcia (*) nível de atividade e emprego Segundo informações do IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB), medido a preços de mercado, e referente ao primeiro trimestre de 2006, em valor, alcançou a cifra de R$ 478,9 bilhões, em face de R$ 424,6 bilhões obtidos em igual trimestre de 2005. Do montante registrado no primeiro trimestre de 2006, R$ 424,6 bilhões são devidos ao Valor Adicionado a preços básicos, enquanto que os R$ 54,2 bilhões restantes constituíram-se em Impostos sobre a totalidade dos e nos últimos doze meses o incremento positivo foi de apenas +2,6%. Segundo o IBGE, aumentos no ritmo de crescimento do produto industrial brasileiro foram observados em treze das vinte e três atividades pesquisadas, bem como em três das quatro categorias de uso. produtos. Ainda mais, analisando-se os componentes do Valor Adicionado observa-se que a Agropecuária contribuiu com R$ 34,7 bilhões, a Indústria com R$ 168,5 bilhões e os Serviços totalizaram R$ 248,3 bilhões. Veículos Automotores (+6,2%), Alimentos (+2,5%) e Máquinas e Equipamentos (+3,1%). Com os piores desempenhos situaram-se: Material Eletrônico e Equipamentos de Comunicações (–7,9%) e Outros Químicos (–2,7%). Sob a ótica da renda, os dados coletados pelo IBGE dizem que, em igual período de tempo, a Renda Nacional Bruta atingiu o montante de R$ 463,9 bilhões e que a Poupança Bruta alcançou a cifra de R$ 103,6 bilhões. Por sua vez, sob a ótica da demanda, no primeiro trimestre de 2006, os dados do IBGE registraram que o Consumo das Famílias totalizou R$ 277,8 bilhões, o Consumo do Governo R$ 84,5 bilhões, a Formação Bruta de Capital Fixo situou-se em R$ 97,6 bilhões, enquanto que a variação de estoques totalizou a soma de R$ 2,8 bilhões. No setor externo, o registro mais importante foi a continuidade do superávit da Balança de Bens e Serviços, que ficou superavitária em R$ 16,0 bilhões (R$ 74,8 bilhões de exportações e R$ 58,7 bilhões de importações). Por sua vez, sob a ótica das categorias de uso, e ainda na comparação maio de 2006 em face de abril de 2006, a maior pressão positiva para a taxa de crescimento de +1,6% da Indústria teve sua origem no segmento de Bens Intermediários, com +1,9%, seguido por Bens de Capital, que registrou variação positiva de +1,8%. Também crescendo, contudo a uma menor taxa de variação, situou-se a categoria de Bens de Consumo Semi e não Duráveis, com +0,4%. Destaque deve ser dado ao crescimento negativo observado na categoria de Bens de Consumo Duráveis, em igual período de comparação, –0,3%, julho de 2006 Por outro lado, em termos pontuais, informações do mês de maio de 2006, as mais recentes até este momento, obtidas pela Pesquisa Industrial Mensal Produção Física, do IBGE, mostram que em relação a abril de 2006 a produção industrial apresentou taxa de crescimento positiva, igual a +1,6%, sendo que no acumulado do ano o porcentual de alta foi de +3,3% Dentre as atividades pesquisadas, e em relação a abril de 2006, as que registraram maiores altas foram: Por seu turno, os dados da Pesquisa Industrial Mensal Industrial para o acumulado de janeiro-maio de 2006 registraram taxa de crescimento positiva, igual a +3,3% (bem inferior à obtida na comparação maio/05– maio/04, quando se situou em +4,7%), em face de igual período de 2005. Deve-se salientar que nessa base de comparação observou-se que as maiores contribuições positivas foram provenientes de Material Eletrônico e Equipamentos de Comunicações (+10,0%), Indústrias Extrativas (+10,0%) e Máquinas para escritório 11 e equipamentos de informática (+59,8%). Com maiores incrementos negativos, nesse mesmo período de comparação, situaram-se: Produtos Químicos (–1,7%) e Madeira (–8,5%). trabalhadores da indústria, descontadas as influências sazonais, mostrou variação nula (0,0$) em relação a igual mês de 2005. julho de 2006 Na análise por categorias de uso, os dados do IBGE apontam para o setor de Bens de Consumo Duráveis como sendo o que maior incremento positivo apresentou (+10,2%), seguido pelo de Bens de Capital, com incremento de +6,6%. Ainda com taxas positivas de crescimento, contudo em menores níveis, situaram-se os setores de Bens de Consumo Semi e não Duráveis, com aumento de +3,0%, e o de Bens Intermediários, com incremento positivo de +2,1%. Quanto à população empregada na Indústria, as informações coletadas pelo IBGE em maio de 2006, via Pesquisa Mensal de Emprego e Salário, contam que em relação a maio de 2005 o emprego industrial caiu em oito das catorze áreas pesquisadas e em onze dos dezoito ramos de atividade. Em termos regionais, destacaram-se: Rio Grande do Sul, com –7,6%, Paraná, com –4,0%, e Região Nordeste, com –4,0%. Nesses três locais, e por ramos de atividade, os setores que mais dispensaram trabalhadores foram: Calçados e Artigos de Couro (–14,8%), Madeira (–16,9%) e Vestuário (–7,2%). Já para o Brasil como um todo, Calçados e Artigos de Couro, com –11,4%, e Máquinas e Equipamentos, com –6,5%, foram os ramos de atividade que mais dispensaram trabalhadores da Indústria. A Pesquisa Mensal de Emprego e Salário diz também que em maio de 2006, em face de igual mês do ano anterior, o número de horas trabalhadas recuou –0,2% e que o valor da folha de pagamento real dos (*) Professor do Departamento de Economia da FEA-USP. E-mail: [email protected] Os artigos do Panorama Macroeconômico foram escritos entre 05 e 20/07/06. 12 artigos Carlos Eduardo Soares Gonçalves (*) juros reais no Brasil Não faz muito tempo, o economista Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real que debelou a inflação no Brasil, lançou um importante desafio aos economistas brasileiros: explicar por que os juros reais são tão altos por estas bandas. Para o período 1995/1998, a resposta é fácil. O juro real alto e volátil deste período era simplesmente o subproduto desagradável da estratégia de ancorar a inflação via fixação da taxa de câmbio em uma economia com péssimos fundamentos fiscais, e inserida em um mundo repleto de turbulências. Mas explicar juros reais de 10% após 1999, quando passamos a um regime de câmbio flutuante, é muito mais complicado, principalmente levando-se em conta o baixíssimo patamar dos juros internacionais na maior parte desse período. até mesmo durante o período em que ajudam a trazer a inflação para patamares civilizados. Mas voltemos à jaboticaba. O próprio Pérsio, ao propor esta agenda de pesquisa, aventou uma tese interessante para o quebra-cabeça do juro: a da incerteza jurisdicional. Segundo esta, nossos juros reais seriam os maiores do mundo por deficiências legais na garantia dos direitos de propriedade dos credores. O problema com esta tese é, em minha opinião, eminentemente empírico. Apesar de ser verdade que não asseguramos, o quanto deveríamos, o direito de propriedade no Brasil, muitos outros países estão atrás de nós neste quesito (segundo o índice de proteção ao credor do Banco Mundial, por