Concelho de Ribeira de Pena
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Concelho de Ribeira de Pena
Projecto de Investigação Estudos de Produção Literária Transmontano-Duriense Número do Projecto: POCI/V.5/A049/2005 (Medida V.5 - Acção V.5.1) Concelho de Ribeira de Pena O Concelho de Ribeira de Pena é hoje composto por sete freguesias, em que se incluem as nucleares - Salvador, Santa Marinha e Santo Aleixo de Além-Tâmega - as que lhe vieram adjuntas ao antigo Concelho de Cerva quando o mesmo foi extinto Cerva, Alvadia e Limões - e a freguesia de Canedo, que fizera parte do Concelho de Boticas. Freguesia de Alvadia A freguesia de Alvadia pertence ao concelho de Ribeira de Pena desde que o antigo município de Cerva foi extinto e o seu território agregado ao de Ribeira Pena. Com uma área de 3456 ha, é composta por três povoações: Alvadia, que é a sede da freguesia, Lamas e Favais. Tem cerca de 220 habitantes e dista da sede do concelho 17 Km. Panorâmica de Alvadia Velha azenha Marmitas de gigante A freguesia de Alvadia pertence ao concelho de Ribeira de Pena desde que o antigo município de Cerva foi extinto e o seu território agregado ao de Pena, como já se teve várias vezes ocasião e necessidade de referir. Com uma área de 3456 ha, é composta por três povoações: Alvadia, que é a sede da freguesia, Lamas e Favais. Quando se entra no concelho pela estrada que nos traz de Vila Real, passando por Vila Pouca de Aguiar, chegamos a um entroncamento, na Portela de Santa Eulália. Ora aí, se virarmos à esquerda, como se quiséssemos ir para Cerva, vamos encontrar, poucos quilómetros adiante, novo ramal de estrada onde, novamente à esquerda, pontificam duas referências: umas alminhas, com a data de 1963 e sinais visíveis de muita devoção, nas marcas que inúmeras velas acesas ali têm deixado, e uma placa de sinalização com a indicação: Favais - 6; Lamas - 8 e Alvadia -11. Estas alminhas são localmente designadas por "Almas do Concelho" e marcam a separação entre Ribeira de Pena e Cerva, sendo de referir que esta denominação de 'Concelho' traz reminiscências antigas de povoação com certa autonomia. Estamos, pois, a prepararmo-nos para entrar na freguesia de que nos propomos falar, aquela que, em termos de população residente, apresenta o valor mais baixo, acontecendo até que a povoação-sede não é a mais povoada. A estrada estreita mas asfaltada conduz-nos pela beira da Serra do Alvão, acontecendo mesmo que a ramificação desta, situada entre a freguesia de Alvadia e a freguesia de Gouvães da Serra, concelho de Vila Pouca de Aguiar, se denomina Serra de Alvadia. A via foi construída aproveitando a curva de nível e vai-nos oferecendo um espectáculo grandioso. No caminho de ida, à esquerda, a serra está mesmo ali à mão, com a vegetação rasteira salpicada do roxo - rosa das urzes, volta e meia pontilhada por rochas aborregadas, que o tempo lavou e branqueou, fazendo-nos pensar que toda a serra está a servir de pasto a um imenso e disperso rebanho de ovelhas silenciosas. Não é verdade, contudo, pois são rebanhos de cabritos e cabras que pastam nestes cumes o sabor único, que se não esquece depois de experimentado. De vez em quando, encontramos um rebanho largo, de animais limpos e lustrosos, ágeis e metódicos na tarefa de mordiscar a verdura rasteira, enchendo o espaço vasto da serra com o toque cristalino das suas campainhas, de quando em quando cortado pela voz do pegureiro, que lhes dá ordens curtas e definitivas, prontamente compreendidas e respeitadas. Do lado direito, é a outra vertente da serra, mais arborizada, com um outro salpico de telhado, paisagem muitas vezes de vertigem, dado o declive da encosta. Passamos por Favais e hesitamos: será que é mesmo ali, bastando descer a ladeira íngreme para chegarmos àquela povoaçãozinha que dormita ao sol de Verão, serena como uma pintura? Não perturbemos a pintura e sigamos em frente, porque é mister começar, pelo menos, pela sede da freguesia. Um pouco mais adiante, à esquerda, há indícios cada vez mais claros de que, no vale que espreita ao fundo, está a aldeia de Lamas. Quando nos aproximamos de Alvadia, a estrada que nos tem vindo a conduzir segue em frente e o seu piso convida a continuar e a descobrir até onde nos levará. A