xiv congresso brasileiro de ciências do esporte
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XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DO ESPORTE – PORTO ALEGRE - 2005 BEISEBOL: UMA CARACTERIZAÇÃO A PARTIR DOS PRINCÍPIOS OPERACIONAIS DE CLAUDE BAYER Renato Francisco Rodrigues Marques, Especialista em Futsal UNOPAR/PR, Bacharel e Licenciado em Educação Física FEF/UNICAMP; Felipe Magaldi Suguihura, Graduando em Bacharelado em Educação Física FEF/UNICAMP; GEPEFIC – Grupo de Estudo e Pesquisa Educação Física e Cultura. RESUMO Considerando o beisebol como uma modalidade esportiva coletiva, o objetivo deste trabalho é caracterizá-lo e analisá-lo a partir dos princípios operacionais destes esportes (desenvolvidos por BAYER, 1994). São caracterizadas regras de ação próprias da modalidade, de acordo com a lógica de jogo de um esporte coletivo de rebatida. A partir dessa análise é possível teorizar um processo de ensino do beisebol pautado na aprendizagem tática e não exclusivamente no desenvolvimento da técnica específica do jogo. ABSTRACT Considering baseball as a collective sport, the objective of this paper is to characterize and analyze it based on the “operational principles” of these sports (developed by Bayer, 1994). The specific “action rules” according to the logics of a batting collective sport, are characterized. From this analyzes, it may be thought a teaching process of baseball based on the tactical learning and not on the exclusive development of the specific technique of the game. RESUMEN Considerando-se el béisbol como una modalidad deportiva colectiva, el objetivo de este trabajo es caracteriza-lo y analiza-lo a partir de los principios operacionales de estos deportes (desarrollados por BAYER, 1994). Se caracterizan las reglas de acción propias de la modalidad, de acuerdo con la lógica de juego de un deporte colectivo de rebatida. A partir de esta analiza es posible teorizar un proceso de la enseñanza del béisbol basado en el aprender táctico y no exclusivamente en el desarrollo de la técnica específica del juego. INTRODUÇÃO O beisebol é um esporte olímpico, organizado por federações e confederações, com caráter profissional em diversos países. Criado nos Estados Unidos, a partir da transformação de jogos tradicionais ingleses como o rounders e o cricket (HERRÁN, 1987), é uma modalidade de destaque também no Japão, Cuba e Venezuela. No Brasil, foi difundido principalmente através das colônias de imigrantes japoneses, tendo ficado isolado nesse ambiente por muito tempo, incluindo poucos não descendentes em sua prática (OI, 1996). XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DO ESPORTE – PORTO ALEGRE - 2005 O objetivo deste trabalho é caracterizar e analisar o beisebol a partir dos princípios operacionais dos esportes coletivos (desenvolvidos por BAYER, 1994), considerando que possui um espaço pré-determinado para a sua prática, que é orientada por regras específicas, utiliza uma bola e envolve duas equipes oponentes, estabelecendo parceiros e adversários. O BEISEBOL É... De acordo com as regras da Federação Internacional de Beisebol (2003), este é um jogo entre duas equipes de nove jogadores cada, cujo objetivo é realizar um número de corridas maior que o do oponente. Uma corrida (run) é o ponto, marcado por um atacante que, iniciando como batedor, torna-se corredor e toca a primeira, segunda, terceira e quarta (home plate) bases, nesta ordem. O campo de jogo é dividido em campo interno (infield), um quadrado com 27,45m de lado, e campo externo (outfield), que compreende a área entre duas linhas de marcação (linhas de fora) formadas pela extensão de dois lados não paralelos do quadrado. As bases são colocadas em cada um dos vértices do quadrado, sendo numeradas em sentido antihorário. Infield e outfield, juntamente com as linhas que os demarcam, são os territórios válidos de jogo (fair territory); território fora (foul territory) é a parte do campo de jogo fora das linhas da primeira e terceira bases estendidas até o limite do outfield (INTERNATIONAL..., 2003). Outfield 2ª base 3ª base Infield 1ª base Foul territory Foul territory 4ª base – home plate Figura 1: campo de jogo. Alterado a partir de: <http://pioneer.aaps.k12.mi.us/Ath/baseball/field.jpg>. Na defesa, os nove integrantes atuam ao mesmo tempo, havendo as posições fixas de arremessador, receptor, quatro jardineiros internos (primeira, segunda e terceira bases e entre-bases) e três externos (esquerdo, central e direito). No ataque, os nove atletas têm uma ordem fixa de rebatida. O objetivo da equipe na defesa é evitar que os atacantes se tornem corredores e avancem pelas bases, sendo todos defensores responsáveis por apanhar as bolas rebatidas e eliminar (queimar) o batedor/corredor e os corredores. O arremessador (pitcher) é o defensor designado para lançar a bola para o batedor adversário; o receptor é o jogador de defesa que fica posicionado atrás da quarta base e apanha as bolas que passam pelo batedor. As regras oficiais definem: batedor como um jogador de ataque que toma sua posição na área designada (batter´s box); batedor/corredor como o