Apesar de muitas vezes descabidas, as críticas contra juros reais altos, como os nossos, são sim justificáveis. Não somente pelos sempre lembrados efeitos deletérios que este exerce sobre a atividade, mas principalmente por uma questão de eqüidade social, dado que pobre não compra título público, mas paga os impostos indiretos que são usados para honrá-los. julho de 2006 O leitor que acompanha com alguma freqüência as análises econômicas publicadas na imprensa especializada brasileira já deve ter se acostumado a encontrar vasta quantidade de metáforas, futebolísticas e de outras naturezas, que são empregadas com o objetivo de facilitar a ilustração de conceitos e chamar a atenção para problemas econômicos. O elevadíssimo juro real brasileiro, por exemplo, tem recebido com alta freqüência as alcunhas de “jaboticaba”, por ser encontrado apenas no Brasil, e de “Geni”, por ser alvejado e maldito por muitos. O último dos apelidos não me parece, contudo, muito apropriado. A razão é que a Geni de Chico Buarque é bajulada pelos seus concidadãos, ao menos no curto período que se estende entre a chegada e a partida do zepelim gigante, ao passo que os juros elevados do Banco Central são criticados 13 exemplo) e não praticam juros tão assustadoramente elevados. julho de 2006 A segunda explicação comumente apresentada, e muito similar à tese de Arida, coloca o risco soberano como fator primordial na explicação dos juros altos. Devido à nossa história de calotes – que, aliás, começou mesmo bem cedo, dois anos após a proclamação da Independência – e aos fracos “fundamentos” da nossa economia, seria altamente arriscado emprestar recursos para o governo e setor privado brasileiros. Conseqüentemente, os juros elevados seriam apenas um reflexo do alto risco Brasil. Como no caso da incerteza jurisdicional, concordo que é plausível atribuir ao canal do risco uma parte da explicação para o elevado patamar do juro doméstico. Mas não uma grande parte, visto que o Brasil, campeão mundial de juros reais nos últimos anos, não me parece um dos países mais arriscados do mundo. Não somente alguns índices que visam aferir o chamado risco País, como o EMBI, por exemplo, não corroboram esta história, como os próprios fundamentos econômicos – apesar de ainda ruins em muitos aspectos – medidos diretamente não são tão piores aqui comparativamente a outras partes do mundo em desenvolvimento. Note-se que o acima mencionado não é nem de perto uma negação de que ainda há muito que se fazer para aprimorar nossos fundamentos, a começar por uma reforma fiscal de longo prazo que mude o nível e a composição do gasto público no Brasil. Digo apenas que nossos fundamentos não são suficientemente piores que o de outros Emergentes para servirem de base de explicação do nosso diferencial de juros relativamente a eles. A título de exemplo, temos mantido, desde 1999, superávits primários não desprezíveis, e logramos reduzir, de maneira expressiva, a razão dívida externa/exportações (a qual caiu, no período de seis anos, de 5 para 1,5). Trocando em miúdos, a tese de que fundamentos ruins e risco elevado explicam os juros domésticos é no mínimo incompleta, podendo inclusive estar 14 errada, dependendo de quanto crédito – a meu ver algum – deva ser atribuído à idéia oposta, qual seja, de que são os juros altos que causam o risco elevado e deterioram os fundamentos, e não o contrário. Colocadas as críticas às teorias tradicionais de explicação dos juros altos, que não as desqualificam, mas apenas colocam em xeque seu poder explicativo, vejamos outras duas teses que me soam interessantes para explicar nossa “jaboticaba” (ou “Geni”, para os que discordam da conclusão do primeiro parágrafo). A primeira se baseia na evidência de que passamos recentemente por um período de forte queda da taxa de inflação e, a segunda, no fato de que os canais de transmissão da política monetária no Brasil estão fortemente obstruídos. Para quem não se recorda, a inflação ao consumidor no Brasil andava pela casa dos 12% ao ano no final de 2002 em conseqüência de uma forte monetização da economia (espelho da rejeição aos títulos públicos ofertados), e expressiva depreciação cambial, ambas resultantes do estresse eleitoral de então. No fim deste ano, a mesma inflação ao consumidor deverá estar gravitando nas vizinhanças de 4%. A desinflação vivenciada no período terá sido, portanto, muitíssimo significativa, e o patamar médio de juros reais vigentes no período poderia, conseqüentemente, ser em parte explicado pelo hercúleo esforço de trazer a inflação para níveis próximos aos internacionais em um período razoavelmente curto de tempo. Note-se que uma vez completada a desinflação em direção à meta de longo prazo, o que já se afigura no horizonte, o fardo dos juros poderia se tornar, muito em breve, consideravelmente menor que no passado recente. A tese da obstrução dos canais de transmissão já é de conhecimento dos economistas brasileiros há algum tempo, apesar de não ter figurado com proeminência nas análises recentes. A idéia é de que a baixa razão crédito/PIB e a alta proporção de títulos públicos indexados à Selic diminuem a eficácia dos aumentos de juros no controle da demanda agregada, significando que para se atingir o mesmo objetivo inflacionário a dosagem do remédio precisa ser muito elevada. No caso do crédito, a idéia é bem simples: mudanças nos juros afetam o crédito, mas como ele é pequeno relativamente à economia, isto se traduz em queda apenas modesta da demanda agregada. No caso da dívida pós-fixada, o problema é que a alta dos juros básicos não afeta a riqueza dos detentores destes títulos, cujo rendimento varia pari passu com a Selic. Mais ainda, um arrocho monetário afeta positivamente a renda dos portadores destes papéis, caso não valha a chamada equivalência Barro-Ricardiana dos títulos públicos. Resumindo com um jargão típico dos economistas, a elevada proporção de dívida Selic gera uma “externalidade negativa” para a política monetária, reduzindo sua capacidade de afetar a demanda agregada da economia (e, portanto, pedindo um fardo de juros mais alto). (*) Professor do Departamento de Economia da FEA-USP. E-mail: [email protected] julho de 2006 Em conjunto, as teorias baseadas em fundamentos, risco, período de desinflação e obstrução de canais de transmissão parecem fornecer uma explicação um pouco mais razoável para o elevado patamar do juro real brasileiro. A opção seria acreditar em erros sistemáticos dos condutores da política monetária. Apesar de não me parecer possível descartá-la completamente, não vejo esta interpretação mais cética como uma explicação alternativa confiável para nossa “jaboticaba”/“Geni”. 