nosso lado começa a correr uma conduta, de vez em quando surge um pequeno mas viçoso milheiral e, dentro em breve, estamos no local a que o destino e a estrada nos trouxeram: a câmara de carga da mini-hídrica de Alvadia. Apreciemos o reservatório e o panorama que se desfruta daquele miradouro natural e retomemos o caminho para a povoação de Alvadia. Ao longe, lobrigamos uma povoação e não podemos deixar de nos espantar com as artimanhas da serra, que nos põe ali Favais novamente ao alcance da vista. À entrada de Alvadia, a placa da antiga e já desaparecida Junta de Colonização Interna identifica a povoação como uma 'aldeia em renovação'. A "renovação" deve ser antiga, pois o que prende o nosso olhar é precisamente o núcleo de casas escuras de granito, a igreja, bem mantida com as suas cruzes numeradas para a Via Sacra, o silêncio, que se respira no adro em frente. A padroeira da paróquia é Santa Cruz, que dá o nome à igreja paroquial de toda a freguesia, em cujo adro existe ainda a plataforma que resta do antigo cruzeiro que ali se erguia. O cemitério minúsculo está mesmo ao lado da igreja e, ao largo do adro já referido, vem desembocar um caminho lajeado tão bem construído que tem certamente desafiado séculos. E promete continuar, se o deixarem. As casas novas que ultimamente se foram construindo não destoam da paisagem nem do silêncio, que é, de vez em quando, cortado pela passagem de pequenas manadas de bois que vêm beber ao bebedouro, ali à beira da estrada. Como sede da freguesia, Alvadia tem uma escola primária que a evolução demográfica, mercê das novas formas de vida, do papel da mulher e de emigração interna e externa, tem vindo a desertificar. Um posto de telescola que funcionava numa construção pré-fabricada já foi extinto, pelo que os alunos que desejam prosseguir os seus estudos para realizarem a escolaridade obrigatória se deslocam a Ribeira de Pena, utilizando o transporte escolar que existe para este fim. Os moradores com que nos cruzamos são poucos, mesmo contando aqueles que é mais fácil encontrar no Verão, tempo de voltar a casa e matar saudades destas serras e destes ares. São poucos, sim, mas de uma lhaneza de trato reconfortante para os visitantes: hospitaleiros, prontos a darem informações e simultaneamente discretos, de uma cortesia e disponibilidade que permitem traçar, numa visita, o dia-a-dia da aldeia. E alguns quase sentem necessidade de explicar por que deixam esta terra que tanto amam - e então referem as difíceis condições naturais desta vida serrana e, até agora, a falta de investimentos que criem empregos e permitam uma vida mais confortável e mais fácil. À saída de Alvadia (ou à entrada, conforme o ponto de vista), atravessa-se o rio, que aí ainda se chama rio Poio, pelo pontão de Rolos. Nasce um pouco mais acima e corre sobre um leito duro de pedras enormes, pelo que, em certas épocas do ano, mais parece um rio de pedras. A água é de uma limpidez de espelho e as numerosas marmitas de gigante encostadas à ponte, sendo sinal da acção da água sobre a pedra, falam-nos de uma natureza que não pára de transformar e de se transformar. Um moinho antiquíssimo, infelizmente em precário estado de conservação, pelo menos no que diz respeito a materiais mais perecíveis, apoia a estrutura, merecia ser conservado nas suas características, pois a estrutura parece firme e a levada que o movia, canalizada em pedra, a céu aberto, faz dele um caso muito especial. A dois quilómetros do caminho, num pequeno vale verdejante, está situada a aldeia de Lamas, que, não sendo a sede, é contudo mais populosa e apresenta mesmo uma área maior. Uma visita ainda que rápida permite reconhecer vários pormenores cheios de interesse e de inesperado. No centro, chama a atenção uma capelinha de adro murado. É da invocação da Nossa Senhora dos Remédios e uma paroquiana solícita abre a porta e informa os visitantes que o actual aspecto cuidado significa que a capela foi reconstruída há poucos anos, a expensas dos habitantes, tendo todos ajudado de acordo com suas posses, tanto em dinheiro como em alojamento e/ou alimentação dos operários que vieram de fora para realizar o trabalho. Fica-se a saber também que a capela é proprietária de um terreno para rendimento que está