Jesus Andou Sobre as Águas
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Jesus Andou Sobre as Águas
1 Jesus Andou Sobre as Águas Palestra proferida na FCA em 31/ago/2014 Tânia Gonçalves de Araujo Ref.: Marcos 6, 45 Jo 6, 16 Para entendermos esse episódio é interessante perceber o contexto do capítulo 6 dos Evangelhos de Marcos e de João. O capítulo se inicia com a visita de Jesus à cidade de Nazareth onde o Mestre afirma que um profeta só é desprezado em sua pátria e que ali não podia realizar nenhum milagre, a não ser a cura de enfermos, impondo-lhes as mãos. A seguir fala da missão dos doze apóstolos e ensina-lhes, dois a dois, a ter autoridade para expulsar os demônios e curar enfermos. Depois os apóstolos contaram a Jesus tudo que haviam feito e ele os chamou para irem sozinhos a um lugar deserto e foram de barco. Muitos porém os viram partir e correram a pé de todas as cidades e Jesus, tendo compaixão deles, ensinou-lhes muitas coisas. Sendo a hora muito avançada precisavam comer. Jesus perguntou aos discípulos: Que tendes? Responderam-Lhe: Cinco pães e dois peixes. Tomando os cinco pães e os dois peixes, elevou Ele os olhos ao céu, abençoou e partiu os pães e os peixes e deu-os aos discípulos para distribuírem ao povo. Todos comeram, ficaram saciados e ainda sobraram doze cestos de pão e de peixe. E os que comeram eram 5000 homens. Segundo alguns autores este número refere-se à Quinta Raça Raiz — a ariana, cuja característica é o desenvolvimento da mente. O episódio de caminhar sobre as águas Logo em seguida Jesus forçou seus discípulos a embarcarem e seguirem antes dele, na outra margem para Betsaida, enquanto despedia a multidão. Deixando-a, foi à montanha para orar. Ao cair da tarde o barco estava no meio do mar e Jesus sozinho em terra. Vendo que se fatigavam a remar, pois o vento lhes era contrário, pela vigília da quarta noite, dirigiu-se a eles caminhando sobre o mar; e queria caminhar diante deles. Vendo-O caminhar sobre o mar os discípulos julgaram que fosse um fantasma e começaram a gritar. Ele, porém, falou-lhes: Tende confiança. Sou Eu. Não tenhais medo. E subiu para junto deles no barco. E o vento amainou. Eles porém estavam cheios de espanto pois não tinham entendido nada a respeito dos pães, seu coração estava endurecido. Curas na região de Genesaré Terminada a travessia aportaram, e mal desceram, viram que vinham de toda parte muitas pessoas que colocavam doentes nas praças, rogando que lhes permitisse tocar na orla de Seu manto. 2 Nestes episódios do capítulo 6 constatamos que Jesus, o Cristo, alternava seu serviço à humanidade, ora retirando-se para o deserto e a montanha — lugares de silêncio — ora ficando junto ao povo que Ele tanto amava,curava-lhes os males físicos e ensinava a endireitar as veredas, isto é, ética. Aos discípulos procurava instruílos na busca interna do Reino de Deus e para isso se dirigia para aos lugares de silêncio. Saint Germain diz que consideramos milagres “Até que conheçamos seu modus operandi.” Realmente, Jesus estava realizando atos de Magia Branca, utilizando as leis da Física Cósmica para realizar aqueles “milagres”. E nós todos, à medida que nos alinhamos mais e mais com a Física Cósmica, estaremos gerando milagres. O homem pelo conhecimento da ciência e tecnologia domina os mares, os ares, cura muitas doenças, elimina o tempo e o espaço pelo uso de computadores — milagres inconcebíveis antes! Entretanto falta-lhe o equilíbrio entre as energias da mente do coração. Cristo disse: “Coisas maiores fareis. Vós sois deuses.” Ao longo da vida de Jesus, o Cristo, temos primeiro a vida familiar, depois passou ao solitário deserto e se encontrou só, a seguir regressou e começou sua vida pública e, finalmente, o ruído e o clamor dessa vida foram substituídos pelo profundo e intenso silêncio da cruz. Que significa andar sobre as águas? Andar sobre as águas é levitar. Segundo o dicionário, levitar é erguer-se (pessoa ou coisa, por cima do solo sem que nada visível a sustente). Etimologicamente significa erguer, levantar, descarregar, aliviar. A ideia geral é elevação. Jesus nesta passagem andou sobre as águas e, segundo a parapsicologia é um fenômeno de psicocinética ou o poder de operar a matéria sem a intervenção do corpo. Outros fenômenos de psicocinese são