15 Cláudia Assunção dos Santos Viegas (*) transformações recentes na oferta e na demanda da indústria brasileira de alimentos e bebidas julho de 2006 1. Introdução Na década de 1990 o Brasil passou por um intenso movimento de fusões e aquisições (F&A) que alteraram a configuração do parque industrial. A indústria de alimentos e bebidas teve destaque nesse processo. A proposta deste trabalho é avaliar se as F&A afetaram os preços ao consumidor na indústria de alimentos e bebidas do Brasil. Isso é feito utilizando-se dados do IPC-FIPE (Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), da PIA-IBGE (Pesquisa Industrial Anual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do IPA-FGV (Índice de Preços no Atacado da Fundação Getúlio Vargas). Este é o primeiro artigo de uma série de três que resumem a tese de doutorado defendida no departamento de economia da FEA-USP em maio de 2006. O objetivo deste primeiro artigo é contextualizar a indústria brasileira de alimentos e bebidas, tanto no que diz respeito à estrutura produtiva quanto sobre as alterações recentes no mercado consumidor. Em seguida, no segundo artigo, são apresentadas as hipóteses e a metodologia adotada no trabalho empírico, com referências da literatura internacional. Por fim, o último artigo da série apresenta e interpreta os resultados do modelo empírico verificando se o efeito eficiência predomina sobre o efeito poder de mercado na indústria de alimentos e bebidas do Brasil. SEAE (Secretaria de Acompanhamento Econômico), do Ministério da Fazenda. Muitas dessas operações passaram despercebidas pelo consumidor, pois parte da estratégia de compra consiste em manter a marca da empresa adquirida para não afetar a escolha do consumidor fiel à marca original. O Gráfico 1 mostra a evolução das F&A na indústria de alimentos e bebidas no Brasil de 1994 a 2004. Várias razões podem ser citadas como motivação para F&A. No caso da indústria de alimentos e bebidas merece destaque a exploração de economias de escala (queda do custo unitário com o aumento da capacidade de produção) e economias de escopo (compartilhamento de ativos produtivos entre diferentes produtos) muitas vezes resultantes de novos processos produtivos. Também merece destaque a redefinição de rotinas organizacionais, que ganha ainda mais importância em empresas familiares com problemas de sucessão. Neste caso, a F&A também pode representar a possibilidade de retorno na compra de participações em empresas subavaliadas. (Belik, 1994, p. 60). gráfico 1 – evolução de fusões e aquisições na indústria de alimentos e bebidas do Brasil (1994 a 2004) 2. Oferta - Fusões e Aquisições Desde 1994 até março de 2005 a indústria de alimentos e bebidas brasileira observou 109 atos de concentração, analisados pelo Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC), segundo informações da 16 Fonte: SEAE (Secretaria de Acompanhamento Econômico) do Ministério da Fazenda, elaboração própria. Por meio de uma F&A é possível melhorar a gestão financeira das empresas envolvidas no ato de concentração, como, por exemplo, a melhoria na captação de recursos humanos e a arbitragem de juros internos e externos. A maior escala pode permitir a captação a juros mais baixos, maior flexibilidade nas políticas de fornecimento de crédito e melhor gestão de riscos. (Lazzarini e Nunes, 1999, p. 303). A redução de capacidade ociosa também contribui para a queda dos custos médios, pela menor participação dos custos fixos associados a uma determinada planta. Melhoria na logística também pode representar ganhos de eficiência resultantes de uma F&A. A logística assume papel fundamental na eficiência do processo de aquisição de matérias-primas e insumos e também no escoamento de produtos. Aspectos logísticos geram quase-rendas, tanto por uma redução de custos em relação ao patamar médio praticado pela indústria quanto por um maior domínio sobre rotas específicas. (Lazzarini e Nunes, 1999, p. 302). Melhores contratos com as redes varejistas também podem representar ganhos resultantes de uma F&A. po. Mudanças no varejo (aumento da concentração) tornam essa economia de escopo ainda mais importante (aumenta o poder de barganha na negociação com o varejo que está mais concentrado, tendendo a reduzir as margens da indústria). O setor de bebidas, por exemplo, apresenta economias de escopo na distribuição. Um ato de concentração entre cerveja, refrigerante, água e/ou sucos permite reduzir os custos de distribuição além de divulgar a marca em distintas regiões. Para ter economias de escopo, os fabricantes de cerveja produzem também refrigerantes e outras bebidas. Economias de escala A análise dessas informações reforça o fato de que o aumento da concentração da indústria coincide com o movimento de fusões e aquisições, mostrada no Gráfico 1. Passada a euforia de expansão do mercado consumidor na segunda metade da década de 1990, conseguida com a estabilidade de preços do pós-Real, as estratégias de crescimento das indústrias de alimentos no Brasil não são as mesmas. Crescer de forma extensiva torna-se cada vez mais difícil, sobretudo nos grandes centros. Divulgação dos produtos e marcas, novos lançamentos, exploração de nichos de mercado e bons contratos com as redes varejistas crescem de importância para aumentar, ou pelo menos manter, a participação de mercado. A disputa de margens com as redes varejistas, por exemplo, ganha importância nesse cenário e, conseqüentemente, pode afetar os preços ao consumidor. julho de 2006 A distribuição oferece relevantes economias de esco- O movimento de fusões e aquisições aumentou a concentração da indústria de alimentos. A Tabela 1 mostra a evolução do CR10 de 26,6% em 2001 a 33,3% em 2003.1 A Nestlé assumiu a primeira posição no ranking em 1990, mantendo-se líder até 2000, quando quem assumiu o posto foi a Bunge Alimentos, que continuou em primeiro lugar nos anos seguintes. Nos últimos dois anos disponíveis, a Nestlé passou a ocupar a terceira posição, perdendo o segundo lugar para a Cargill, como mostra a Tabela 1. O Gráfico 2 mostra a evolução do CR10 de 1986 a 2003. Em 1986, o CR10 era de 14,1%, sendo o valor mais baixo do período considerado que apresenta uma clara tendência de aumento ano após ano. A relação entre varejo e indústria tem mudado nos anos recentes, com o aumento do poder de barganha das redes varejistas como conseqüencia da maior concentração do setor e o associativismo. Dessa forma, os preços ao consumidor tendem a refletir tanto a mudança na indústria quanto as modificações do varejo.2 são possíveis nessa indústria, sobretudo pela compra de matéria-prima em maior quantidade, aumento da 3. Demanda – Mudanças nos Hábitos de Consumo produtividade com incremento no uso da planta e distribuição tanto pelos ganhos logísticos quanto pela propaganda. (Silva, 2003, p. 52). A maior estabilidade econômica protege os salários de perdas inflacionárias, permitindo ao consumi- 17 dor administrar melhor os recursos ao longo do mês, reduzindo o intervalo de tempo entre as compras. Isto favorece o consumo de novos produtos e marcas, pois é possível comprar pequenas