alugado, revertendo, portanto, as verbas desse aluguer a seu favor. Este interesse generalizado dos habitantes de Lamas pela sua capela explica-se pela gratidão em que todos se sentem para com Nossa Senhora dos Remédios, que tem sido uma protectora à altura das suas necessidades. Assim, desde que recomendado à Senhora, nenhum dos seus moradores que tivesse saído da terra, atraído por miragem de vida mais próspera ou obrigado a ir lutar em terra longínqua, jamais se viu em perigo de morte. É, pois, bem digna de amor e gratidão, que se vêem espelhados no cuidado e na ornamentação da capela no seu interior. No único altar, chama logo a atenção do visitante a imagem da padroeira, mas o seu olhar é irremediavelmente atraído para o tecto, totalmente trabalhado; em volta, a sobressair, a mesma Senhora dos Remédios, rodeada de anjos por todos os lados. Voltamos a admirar o altar-mor, porque a sua talha dourada, bem cuidada, não pode deixar de nos seduzir. Cá fora, a rua antiga e muito estreita é ladeada por construções escuras, como as que tão regularmente se encontram por estas terras de granito, mas, a par e passo, podemos ser atraídos para pequenos pormenores de grande beleza: um canastro assente sobre pilares de pedra perde toda a sua rudeza porque se soube deixar abraçar por uma roseira delicadíssima, de flores tão pálidas que quase não têm cor; ou o bucólico conjunto que resulta de uma nascente que dá para a via e a que não falta a talha para os animais beberem e o assento para se poder deixar encher a vasilha descansadamente, tudo abençoado por umas alminhas antiquíssimas e onde não falta o tom róseo-suave das hidrângeas. As numerosas casas rurais, de boa dimensão, têm as suas designações: a casa do Gaspar, a casa do Cabo, a casa do Seixo, a casa da Carvalhinha são apenas alguns nomes a reter. A escola tem uma população escolar apreciável, dentro dos condicionalismos demográficos actuais, havendo apenas a referir que o edifício necessita de contínuos cuidados de manutenção. Estamos de volta à estrada a caminho de Favais e ao encontro de uma pequena maravilha. Referimo-nos à Pedra de Favais. Mas suponhamos que não fazemos ideia do que será a pedra e entramos pela povoação, vamos andando por ali adiante, chegamos ao núcleo mais central, que é sempre o local em que vemos surgir a capela do lugar, e perguntamos a um dos habitantes onde podemos ver a famosa pedra. A resposta virá acompanhada de um sorriso mais ou menos orgulhoso, de um sinal com a cabeça ou de um braço apontando para a dita capela e da frase simples e lapidar: "Está ali, à vista, à frente da capela". E está mesmo. Em frente à diminuta capela dedicada a Santa Luzia, que mais parece um pequeno quarto ali construído para alojar peregrino, encontra-se uma invulgar pedra esculpida, em que se vêem anjos em conjunto, sendo de realçar que um está a tocar enquanto os outros dois, a escutar a música, coroam o primeiro. É de dimensões apreciáveis e, antigamente, encontrava-se dentro da capela, ao pé do altar. Então, em determinada altura, um padre de Macieira pediu-a, para a levar para Alvadia. Levaram-na, mas tê-la-iam colocado na parte de trás do adro. O povo de Favais foi lá buscá-la e colocou-a onde se encontra actualmente. Assim, vê-a a toda a hora quem queira e também, se houver mais alguém com a ideia peregrina de a voltar a levar, depressa se dá conta da sua falta... Por detrás da Capela de Santa Luzia estão as alminhas, com a data da sua construção, 1954, embora pareça ser 1754, por o 9 estar desenhado de forma deficiente. Também aqui a pedra reina por todo o lado e há os sinais característicos de que este solo pobre não dá senão para que os locais se dediquem a uma agricultura de subsistência e ao pastoreio, utilizando os montes e os lameiros, aqueles servindo para o gado caprino e estes para o bovino. No seu conjunto, uma das grandes riquezas desta freguesia é a sua variedade e autenticidade de aspectos etnográficos, pelo que é fácil encontrar ainda belos conjuntos arquitectónicos característicos da região, de que as casas com as suas coberturas de colmo são exemplo, assim como se podem admirar as crossas, estes fatos feitos de palha e usados para proteger do frio e da chuva, que o chamado progresso