a materialização, a desmaterialização e o movimento de objetos físicos. A parapsicologia também estuda a percepção extrassensorial como a clarividência, a clariaudiência e a psicometria. A psicometria é a capacidade de perceber as características de uma pessoa por um objeto que ela tenha usado. Um fragmento de um edifício antigo pode mostrar à pessoa cenas que aconteceram no interior e arredores. Patânjali, muitos séculos antes de Cristo, tratou deste assunto em seus aforismos considerando-os como “siddhis”, ou poderes que são adquiridos através de estimulação de certos chackras ou centros do organismo psicoetérico. A levitação está ligada à gravidade (um aspecto da lei da atração) e ao seu oposto, a leveza que dá ao adepto a capacidade de anular a força atrativa do planeta e deixar a Terra. Poder é a mestria sobre determinada substância elementar da qual as coisas são feitas. De acordo com a Sabedoria Eterna são cinco os graus de substância que formam os cinco planos da evolução monádica: físico, astral ou emocional, mental, búdico ou intuicional e átmico ou espiritual. O homem comum tem sua consciência nos planos físico e emocional, os mais evoluídos de nossa raça no mental e o super-homem no intuicional e espiritual. A levitação diz respeito ao controle sobre o emocional que é feito através do desenvolvimento da natureza mental. No Evangelho há dois tipos de batismo: o de João Batista, que é o batismo pela água; e o de Jesus, que é o batismo do Espírito Santo e do fogo. Nestes dois símbolos está resumida grande parte da história do desenvolvimento racial e assinala o objetivo da humanidade atual. O batismo de João, feito pela água — símbolo das 3 emoções e da mudança constante entre o prazer e a dor — é aplicado de forma mais geral e visa à purificação da natureza emocional que deve preceder à purificação do mental. O batismo que o Cristo dá aos seus seguidores concerne à purificação pelo Fogo que é o símbolo da natureza mental. Segundo Steiner, no episódio em que Jesus andou sobre as águas, a força existente no Cristo se transfere para a alma dos discípulos e os fortalece de tal forma que eles podem vê-lo espiritualmente. A visão física desaparece dos discípulos e surge-lhes a visão espiritual (tal como ocorreu com o apóstolo Paulo depois da experiência na estrada de Damasco) e eles veem Jesus andando sobre as águas. A visão à distância ocorre de tal forma que as pessoas têm a imagem do objeto ”como se” em sua proximidade imediata. Os discípulos viram Jesus andar sobre a água e até entrar no barco. Vicente Anglada, no livro “Diário Secreto de um discípulo”, lembra que a passagem sobre a água é parte da construção do Antakarana, a ponte que liga a personalidade aos mundos superiores. À medida que o Antakarana vai sendo construído as células do cérebro que obstruem o caminho entre o Ajna e o Coronário e entre as glândulas pineal e pituitária tornam-se incandescentes, permitindo a passagem do elemento ígneo. Interpretação da levitação por Alice Bailey Em os “Os Aforismos da Ioga”, Patânjali dedica o aforismo 39 do livro 3 ao estudo da levitação, uma faculdade psíquica comparativamente comum. Levitar é o poder de caminhar sem tocar tanto a água como a terra; indica, portanto, caminhar no ar. Caminhar no ar é agir contra as leis da gravidade. Os pássaros fazem isso por instinto. Mas o homem pode fazê-lo? Patânjali afirma que através do controle da respiração vital conhecida como udana podemos alcançar este siddhi ou poder da levitação. A literatura ioga fala da natureza quíntupla da respiração vital segundo a região do corpo na qual atua. A levitação está ligada à área entre o nariz e o alto da cabeça onde ocorre a respiração vital conhecida como udana ou prana ascendente. O controle de prana não significa meramente prender a respiração, mas direcioná-la a uma das cinco regiões do corpo influenciando a fome, a sede, o batimento cardíaco etc. Patânjali não diz como isso pode ser feito. Alice Bailey, ao comentar os siddhis ou poderes eleva-os a um plano mais elevado e usa a seguinte tradução para o referido aforismo 39: “Pela subjugação da vida para o alto (udana) tem-se a libertação da água, do caminho espinhoso e do atoleiro, e se obtém o poder da ascensão”. Este aforismo nos diz que pelo domínio do 4º dos ares vitais — upana — obtém-se certos resultados graças ao sistema da Raja Ioga que permite funcionar na cabeça e controlar a natureza inteira a partir do ponto no interior do cérebro. Quando o homem se polariza nesse ponto, a energia do alto da cabeça se torna ativa e se obtém a correta direção dos pranas do corpo; o homem alcança a libertação e os três corpos, o físico, o emocional e o mental, não mais o dominam. Alice Bailey assinala que a linguagem empregada é simbólica. No fenômeno da levitação, o poder de andar sobre as águas e o opor-se à atração gravitacional da terra são os seus significados de menor importância. 