quantidades tornando o consumidor mais propenso a experimentar itens que até então não faziam parte de suas cestas de consumo. Esse efeito, aliado à entrada de novas empresas e produtos no setor de alimentos e bebidas do Brasil, além de conferir maior dinamismo ao ambiente competitivo, favorece mudanças nos hábitos de consumo dos brasileiros. tabela 1 – concentração na indústria de alimentos (CR10, em %) julho de 2006 2001 2002 1 Bunge Alim. 5,5 Bunge Alimentos 7,1 Bunge Alimentos 7,6 2 Nestlé 5,3 Cargill 6,2 Cargill 6,2 3 Cargill 4,2 Nestlé 6,1 Nestlé 5,7 4 Sadia 3,4 Sadia 4,0 Sadia 3,9 5 Perdigão Agroindustrial 2,6 Perdigão Agroindustrial 3,0 Perdigão Agroindustrial 2,9 6 Parmalat 1,3 Coinbra 1,6 Coinbra 2,8 7 Seara 1,2 Krafta Foods 1,5 Krafta Foods 1,8 8 Fleischman Royal Aurora 1,1 Friboi 1,4 Friboi 1,6 9 Kraft Lacta 1,0 Caramuru Alimentos 1,1 Usina da Barra 0,4 10 Danone 1,0 Cosan 0,8 J. Macêdo 0,4 (CR10) 26,6 32,8 33,3 Fonte: Elaboração Própria, Exame Maiores e Melhores (vários anos) e ABIA (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação). As mudanças não aconteceram de forma uniforme no País. Pelas próprias diferenças regionais de hábitos/ cultura e, sobretudo, pela diferença na composição e distribuição da renda, é de se esperar que tais alterações sejam diferentes entre regiões. Dessa forma, é possível que a indústria de alimentos brasileira encontre em outras regiões a possibilidade de crescimento rápido, como o ocorrido à época do Plano Real na região Sudeste. Levando-se em consideração as mudanças populacionais ocorridas no Brasil, o mercado consumidor muda de perfil, apresentando nichos com forte potencial de crescimento. O aumento da expectativa de vida, por exemplo, cria (ou reforça) novas segmentações de mercado, como os de produtos funcionais, light, dietéticos e orgânicos. A maior participação da mãode-obra feminina no mercado de trabalho bem como a maior parcela de população urbana são fatores que possivelmente explicam o crescimento do consumo de refeições feitas fora do domicílio e de vendas de pratos semiprontos e congelados. Isto torna a cesta de consumo mais sofisticada por possuírem maior valor agregado, com a queda no consumo de produtos tradicionais. Esta tendência é mais marcante nas principais áreas metropolitanas. 3 18 2003 Menezes et alii (2000) calculam as elasticidadesrenda dos produtos alimentares no Brasil e regiões metropolitanas com microdados da POF 1995/96, a partir do modelo AID (Almost Ideal Demand System) com expansão quadrática para gastos familiares per capita. Este modelo permite a estimação da função demanda, captando o comportamento das famílias para diferentes regiões (11 regiões metropolitanas) e distintas faixas de renda em um único período de tempo (POF 1995-96). gráfico 2 – evolução do CR10 para a indústria brasileira de alimentos (1986 a 2003) Fonte: Elaboração Própria, Exame Maiores e Melhores (vários anos) e ABIA (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação). Os resultados confirmam a diversidade e o potencial de crescimento do mercado brasileiro. Nas cidades do Norte e Nordeste, a maioria dos produtos foi classificada como bem normal. Para São Paulo, a maioria dos produtos é classificada como bem inferior e o DF apresenta padrão similar ao verificado no Sul e Sudeste. (Menezes et alii, 2000, p. 15). Na mesma direção, o trabalho de Hoffmann (2000) também faz uso da POF 1998 para o cálculo de elasticidades-renda, e conclui que as classes de alta renda são as que exibem menores elasticidades-renda. (Hoffmann, 2000, p. 7). 1 O ranking obedece ao critério da publicação Maiores e Melhores, exceto para os anos de 2002 e 2003, que passaram a incluir empresas de bebidas e fumo junto com as empresas de alimentos. Isto confere à série um salto no CR10 (42% em 2002 e 41% em 2003) dada à importância da Ambev e da Souza Cruz nos setores em que atuam. Desta forma, as empresas Ambev e Souza Cruz foram substituídas no ranking por empresas de alimentos, que apresentaram elevados resultados em “vendas”, a saber: Caramuru e Cosan em 2002 e Usina da Barra e J. Macedo em 2003. 2 Foge ao escopo deste artigo uma análise mais detalhada acerca da concentração das redes varejistas e seus efeitos sobre os preços ao consumidor. Para uma análise mais completa sobre o tema, ver Farina, Nunes e Monteiro (2005) e Farina e Nunes (2003). 3 A comparação entre as três últimas POFs (Pesquisa de Orçamento Familiar) permite comprovar esses resultados. Referências Bibliográficas O efeito das transformações na demanda de alimentos e bebidas no Brasil nos preços ao consumidor não é claro. Se o lançamento de novos produtos ou marcas, normalmente de maior valor agregado, pode tornar o consumidor mais propenso a preços elevados, a redução do intervalo de tempo entre compras, resultado de um ambiente de preços mais estável, pode reduzir a fidelidade a marcas e aumentar a concorrência entre produtos, tornando o consumidor mais sensível a preços. Belik, W. Agroindústria e reestruturação industrial no Brasil: elementos para uma avaliação. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, v. 11, n. 1/3, p. 58-75, 1994. 4. Conclusões Lazzarini, S. G.; Nunes, R. Competitividade do sistema agroindustrial da soja. PENSA – Programa de Estudo dos Negócios dos Sistemas Agroindustriais, 1999, p. 195-420. Nesse contexto, o objetivo principal dos próximos artigos é analisar se as F&A afetam os preços ao consumidor na indústria brasileira de alimentos e bebidas, verificando se o efeito eficiência predomina sobre o efeito poder de mercado. Farina, E.M.M.Q; Nunes, R.; Monteiro, G.F. de A. Supermarkets and their impacts on the agrifood system of Brazil: the competition among retailers. Agribusiness – An International Journal, v. 21, n. 2, p. 133-146, Spring 2005. Hoffmann, R. Elaticidades-renda das despesas e do consumo físico de alimentos no Brasil metropolitano em 1995-1996. Agricultura em São Paulo, São Paulo, v. 47, n.1, 2000. Menezes, T. Silveira; Magalhães, F. L.; Diniz, B. Elasticidade renda dos produtos alimentares no Brasil e regiões metropolitanas: uma aplicação dos microdados da POF 1995/96. 2000. Mimeografado. Silva, C. L. Indústria cervejeira: um mercado em constante transformação. Revista FAE Business, n. 6, ago. 2003. julho de 2006 As transformações observadas na indústria de alimentos e bebidas podem produzir sinais contrários nos preços ao consumidor. O aumento de fusões e aquisições pode vir acompanhado de um incremento no poder de mercado e, conseqüentemente, exercer uma pressão positiva nos preços. Porém, pode-se esperar que os ganhos de eficiência obtidos com a F&A possibilitem reduções nos custos que sejam repassados ao consumidor via queda nos preços. Do lado da demanda, os sinais também não são claros, sendo muitas vezes contraditórios. Farina, E.M.M.Q; Nunes, R. A evolução do sistema agroalimentar no Brasil e a redução de preços para o consumidor: os efeitos da atuação dos grandes compradores. Texto para Discussão n. 970. Brasília: IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, agosto de 2003. Viegas, C.A.S.V. Fusões e aqusições na indústria de alimentos e bebidas do Brasil: análsie dos efeitos nos preços ao consumidor. 