tem feito substituir pelos plásticos e oleados, mais práticos certamente, mas menos benéficos em termos de saúde, pois não permitem uma transpiração correcta. O respeito que se vem mantendo pelas manifestações artesanais e formas de vida parece garantir-nos a certeza de que as mesmas se não perderão, pois encontramos jovens que têm mostrado interesse em aprender as técnicas de antigamente, não só no que se refere à confecção de crossas, mas ainda à tecelagem, tendo inclusivamente, nos últimos anos, decorrido cursos dedicados a jovens e em especial aos que buscam o primeiro emprego. Estes cursos foram possíveis graças a um acordo de cooperação financeira com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, que suportou parte dos seus custos, pois foi necessário adquirir material e equipamento e retribuir o trabalho dos artesãos reconhecidamente capazes e que aceitaram trabalhar como professores-monitores. Atendendo ao interesse cada vez mais alargado pelo artesanato verdadeiro e à sua importância numa freguesia que pouco deve à natureza no que diz respeito a amenidades climáticas e riqueza de solo, mas que pode, em termos de agro-turismo e de artesanato, pedir meças a muitas outras, não admira, pois, que algumas das jovens que se dedicarem a aprender essas técnicas centenárias se proponham utilizá-las como meio de obterem uma remuneração em termos mais ou menos fixos, isto é, como sua ocupação de pequenas empresárias. Um outro aspecto que não pode deixar de ser encarado é o rio Poio, que depois se vai crismar de Alvadia, capaz de nos surpreender com belíssimos aspectos, bem merecedores de serem alvo de percursos organizados e poderem, assim, ser desfrutados pelos inúmeros apreciadores da Natureza. Todos os que conhecem a sua garganta e as suas espectaculares quedas de água se transformam em divulgadores interessados, mas este capital natural precisa de ser rentabilizado com mais método para funcionar para vantagem de todos, afinal. A freguesia da serra, de clima duro e agreste, onde para além da paisagem se destaca o seu potencial hídrico e eólico - riqueza energética que muito beneficia o concelho. Freguesia de Canedo A freguesia de Canedo é a mais afastada da sede do concelho de Ribeira de Pena e a mais isolada. Situada a nor-nordeste da sede, já na região barrosã, uma viagem pelo seu território apresenta-nos um tão variado leque de motivos de prazer para os olhos e de interesse geral, que se recomenda vivamente.... Tem 3849 ha, 506 habitantes e dista 25 Km da sede de concelho. É constituída pelas povoações de Alijó, Canedo, Penalonga e Seirós. Espigueiros em Penalonga Forno comunitário Capela da N. Sra. da Livração A freguesia de Canedo é a mais afastada da sede do concelho de Ribeira de Pena e a mais isolada. Situada a nor-nordeste da sede, já na região barrosã, uma viagem pelo seu território apresenta-nos um tão variado leque de motivos de prazer para os olhos e de interesse geral, que se recomenda vivamente. Este interesse parece que não é de agora, pois há notícias e provas de um primitivo povoamento pré-romano, documentado pelos vestígios de castros, em povoado fortificado de grandes dimensões, da Idade do Ferro, e ainda pelo achamento do que se tem divulgado ter sido um guerreiro lusitano em Penalonga, assim como pela existência de uma provável vila romana em Canedo. Dois testemunhos a provar o que afirmamos são-nos dados pela Exposição dirigida ao Governador Civil de Vila Real quando este esteve de visita aos Paços do Concelho, em Dezembro de 1938, e por uma Monografia de Ribeira de Pena da autoria do interessado ribeirapenense que foi o Tenente Carlos Palmeira e que saiu a público em 1948. Este último, no capítulo dedicado a fornecer "Algumas Notas sobre as Freguesias do Concelho", diz-nos textualmente: 'A estrada n.