atacante que acabou de XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DO ESPORTE – PORTO ALEGRE - 2005 completar sua vez de rebatida (rebateu a bola ou recebeu quatro lançamentos ruins1) até o momento em que a jogada em que ele começou a correr termine; corredor como um atacante que está avançando, tocando, ou retornando para qualquer base. O jogo começa quando o arremessador faz o primeiro lançamento. Cada atacante entra como batedor e tenta, através de rebatida válida2, tornar-se corredor e chegar a salvo nas bases. O batedor pode escolher se tenta ou não rebater uma bola lançada. Com os batedores seguintes conseguindo avançar para corredores, os atacantes que já estavam nas bases tentam avançar ainda mais, para chegar até a quarta base. Quando três atacantes são eliminados, o time que atacava passa a defender e o adversário a atacar. Uma entrada (inning) é um trecho do jogo no qual os times se alternam entre defesa e ataque e em que há três eliminações para cada equipe. ... UM ESPORTE COLETIVO Bayer (1994) afirma que todos os jogos esportivos coletivos possuem seis características comuns, chamadas de “constantes” (bola, terreno, alvo, parceiros, oponentes e regras próprias). O beisebol se encaixa nessa categoria, pois: utiliza um objeto esférico (bola) que é lançado e rebatido com o auxílio de um implemento (o taco); é jogado em um terreno demarcado, um espaço determinado; tem um alvo a ser atacado ou defendido (a chegada à quarta base); existem parceiros e adversários (batedor e corredores de um lado e defensores de outro); e é jogado sob regras específicas. Além dessas invariantes, comuns a todos os jogos coletivos num plano geral, é possível encontrar, num plano específico, denominadores semelhantes em diferentes modalidades coletivas, permitindo reuni-las em grupos de estruturas de jogo similares. Garganta (1995) propõe classificá-los de acordo com fontes energéticas, ocupação do espaço, disputa da bola e trajetórias predominantes. O autor acredita que é “[...] possível encontrar denominadores comuns a determinados JDC e bem assim agrupá-los de forma a possibilitar a sua inclusão num processo de ensino-aprendizagem coerente” (GARGANTA, 1995, p. 17). No plano energético-funcional, o beisebol é um jogo que demanda esforços intermitentes, predominantemente anaeróbios e pode ser considerado uma atividade de velocidade, força explosiva (potência) e coordenação. Do ponto de vista tático, não existe luta direta pela bola, não há invasão do campo adversário e as trajetórias predominantes são de troca de bola. No beisebol, a bola não é o implemento central do jogo, aquele que é utilizado diretamente na marcação do ponto, o que caracteriza a principal diferença para outros jogos coletivos mais praticados no Brasil. O taco, a luva e a bola são implementos que auxiliam e permitem a ação central do jogo, que é a progressão pelas bases para completar a volta. A disputa não ocorre, então, pela posse da bola, mas pelo direito de rebatê-la. A transição entre defesa e ataque não ocorre rapidamente, sendo bem demarcada com a paralisação da partida após a eliminação de três atacantes. Desta maneira, a equipe que defendia se posiciona para atacar e a equipe adversária para defender, não havendo avanço sobre um campo adversário. 1 Ocorrem quando a bola é lançada fora da área de strike (região sobre a quarta base), dando ao batedor o direito de avançar à primeira base. 2 Rebatidas em que a bola toca o território válido e nele permanece ou rola para fora após a primeira ou terceira bases, ou toca algum jogador ou árbitro ou voe direto para fora do campo. XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DO ESPORTE – PORTO ALEGRE - 2005 Caracterizado como um esporte coletivo, o beisebol é pautado pelos mesmos princípios operacionais que Bayer (1994) utiliza para analisar outras modalidades esportivas dessa categoria. O autor indica que os princípios operacionais são comuns e idênticos a todos os esportes coletivos, com algumas adaptações para o voleibol. São a base da disputa do jogo, pois dirigem e coordenam a atividade dos jogadores, as relações dentro das equipes e entre os adversários. Duas situações são consideradas chaves na observação destes princípios: a equipe que tem posse de bola é considerada atacante, e a equipe que não tem essa posse, defensora. Dessa forma, os princípios operacionais são divididos em ataque e defesa (BAYER, 1994, p.47). Os próprios do ataque são: (1a) conservação da posse da bola, (2a) progressão em direção ao alvo e (3a) finalização, ataque ao alvo. Os de defesa são: (1d) a recuperação da posse de bola, (2d) impedir a progressão dos adversários para o alvo defendido e (3d) proteger o próprio alvo. No beisebol, a (1a) conservação da posse de bola pode ser entendida como a manutenção da equipe no ataque, ou seja, manter uma situação em que a mesma continue com a possibilidade de rebater, sem ter atacantes eliminados. Essa situação é necessária para que os batedores se tornem corredores, (2a) progridam tocando as bases e possam (3a) atingir a meta, que é chegar à quarta base. A equipe na defesa deve tentar eliminar três