2006. Tese (Doutorado em Teoria Econômica), apresentada ao departamento de Economia da FEA-USP. Orientador: Prof. Dr. Paulo Picchetti. São Paulo, Maio. (*) Doutora em Teoria Econômica pela FEA-USP, Secretária-Adjunta de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (SEAEMF), desde novembro de 2004. E-mail: [email protected]. br; [email protected]; [email protected]. A autora agradece ao Prof. Dr. Gilberto Tadeu Lima pela sugestão de publicação neste boletim. 19 Julio Manuel Pires (*) Iraci del Nero da Costa (**) julho de 2006 lições da crise boliv(ar)iana Desde sua eleição, é facilmente identificável o projeto do presidente Luiz Inácio da Silva de arvorar-se como o grande líder, não só da América Latina, mas de todo o denominado Terceiro Mundo. Propunha-se como uma liderança pragmática, assentada numa pretensa unidade de interesses dos países mais pobres e na crítica inócua ao protecionismo dos países desenvolvidos, sobretudo quanto aos produtos agrícolas. Agregavamse a estas idéias genéricas a proposta de um “Fome Zero mundial”, o perdão da dívida de alguns países africanos e a tentativa de dinamizar as relações comerciais Sul-Sul. A agenda de viagens e de discursos presidenciais enfatizava tais idéias com o intuito principal de propiciar um “verniz esquerdista” a um governo cuja política econômica apresentava nítido corte neoliberal, comprometendo seu prestígio perante os setores mais progressistas da sociedade brasileira. Todavia, a despeito dos resultados pífios de tais iniciativas, parecia que, ao menos no âmbito latino-americano, o reconhecimento do presidente brasileiro como a principal liderança de esquerda ainda estava assegurada. No entanto, os eventos recentes na Bolívia vieram a abalar definitivamente a posição postulada pelo dirigente máximo de nosso governo. Neste breve escrito ocupamo-nos, justamente, do vínculo entre esta última questão e o relacionamento entre alguns presidentes latino-americanos e seus respectivos alinhamentos políticos; trata-se, pois, de um tópico lateral – portanto menor – quando pensados os temas efetivamente relevantes em torno dos quais tem orbitado a preocupação dos analistas políticos cujos textos ferem os problemas afetos às Américas. Permitimo-nos, não obstante, duas breves menções a estes últimos. Vejamo-las. É interessante notar que a fragmentação dos interesses prevalecentes na América do Sul e a falta de uma coordenação de suas lideranças com vistas a medidas e planos de longo prazo têm proporcionado aos EUA o estabelecimento de contatos bilaterais cada vez mais estreitos com várias nações da área: Chile, Equador, 20 Colômbia, Peru e, como anunciado por seu próprio presidente, o Uruguai. Assim, os norte-americanos, aos quais atribui-se uma postura indiferente com relação ao seu “quintal”, têm-se mostrado muito eficientes na busca e consolidação de acordos pontuais que atendam a seus interesses e possam, eventualmente, servir como sucedâneos da tão criticada e indesejável Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Uma segunda observação a se impor diz respeito aos recentes golpes desferidos contra a CAN (Comunidade Andina de Nações) – afastamento da Venezuela – e o Mercosul – discordâncias entre os governos da Argentina e do Uruguai e ameaça de saída deste último. Além disso, tais entidades também se vêem atingidas pelas propostas de constituição da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) e da CSN (Comunidade Sul-Americana de Nações); estas últimas, além de se definirem como concorrentes, viriam a levar aquelas primeiras à extinção. Ademais, a promessa ainda nebulosa de construção de um gasoduto de âmbito continental é tomada por muitos analistas como quimérica e causadora de mais confusão nas já abaladas relações entre as nações da CAN e do Mercosul. Tal quadro, por si mesmo muito problemático, viu-se ainda mais conturbado por dois eventos recentes os quais colocaram a nu os desencontros existentes entre as lideranças da região. Referimo-nos ao lamentável entrevero diplomático no qual se envolveram os presidentes Evo Morales e Luiz Inácio da Silva e à crise de relacionamento entre os chefes de Estado de quatro nações que se pretendem muito fraternais e amigas: Cuba, Venezuela, Bolívia e Brasil. Esta crônica versa, justamente, sobre esta última questão. A ascensão persistente da estrela de Hugo Chávez abriu a luta pela liderança das assim chamadas “esquerdas” latino-americanas, pois o alargamento de seu prestígio deu-se numa quadra em que muitos outros governantes foram eleitos com base em plataformas programáticas contrárias, ainda que apenas em termos retóricos, à continuidade das políticas neoliberais cujo fracasso evidente chamou para si o repúdio das mais diversas camadas socioeconômicas da maioria das nações da área. O discurso antiimperialista de Chávez, aliado à sua política interna de teor assistencial, o conduziu a reivindicar a aludida liderança. De outra parte, Fidel Castro, o velho decano das esquerdas latino-americanas, deu seu beneplácito às pretensões chavistas, pois, como sabido, recebe – e dele depende – polpudo auxílio econômico da Venezuela. Assim, não pode haver a menor dúvida: Fidel sempre estará disposto a trocar o sorriso amigo do presidente brasileiro pelo rico petróleo de Chávez, a despeito da tentativa de aproximação de nosso governante maior com base numa “relação carinhosa” de irmão mais novo dirigindo-se ao mais idoso. Evo Morales, por seu turno, por razões de mesmo feitio, acedeu de bom grado à tutela política disponibilizada pelo presidente venezuelano. Morales, às voltas com o imperialismo, em geral, e, em particular, com a “intervenção” da Petrobras, tida como um avantesma gerado pelo imperialismo brasileiro, mostrou-se, pois, imediatamente disponível para receber a assistência política e econômica de Chávez. Neste quadro, o presidente brasileiro significou, apenas, uma pequena e incômoda pedra a ser removida do caminho do venezuelano. Tendo aderido às práticas neoliberais e comportando-se como um “amigo” dos governantes norte-americanos disposto a lutar para regrar o comportamento de seus pares sul-americanos1, Luiz Inácio da Silva, além de também reivindicar a liderança almejada por Chávez, passou a utilizar-se da “fraternal amizade” da trinca maior da esquerda latino-americana (Fidel, Chávez e Morales) para posar, sobretudo perante seu público interno – tanto petistas como uma parcela de seus eleitores –, como indiscutível líder esquerdista. Assim, por razões outras que as ditadas pela pureza ideológica, este trio pouco harmonioso prestou um bom