4 É a revelação interna que liberta, torna o homem novo, o nascido de cima — é o segundo nascimento. Cristo ensinou: “Quem não nascer de novo não verá o Reino de Deus”. As religiões referem-se à experiência de Deus que pode, mas não necessariamente, se apresentar externamente por fenômeno, como aconteceu com o apóstolo Paulo. Sabe-se que Paulo ficou cego por 3 dias e tornou-se um novo homem — de perseguidor transformou-se no maior difusor dos ensinamentos de Cristo. É o novo nascimento — o nascer de cima que traz qualidades, tendências e mudanças fundamentais. No livro Coração §98-99, Morya menciona o novo mundo sutil e diz “alguém caminhou sobre as águas; alguém levitou; alguém se tornou luminoso; as pessoas podem até engolir veneno sem dano... De onde vem a imunidade? Não da estrutura das paredes do estômago mas do fogo posto no coração. Isso não é um conto de fadas mas sim a aproximação à morada do espírito”. Em Mundo Ardente III, §501, “o uso da energia ardente não está no domínio da vontade, mas no domínio do coração. O coração não admite o mal, mas a vontade mal direcionada ocasiona calamidades”. O importante é o estudante procurar o caminho do espírito, ter domínio sobre os fenômenos e utilizá-los quando necessário, pois sabe que “a energia se torna poder pelo uso consciente”. Quando foi preciso, a Hierarquia produziu o afundamento da Atlântida, Jesus multiplicou os pães e os peixes, andou sobre as águas, curou, ressuscitou Lázaro, e muitos outros milagres. A Terra em que nós vivemos é um laboratório químico e fazemos parte dele, uma especial combinação de energias estimula os chakras e os centros nervosos, e as transformações, curas e fenômenos se processam. O ponto crucial do aforismo 39 é a subjugação da vida para o Alto que significa voltar-se para o espírito. Diz o Aforismo: “Pela subjugação da vida para o Alto tem-se a libertação da água, do caminho espinhoso e do atoleiro, e se obtém o poder da ascensão”. A libertação da água diz respeito à subjugação da natureza astral para que as águas da ilusão não mais mantenham a alma prisioneira e as energias do plexo solar não sejam as dominantes. A libertação do caminho espinhoso refere-se ao mundo físico com suas preocupações e problemas da vida na Terra, até que não consigam mais encobrir o homem espiritual. A referência mais bela é encontrada na Parábola do Semeador, Matheus capítulo 13: o Semeador saiu a semear e a semente vai caindo em solos não propícios e até entre espinhos. Os espinhos (os problemas da vida) cresceram e a abafaram. Outra parte das sementes caiu em boa terra e produziu muito fruto. A libertação do atoleiro se refere a kama manas, desejo e mente inferior que provocam o problema único da humanidade — a Grande Ilusão — que aprisiona o peregrino durante muito tempo. Quando o aspirante caminha na luz, por ter encontrado a luz dentro de si mesmo, dissipa-se toda miragem. No Bagavad Gîta, quando Arjuna pergunta a Krishna: Porque o homem pratica o mal mesmo quando quer fazer o bem? Que força misteriosa faz o homem praticar o mal até contra a própria vontade? Krishna responde: É a essência dos desejos (kama) que o homem acumulou. Este é seu maior inimigo. Os sentidos e a mente (kama manas) confundem o discernimento e obscurecem o conhecimento da verdade. Ao conquistar a libertação desses três aspectos — água, caminho espinhoso e atoleiro — o homem conquista o poder de ascensão. O Cristo ou homem espiritual pode então permanecer no cimo da montanha da ascensão, pois ultrapassou as quatro crises ou iniciações — nascimento, batismo, transfiguração e crucificação. 