º 312, Chaves-Porto, que deve passar nas proximidades desta freguesia, irá contribuir imenso para o seu progresso e desenvolvimento.' Da exposição mais acima referida, que era assinada pelas ''autoridades representativas da freguesia, em estreita união com o nosso reverendo Pároco, Professoras, Comissão de Assistência e mais chefes de família da freguesia de Canedo'', é de realçar a mágoa profunda daqueles que se lamentavam de ter vivido talvez por força das circunstâncias, quase completamente desamparados da protecção pública e abandonados ao nosso próprio esforço. Apresentavam seguidamente as suas principais razões de queixa e que se consubstanciavam em 'fontes desprezíveis, escola coberta de colmo, ruas por calcetar, sem ligação entre as partes componentes da freguesia, vivendo à distância de dezassete quilómetros e desligados do concelho por falta de estrada e de passagens no Inverno, não obstante ser a nossa freguesia uma das mais populosas e de todas a não menos rica de recursos naturais'. A sua situação geográfica, que é determinada pelas serras das Alturas, do Pinheiro e de Santa Comba e pelos rios Tâmega e Beça, oferece como resultado terras ricas e úberes, porque são profusamente irrigadas. Um passeio a pé, mesmo no fim do Verão e em pleno centro das povoações, é continuamente alegrado pelo som cantante da água quer de fontes, quer de minas, levadas, rios e regatos, tudo a brilhar numa limpidez de cristal, ainda sem as marcas da poluição. O solo, por outro lado, é rico mesmo nas suas camadas mais interiores e estão registadas várias minas de estanho, que devem ter sido um factor que muito contribuiu para ser uma terra de grandes propriedades, resultantes dessa riqueza que o solo prodigalizava. Já no século XII ou, quando muito, no início do século seguinte tinha a sua instituição paroquial, sendo o Divino Salvador o seu patrono, como ainda hoje o é da paróquia. D. Afonso III deu cartas de foral a três povoações que fazem parte da freguesia e que são Canedo, Penalonga e Seirós. Este último foral foi concedido a 29 de Maio de 1258 e encontra-se publicado no Livro I das Doações do Senhor Rei D. Afonso III, maço 31, coluna 1. No campo administrativo, Canedo pertenceu ao concelho de Montalegre até 1839, data a partir da qual passou a fazer parte do concelho de Boticas, para, por decreto de 26 de Outubro de 1895, ser integrada como freguesia do concelho de Ribeira de Pena. Estas mudanças administrativas não lhe trouxeram, contudo, senão nos últimos tempos, remédio para um dos principais males que obstavam ao seu desenvolvimento - as vias de comunicação. Desde tempos imemoriais que as suas ligações ao exterior sempre pecaram pela precariedade e falta de qualidade, esperando-se que a moderna estrada que faz ligação a Boticas ajude a desmontar esta teia de afastamento que tem levado a uma extraordinária diminuição de população. As suas encostas estão quase totalmente cobertas por verdes bosques em que os pinheiros ainda são reis e fácil é deduzir a importância deste factor em termos económicos quando, durante o nosso passeio, deparamos com variadíssimas provas: a recolha da resina, as largas pistas cobertas de árvores abatidas e já preparadas para serem tratadas, as reflorestações, as clareiras, os cuidados na limpeza das áreas florestadas para prevenir os incêndio os corta-fogos, alguns impressionantes ao longe, semelhando estradões íngremes a caminho das alturas. De vez em quando, as árvores dão a vez a vegetação mais baixa e o verde-escuro e denso faz caprichosos matizes com vastos tapetes de urzes rosadas, que apetece cortar e trazer para casa para a enfeitar de campo. Em certas horas do dia, em especial naqueles dias já de meia estação, quando o sol não se abre ainda ou já na sua magnífica plenitude, as nuvens e as árvores fazem jogos de luz e sombra sobre as encostas que são inolvidáveis. Vamos agora iniciar uma visita mais pormenorizada às povoações que constituem a freguesia e que são Seirós, Canedo e Alijó. Como o passeio não está, felizmente, sujeito a horas ou demoras, caminhemos ao longo da estrada nova, façamos o reconhecimento dos locais em que teremos de sair dela para entrar nas povoações, cheguemos mesmo ao término da freguesia, onde ela dá lugar a outro concelho. Estamos numa povoação que se espraia encosta acima, Alijó de seu nome. Não encontramos justificação para esta designação, igual à que dá o nome a uma vila sede de concelho do outro lado de Trás-os-Montes, terra de vinho licoroso e internacional e cujo território bordeja o Douro. Mas esta Alijó tem história que chegue: um Santo Amaro padroeiro festejado a 15 de Janeiro, quando aquelas terras serranas têm mais trio do que