serviço às esquerdas – estejam elas onde estiverem e sejam elas quais forem –, pois retiraram mais uma das máscaras usadas por um minúsculo político de uma América Latina tão pungentemente ferreteada pela mediocridade. julho de 2006 Estavam postas as condições, assim, para o reconhecimento, por parte de Cuba e da Bolívia, da liderança chavista. Liderança assumida como das esquerdas, independentemente do comportamento efetivo de cada um dos políticos em tela. Segundo imaginamos, tamanho “oportunismo” foi denunciado pela tríade tão logo o presidente boliviano viu-se na contingência de cumprir suas promessas de campanha e nacionalizar, muito pertinentemente, o petróleo e o gás de seu país. Como ocorrido com Fidel, aos ouvidos de Morales falaram mais alto seus interesses políticos representados pela assistência técnica e logística de Chávez e pelos votos a conquistar a fim de garantir a vitória nas eleições que se aproximam. Morales colocou um impasse ao governo brasileiro: manter-se coerente com seu discurso esquerdista no âmbito externo ou, atendendo aos rumos adotados internamente, assumir uma postura mais dura nas negociações. O reflexo mais visível desta contradição a que ficou exposto nosso governo foi dado, por um lado, pelo reconhecimento do direito boliviano às medidas de nacionalização e, por outro, pelas ameaças – ora veladas, ora explícitas – enunciadas pelo Ministro das Relações Exteriores e pelo Presidente da Petrobras. Morales, por seu lado, optou por uma tática de avanços e recuos bruscos cujo resultado mais saliente foi o de desmoralizar o governo brasileiro, que se via, a cada momento, menosprezado pelo interlocutor boliviano. Destarte, muito embora o presidente do Brasil se tenha mostrado menos desequilibrado, foi, em poucos dias, despojado de seu tão almejado perfil de inconteste líder mundial de esquerda. 1 É significativa a este respeito a fala do encarregado do governo norte-americano para a América Latina, Tom Shannon, a respeito da ameaça representada pelo crescimento da influência de Chávez na área: “Precisamos de sócios estratégicos neste processo, como Colômbia, Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, países que entendam que o que está em jogo é como fazer com que as pessoas tenham um sentimento de pertencimento” ao governo. (*) Prof. Dr. da FEA-RP/USP. E-mail: [email protected]. (**) Prof. Livre-docente, aposentado pela FEA-USP. E-mail: [email protected] 21 Daniela Corrêa (*) Indonésia: políticas de crescimento e a crise asiática Introdução julho de 2006 Este artigo tem como objetivo apresentar, de maneira sucinta, a trajetória de desenvolvimento e os determinantes da crise na Indonésia, país que durante três décadas apresentou taxas elevadas e sustentadas de crescimento, baseadas na rápida transformação da estrutura econômica, e que foram suspensas com o advento da crise asiática em 1997. A partir da metade da década de 1960, o nível e a qualidade do crescimento econômico que o país passou a apresentar são impressionantes. A economia mudou rapidamente de uma estrutura predominantemente agrícola para uma base mais industrializada. Parte da riqueza proveniente da elevação do preço internacional do petróleo na década de 1970 foi investida na expansão dos serviços de educação e saúde, e na melhoria da infra-estrutura nos anos 1970 e 1980. A década anterior à crise asiática (1997/98) assistiu a um rápido crescimento, cada vez mais capital-intensivo, das atividades industriais no país, alimentado pelo crédito de um setor bancário liberalizado, e uma crescente onda de empréstimos internacionais. De acordo com o WDI (World Development Indicators) 2005, entre 1980 e 1990 a Indonésia cresceu a taxas anuais de aproximadamente 6,1%, e entre 1990 e 2003, acompanhando a tendência de queda nas taxas de crescimento mundial, 3,5%1 (destaca-se, neste último período, a influência das baixíssimas taxas de crescimento da economia nos imediatos anos pós-crise).2 A estrutura econômica do país mudou rapidamente; a participação da agricultura no PIB caiu de 51% em 1960 para 17% em 1997, enquanto a participação da indústria subia de 28% para 42%. O desenvolvimento social do país foi quase tão marcante quanto os re- 22 cordes de crescimento econômico. A renda per capita aumentou a uma média anual de 4,4% entre 1965 e 1995, e a pobreza, que afetava cerca de 2/3 da população na metade dos anos 1960, caiu para apenas 11% em 1996. A mortalidade infantil foi reduzida, assim como a taxa de natalidade (sem que se fizesse uso de políticas coercitivas, como ocorria em programas semelhantes em alguns países vizinhos), e os níveis de escolaridade aumentaram graças à onda de investimentos, facilitada pelo boom do preço do petróleo. Inversamente ao sucesso da política econômica, as instituições indonésias sofreram um forte declínio durante o governo da nova ordem, estabelecido em 1965, quando a participação da população no cenário político sofreu forte limitação. O debate político foi crescentemente cerceado, quando não suprimido. A multiplicidade de partidos foi limitada, e limitações também foram impostas à imprensa, à liberdade da sociedade civil e ao debate político. O sistema judiciário foi marginalizado e tomado pela corrupção. Sua independência foi minada, e um sistema de rotações irregulares permitia ao governo controlar os quadros em seu benefício. (Hofman, 2004). Esse atraso institucional pode ser considerado um dos fatores determinantes para a forte deterioração das condições econômicas do país depois de detonada a crise de 1997. Desenvolvimento Industrial na ‘Nova Ordem’ Durante os 32 anos da “Nova Ordem” (1966-1998), a economia do país experimentou crescimento rápido e sustentado. Com a economia crescendo a uma taxa média anual de 7% entre 1965 e 1997, o PIB real do país praticamente dobrava a cada 10 anos. A indústria crescia a taxas de dois dígitos, bastante acima da média dos setores de agricultura e serviços. Em 1991, a contribuição da manufatura já ultrapassava aquela da agricultura na composição do PIB. No fim dos anos 1960 e início dos 1970, o rápido crescimento industrial do país foi fomentado pela liberalização das políticas econômicas, particularmente a liberalização comercial e dos regimes de investimentos estrangeiros, e pelo retorno às condições econômicas normais depois da instabilidade política e do desajuste econômico do início dos anos 1960. Durante o período do boom do petróleo (1974-81), o rápido crescimento industrial também foi facilitado pelas políticas de substituição das importações, que deram aos produtores domésticos e aos projetos de investimento estrangeiros um incentivo para a produção de bens de consumo leves e duráveis. Políticas Econômicas (1967-1997) Em 1966, a prioridade do governo recém-chegado ao poder era a estabilização da economia. Um plano de estabilização macroeconômica foi desenvolvido, e uma série de mudanças na