5 Assim, udana ou vida para o Alto, se torna o fator dominante e a vida para baixo não mais escraviza. Quando se diz que o Cristo subiu a montanha, o significado interno é que elevou sua energia ou vida para o Alto, para o centro da cabeça, de onde dirige a energia para realizar a magia ou os milagres junto ao povo. A alternância entre a meditação e o serviço é o caminho do discípulo. O Evangelho de João, o mais esotérico, depois da multiplicação dos pães e dos peixes e do caminhar sobre as águas apresenta um discurso de Jesus do qual extrai algumas partes: “Em verdade, vos digo: vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes. Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna... o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Eu Sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca mais terá fome e o que crê em mim nunca mais terá sede... Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. O espírito é que vivifica... As palavras que vos disse são espírito e vida.” Esta vivificação pelo espírito é representada no símbolo da Cabala — Árvore invertida —, com as raízes voltadas para o Alto e penetrando o alto da cabeça e os ramos voltados para baixo constituindo o corpo humano que é o instrumento para o serviço. Na parábola da mulher samaritana, Jesus também se refere à agua que sacia a sede para sempre, chamando-a de “água viva”. Na Agni Ioga encontrei que água viva “denota oceano da sabedoria” e a cabeça significa o cume do conhecimento, logo udana — o prana do alto da cabeça — a sabedoria divina chega ao homem. CONCLUSÃO Patânjali, muitos séculos antes de Cristo, não ensinou como levitar, mas Morya no século XX, em sua mensagem dada para a Nova Era de Aquário, nos dá muitas pistas. Não é nosso objetivo transcrevê-las aqui, mas assinalar que o mais importante na levitação é a disciplina e a focalização do pensamento, que a dúvida leva o praticante a afundar o corpo e o Mestre aconselha a aprender a nadar muito bem antes de fazer o experimento. Morya afirma: “Andar sobre a água ou andar sobre o fogo são provas notáveis do poder do pensamento. O Iogue se concentra por meio do ritmo do pranayama e eleva o seu pensamento para o Supremo Inefável e assim treina várias vezes para se aproximar da exaltação espiritual. Ao se livrar da atração terrestre, o corpo perde algum peso. Assim, o iogue se eleva na água e o leve suporte de madeira que ele usava se afasta flutuando. O fator decisivo nestes experimentos é a qualidade do pensamento. No treinamento estaremos desenvolvendo paciência, perseverança e determinação, além de prestar atenção a certas influências cósmicas, como por exemplo, o período da Lua Cheia que favorece a experiência”. “O importante não é o pensar na experiência e o Yoga constantemente aconselha: Pensai somente sobre o mais Alto. Imaginai este mais Alto na melhor imagem. Imaginai este mais Alto na Luz Inefável. Esforçai vossa consciência ‘como se’ para algo completamente tangível. Manifestai a melhor disposição. Reuni todos os tesouros do Bem. A Voz do Silêncio diz: No Bem ascendemos.” 6 Morya cita em seus livros: “várias experiências no mundo semimaterial como a levitação, o transporte dos objetos... e que alargando a consciência foram vistas as auras e as imagens de encarnações anteriores... depois passou para a clarividência e clariaudiência cósmicas. Utilizando os centros abertos da Irmã Ur (Helena Roerich) foi possível mostrar raios de diferentes qualidades e a estrutura das substâncias sutis. Assim nos aproximamos dos mundos distantes...” E continua o Mestre: “Em todas essas experiências a aspiração pela conscientização do espírito deve ser fortalecida antes, pois do contrário estaremos nos aprisionando a fenômenos externos pertencentes aos graus inferiores... o homem espiritual pode chegar a possuir poderes psíquicos, mas aqueles que buscam tais poderes permanecem alheios à verdadeira vida espiritual.” Finalizamos com o ensinamento do Cristo: “Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça e tudo o mais lhes será dado por acréscimo”. BIBLIOGRAFIA ALICE BAILEY — De Belém ao Calvário, Luz da Alma, Magia Branca. MORYA — Agni Ioga, Aum, Coração, Fraternidade, Mundo Ardente I e III BAGAVAD GÎTA RUDOLF STEINER — O Evangelho de João VICENTE ANGLADA — Diário Secreto de um Discípulo
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