atacantes, para (1d) recuperar o direito de atacar, e (2d) impedir a progressão do batedorcorredor e dos corredores, (3d) evitando que eles cheguem ao alvo. Para que o jogo ocorra, é preciso que os jogadores dominem as regras de ação, que, segundo Daolio (2002), são os mecanismos de gestão necessários para a realização dos princípios operacionais, ou seja, são “[...] formas gerais de resolução dos vários problemas que o jogo esportivo coletivo coloca aos praticantes, tanto individual como coletivamente” (DAOLIO, 2002, p.102). Embora os princípios operacionais sejam válidos para todos os esportes coletivos, as regras de ação são mais específicas, vinculadas aos grupos de modalidades com características semelhantes. Assim, jogos de invasão de território, como o futebol, basquetebol e handebol, têm regras de ação próximas entre si, diferentes do beisebol, que é um esporte coletivo de rebatida (BUTLER, 1997). No beisebol, o princípio de (1d) recuperação do direito de atacar tem sua forma determinada pelas regras da modalidade: três atacantes devem ser eliminados para que ocorra a troca da defesa para o ataque. Considerando que mais de um atacante pode ser eliminado na mesma jogada, a regra de ação para realizar esse princípio é a escolha de arremessos que impeçam ou dificultem a rebatida, facilitando a ação da defesa na eliminação do batedor e dos corredores3. Conseqüentemente, o princípio operacional de (1a) conservação da equipe no ataque consiste em evitar a eliminação de três atacantes. As regras de ação que possibilitam esta manutenção são a colocação da bola, por rebatida válida, em locais que dificultem a ação da defesa, permitindo que batedor e corredores cheguem a salvo na base seguinte, e um bom posicionamento (afastando-se bem da base anterior) dos corredores para avançar em segurança. Estas regras de ação que satisfazem o primeiro princípio também garantem (2a) a progressão ao alvo (corridas até a terceira base), permitindo que o ataque tente (3a) marcar 3 Um batedor é eliminado por três lançamentos bons não rebatidos, ou por uma bola rebatida apanhada por um defensor antes de tocar o chão. Há a eliminação forçada, que ocorre quando um defensor com a posse da bola toca a base para a qual o corredor está obrigado a avançar, e o touch, quando um jogador da defesa com a posse da bola a toca no atacante. XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DO ESPORTE – PORTO ALEGRE - 2005 o ponto. Além disso, há a situação de “roubo de base”, quando um corredor parte para a base seguinte sem que a bola tenha sido rebatida. Para a defesa (2d) evitar a progressão dos atacantes, assim como (3d) proteger o alvo, a principal regra de ação é a mesma que serve ao primeiro princípio operacional, eliminando batedores e corredores. Acrescenta-se a adoção de posicionamentos de marcação que facilitem o ato de queimá-los e inibam as tentativas de roubo de base. CONSIDERAÇÕES Sendo o beisebol um esporte coletivo de rebatida, sua lógica de jogo não segue a idéia de conduzir a bola ao alvo, mas fazer com que ela se distancie da meta, deslocando a defesa adversária e dificultando sua ação, possibilitando que o atacante marque o ponto. Segundo Garganta (1995), o problema fundamental dos jogos esportivos coletivos é essencialmente tático, sendo esta a dimensão que ocupa o núcleo da estrutura de rendimento, e não a dimensão técnica, geralmente a única abordada nos ensino dos jogos. Devido ao uso de implementos individuais (luva e taco) para o contato dos jogadores com a bola, o processo de aprendizagem e treinamento deve contar com uma adaptação ao material, pois este passa a ser uma extensão do corpo do jogador. Com base nas análises deste trabalho, é possível sugerir que um processo de ensino do beisebol seja pautado nos princípios operacionais e nas regras de ação específicas do jogo, na compreensão e assimilação da gestão do espaço, da comunicação na ação e da relação do jogador com a bola e os implementos, e não somente baseado no desenvolvimento técnico dos fundamentos isolados. REFERÊNCIAS BAYER, Claude. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Dinalivros, 1994. BUTLER, Joy. How would Socrates teach games? A construtivist approach.SOUZA, Adriano J. de (trad.) In: Joperd, v.68, n.9, nov-dez. 1997. DAOLIO, Jocimar. Jogos esportivos coletivos: dos princípios operacionais aos gestos técnicos – modelo pendular a partir das idéias de Claud Bayer. In: Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Brasília, v.10, n.4, p.99-104, outubro 2002. GARGANTA, J. Para uma teoria dos jogos desportivos colectivos.In: GRAÇA, A & OLIVEIRA, J. (Eds.). O ensino dos jogos desportivos. 2. ed. Porto: Centro de Estudos dos Jogos Desportivos, 1995. HERRÁN, Juan E. De la. Béisbol. 2. ed. Havana, Cuba: Editorial Pueblo e Educación, 1987. INTERNATIONAL BASEBALL FEDERATION. Official baseball rules, Suíça, 2003. Disponível em: <http://www.baseball.ch/2003/as/he/re/rule1.htm>. Acesso em: 18 de março de 2005. OI, Célia A. (coord.) Beisebol: histórias de uma paixão. São Paulo: Federação Paulista de Beisebol e Softbol, 1996.
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