política econômica marcou a fase inicial de liberalização, e levou à recuperação da viabilidade externa, das restrições fiscais, à reestruturação do sistema bancário e liberalização do regime de investimento. A liberalização do setor financeiro foi a última etapa das reformas na Indonésia. O governo anterior havia monopolizado o sistema bancário no país, e criado No campo fiscal, o novo governo tomou uma série de medidas de austeridade para controlar os gastos, medidas essas que incluíram o cancelamento de subsídios para empresas estatais, reavaliação ou cancelamento de projetos ditos ‘não-essenciais’, e a redução dos custos com pessoal no serviço público civil e militar. A maior parte do controle de preços e dos subsídios foi eliminada, exceto para os produtos do petróleo, energia elétrica, transporte urbano e água potável. Um mecanismo-chave para a condução de políticas fiscais restritivas foi a regra do Equilíbrio Orçamentário, anunciada em dezembro de 1966, e que estabelecia que os gastos do governo deveriam ser limitados às rendas do Estado, de modo que o déficit pudesse ser combatido da maneira mais eficaz possível. O sucesso das políticas de estabilização resultou em uma rápida redução da inflação, acompanhada por crescimento econômico. A inflação caiu para 113% em 1967 (uma significativa redução, ante os cerca de 600% dos anos anteriores), 85% em 1968 e 10% em 1969. Simultaneamente, a produção começou a se recuperar, com a economia alcançando uma taxa média de crescimento anual de 9% entre 1968 e 1973. Ademais, o apoio à atividade agrícola foi realizado por meio de crédito direcionado e intervenção no mercado. julho de 2006 A partir da metade dos anos 1980 o setor manufatureiro tornou-se o principal motor do crescimento econômico da economia indonésia. Entre 1985-1988 cresceu a uma média anual de 13%, enquanto as exportações de manufaturados apresentavam uma média anual de evolução de 27%. Durante o período 1989-92, o setor cresceu a uma taxa ainda mais acelerada, de 22%, enquanto as exportações continuaram a acrescer, em média, 27% ao ano. A partir de 1993 até o auge da crise, em 1997, o crescimento do setor de manufatura desacelerou, e ficou em torno de 12% ao ano, e o crescimento das exportações, em apenas 7% ao ano. (Dhanani, 2000). um único banco, que acumulava as funções de banco central e banco comercial, e a primeira tarefa do novo governo seria a reconstituição do sistema. No entanto, como estava configurado, o sistema financeiro foi uma ferramenta importante para a condução das políticas governamentais até os anos 1980, e foi dominado por bancos estatais até os anos 1990. O setor tornou-se o centro da crise em 1997, pois as reformas que se iniciaram em 1986 não conseguiram garantir um sistema financeiro sólido até o momento do choque. Durante os anos 1970 a Indonésia apresentou ainda um rápido crescimento da renda, consumo e investimento, financiados pela renda advinda da exportação do petróleo. O grande aumento na renda, oriundo das exportações de petróleo, gerou superávits na conta corrente, e permitiu a realização de investimentos em infra-estrutura, educação e saúde, e também na 23 atividade industrial. Adicionalmente, as taxas de juros sobre depósitos e empréstimos foram fixadas abaixo da inflação, o que diminuiu a relação entre depósitos bancários e PIB. julho de 2006 Ao contrário do que aconteceu com muitos outros exportadores de petróleo, a Indonésia teve sucesso em proteger sua agricultura e o setor manufatureiro. Os investimentos em infra-estrutura e na agricultura tiveram papel essencial neste sentido, assim como a forte depreciação cambial no final da década. Em novembro de 1978 o governo indonésio desvalorizou o rupiah em 50%, recuperando parte da competitividade internacional que havia sido minada pelo grande fluxo de capitais proveniente do petróleo. Outra desvalorização foi realizada em 1983, com o intuito de favorecer as exportações. Os anos 1980 foram marcados pelos esforços do país para se ajustar ao rápido declínio dos rendimentos do petróleo. Esse ajuste foi acompanhado por uma série de desregulamentações bancárias e financeiras, reformas comerciais e liberalização do regime de investimento, que estabeleceriam as condições para a integração da Indonésia aos mercados financeiros internacionais. O equilíbrio macroeconômico foi restabelecido por uma combinação de políticas fiscais e monetárias. Foram introduzidos cortes nos gastos públicos, reformas tributárias, e novamente a taxa de câmbio teve papel importante (por meio de fortes desvalorizações em 1983 e 1986). Como o setor de bens comercializáveis dominava a economia à época, as desvalorizações tornavam-se medidas bastante populares. Políticas de Combate à Pobreza A estratégia de crescimento pró-pobres, implementada depois de 1967, mostrou ampla capacidade de progresso sustentável na redução da pobreza. Havia uma preocupação ativa em relação à questão, especialmente nas áreas rurais. Os resultados foram o rápido crescimento associado à acelerada queda na pobreza – de aproximadamente 2/3 da população em 1967 24 para menos de 1/8 da população no período anterior à crise asiática. A combinação da expansão na agricultura, manufatura e não-comercializáveis fez do período que vai do final dos anos 1970 até a metade dos anos 1990 um dos maiores episódios de crescimento ‘pró-pobres’ da história da economia moderna. Tal fato é bastante surpreendente, pois se esperava que a extensa reestruturação econômica iniciada nos anos 1980 criaria uma onda de desemprego, e forçaria para baixos os salários dos trabalhadores menos qualificados. Ao contrário das expectativas, o crescimento da agricultura continuou, as exportações trabalho-intensivas explodiram, e o nível de pobreza caiu ininterruptamente durante o período de reestruturação. Uma característica importante da resposta indonésia ao problema da pobreza foi a utilização das rendas do petróleo para a promoção da atividade agrícola, seguida de um exitoso ajuste ao final do boom petrolífero, via administração da taxa de câmbio, da redução dos gastos e das reformas microeconômicas. O país mostrou que, mesmo partindo de condições iniciais desfavoráveis, é possível reverter o quadro em favor de um crescimento mais equânime. O país cresceu rapidamente durante três décadas, e o PIB per capita aumentou em mais de quatro vezes durante o período. A partir do início dos anos 1990, porém, e especialmente depois da crise de 1998, a situação é bastante diversa. O crescimento nos cinco anos subseqüentes à crise ficou, em média, abaixo dos 4% ao ano. Entre 1997 e 1998, o emprego na agricultura cresceu 13,3%, quando muitos trabalhadores urbanos retornaram para suas famílias no campo, procurando algum tipo de trabalho, ainda que a salários baixos, ou tendo como pagamento apenas refeições e hospedagem. A crise, portanto, não significou desemprego maciço, apesar do grande número de falências no setor bancário, e industrial. Os salários reais e a renda caíram, e o setor agrícola foi a segurança para milhões de trabalhadores antes empregados na economia urbana. (Timmer, 2004). A Crise e o Crescimento Industrial Pós-1997 As interpretações mais freqüentes sugerem como justificativa para crise na Indonésia a quebra de confiança, tanto por parte dos investidores domésticos como por parte dos investidores internacionais, na capacidade do governo, marcado por acusações de corrupção, de tomar decisões em favor dos interesses nacionais. A decisão de buscar auxílio com o FMI foi tomada essencialmente para recuperar a confiança dos investidores. Em novembro de 1997, o fechamento de 16 bancos levou os clientes de pequenos bancos domésticos a realizarem uma corrida para transferir suas economias para instituições ‘seguras’, ou convertê-las em moeda estrangeira. O Banco Central apressou-se em socorrer muitos bancos com um programa de ‘liquidez de crédito’, que expandia de maneira considerável a oferta de moeda, agravando as tendências inflacionárias introduzidas pela desvalorização do rupiah. (van der Eng, 2003). A forte desvalorização a que foi submetido o rupiah, depois da adoção do regime de livre flutuação em agosto de 1997, afetou de maneira negativa a per1999 os investimentos privados apresentaram fluxo negativo. No final de 2001, havia pouca evidência de Apenas depois do início da crise econômica asiática o governo indonésio foi forçado, como parte de seu primeiro acordo com o FMI em novembro de 1997, a reduzir as barreiras à competição doméstica e ao comércio. No segundo acordo com a instituição, em janeiro de 1998, reformas estruturais mais amplas foram incluídas, promovendo uma maior desregulamentação para o comércio e os investimentos internacionais, e estímulo à competição interna. No início de 1999, o governo indonésio decretou uma lei de competição, banindo práticas monopolistas e competição desleal, com o intuito de proteger e manter uma competição livre e de mercado aberto. que os bilhões de dólares que os residentes indonésios haviam remetido para fora do país em 1997/1998 estavam voltando, e os investidores estrangeiros também mostravam pouco entusiasmo para a realização de novos investimentos. Em 1998, a fuga de capitais e o colapso da moeda tiveram inúmeros efeitos na economia real. A contração do PIB real per capita em 1998 na Indonésia foi mais severa do que em qualquer outra parte da região do Desde a descentralização do governo, ocorrida em 2001, no entanto, o efeito das políticas de desregulamentação, colocadas em práticas nos últimos anos, tem sido anulado pela proliferação de novas regulamentações por regimes locais. Muitas dessas regulamentações restringem ou taxam o comércio dentro ou entre distritos e províncias, interferindo no comércio interno e minando a competição interna e a eficiência do mercado interno. julho de 2006 cepção internacional a respeito do país, e em 1998 e Depois da crise asiática, o crescimento do setor manufatureiro da Indonésia sofreu uma forte desaceleração. Enquanto a manufatura cresceu, em 1996, quase 12%, a taxa em 1997 foi de apenas 5,7%, caindo para –11,4% em 1998. Ainda que o setor tenha se recuperado ligeiramente em 1999, com crescimento de 3,9%, e mais firmemente em 2000, com 6,0% de crescimento, entre 2001 e 2003 o crescimento pode ser considerado bastante lento (3,1% e 3,4%, respectivamente). Em 2004, entretanto, o setor apresentou forte recuperação, crescendo a 7,2%. A importância relativa das indústrias do petróleo e do gás depois do final do boom do petróleo, em 1982, caiu de maneira constante. Em 2002, esses setores e seus subsetores respondiam por apenas 11% do setor manufatureiro. ASEAN, e a recuperação, mais lenta. O setor financeiro e a construção foram particularmente afetados. Considerações Finais A queda real na produção foi refletida no lado dos gastos, que apresentaram uma contração de 33% no caso dos investimentos. Destaca-se, no caso indonésio, ao lado das elevadas e persistentes taxas de crescimento que caracterizaram 25 julho de 2006 a experiência no país, que após a instituição do ‘novo regime’ apresentou uma taxa média de crescimento anual de cerca de 7% ao longo de três décadas, o caráter eqüitativo desse crescimento. Por meio da alocação eficiente das rendas do petróleo, alavancouse a atividade agrícola, fonte de sustento de parcela significativa da população. Outras medidas, como o exitoso ajuste ao final do boom petrolífero, via administração da taxa de câmbio, da redução dos gastos e das reformas microeconômicas, também foram fundamentais para o êxito da atividade econômica. 2. O PIB real per capita cresceu em 1997 apenas 2,53%, e em 1998, –11,59%. (Penn World Table). O grande desafio do país, explicitado à época da crise asiática é o fortalecimento de suas instituições. Como já mencionado, enquanto a política econômica foi marcada por um grande sucesso na ‘nova era’, as instituições indonésias sofreram um forte declínio, e a participação da população no cenário político foi duramente limitada. O sistema judiciário foi marginalizado e tomado pela corrupção. Sua independência foi minada, e quando o setor privado começou a crescer nos anos 1980, as disputas passaram a ser resolvidas quase invariavelmente por meio de organizações informais. IMF. World development indicators 2005. Referências Bibliográficas Eng, P. van der. Indonesia’s economy and standard of living in the 20th century. 2003. Mimeografado. Hofman, B. Indonesia: rapid growth, weak institutions. In: World Bank, a case study from reducing poverty, sustaining growth – what works, what doesn’t, and why a global exchange for scaling up success. 2004. Timmer, P. Operationalising pro-poor growth – a country case study on Indonesia. A joint initiative of AFD, BMZ (GTZ, Kfw Development Bank), DFID, and the World Bank, 2004. Dhanani, S. Indonesia: strategy for manufacturing competitiveness. United Nations, 2000, Vol. II. A confiança no novo regime democrático, estabelecido após a crise, sofreu fortes oscilações, e desde a descentralização do governo, ocorrida em 2001, o efeito das políticas de desregulamentação econômica, colocadas em práticas nos últimos anos, tem sido anulado pela proliferação de novas regulamentações por regimes locais, dando margem a mais desconfiança por parte dos investidores internacionais. Apesar disso, em 2003 e 2004 as taxas de crescimento do PIB podem ser consideradas bastante satisfatórias (4,9% e 5,1%, respectivamente, com uma previsão do Banco Mundial para um crescimento médio de 6,2% ao ano entre 2004 e 2008), indicando uma possível retomada da confiança no país. 1.Em relação aos respectivos 3,3% e 2,8% de taxa de crescimento do PIB mundial nos dois períodos em questão. (WDI, 2005). 26 (*) Graduanda em Economia na FEA-USP e Assistente de Pesquisa da FIPE. [[email protected]]