baste, e que foi, como homem, um frade da Ordem de S. Bento cuja piedade lhe alcançou os altares. E a devoção a que ainda hoje faz jus não olha ao tempo para lhe ser prestada, pois convém estar de bem com este Santo Amaro que protege tudo o que é osso... Por isso, se a neve não é tanta que o impeça de todo, lá temos, no dia aprazado, um número respeitável dos que vão à Romaria dos Ossos, assim chamada porque os romeiros fazem novena e procissão empunhando ou sobraçando reproduções, em madeira, de braços, mãos, pernas e pés, com a fé de que o santo lhes proteja os ossos respectivos, ou então para agradecer graça feita em tal matéria quando foi preciso pedir a protecção. A capela surge-nos, na sua simplicidade granítica, sem grande aparato, com um adro largo à frente e podem crer que o mesmo se torna pequeno para os devotos em dia de festa. O forno comunitário apresenta-se limpo, com todos os sinais de ser frequentemente utilizado, e, quando o tempo o permite, tem sempre à porta o respectivo combustível. Lá dentro, à direita, um vasto escano de cimento serve de mesa de apoio às padeiras da aldeia, que são todas as que o utilizam para a broa gostosíssima. As alminhas foram mandadas construir em memória de ''António Alves, que foi morto por António + Inan''. No núcleo mais antigo da freguesia, aninhadas perto da capela, mas a exigirem espaço pelo seu tamanho, erguem-se casas rurais antigas, compostas por casa de habitação com alguma qualidade, casas para alfaias e produtos e grandes compartimentos para animais. Uma das casas passa de um ao outro lado da rua estreita de terra batida que as mais curtas chuvas transformam logo em lamaçal. As duas partes, uma claramente mais antiga do que a outra, unem-se por um passadiço, de varanda a varanda. É conhecida por 'Casa do Portelada', embora esta designação nada o tenha a ver com o nome do seu actual proprietário. Não é fácil ao visitante interessado recolher informações, a não ser em pleno tempo de férias, quando os filhos da terra, que mourejam por outras bandas, vêm encher a alma da paz destes ares. As casas, novas e velhas, estão fechadas em grande parte, pois os que não emigraram estão ocupados nas tarefas agrícolas ou trabalham longe da freguesia. A escola, um edifício airoso que aparenta pouca idade, tem um largo pátio em frente, murado de vento, isto é, sem qualquer vedação, mas, curiosamente, com um portão a marcar a entrada. Tal e qual, um portão de ferro, com fechadura. E que pátio fechará as brincadeiras dos dois únicos alunos que, neste ano da graça de 1993, a frequentavam? A caminho da Capela de Nossa Senhora da Livração, passamos por uma galeria de canastros ou espigueiros, aos pares, e por mais uma ou duas casas rurais muito definidas na sua função. Outro núcleo estende-se para lá da capela. Esta apresenta um interior colorido e cuidado, com as suas imagens policromas, em que sobressaem as da padroeira e de Nossa Senhora de Fátima, em altar lateral, com certo peso, relativamente ao interior. O tecto é de madeira pintada de cinzento-claro. Uma habitante idosa recomenda a visita a outras duas capelas, a de Santa Ana, no cimo do monte, e a de S. João. E vai-nos avisando: "Para irem à de Santa Ana, cuidado com o caminho, precisam de ter boas pernas. E para ver a de S. João, precisam de ter bons olhos para a procurarem no meio do milho". Esta advertência, com um certo tom oracular, tão frequente nas pessoas com muita idade, vem a demonstrar-se muito verdadeira, pois a Capela de Santa Ana está situada bem no cimo do monte e tem a sua lenda. Dizem que Santa Ana aparecia, em imagem, num local perto do penedo longo que dá o nome à freguesia. Os moradores trouxeram a imagem para a capela, mas ela voltava a fugir para o primeiro lugar onde tinha aparecido. Pensaram então que era melhor fazer a vontade à Senhora e construíram-lhe um nicho no local que ela preferia. Chama-se o Nicho de Santa Ana. Quanto à Capela de S. João, de facto, é preciso saber que ela existe, para nos apercebermos da cruz que a encima. Um carreirinho estreito e difícil leva-nos até ela e, logo ao lado, notamos, está, sujeito a todas as intempéries, um sarcófago de pedra, reproduzindo perfeitamente a silhueta humana, com o recorte do pescoço finamente desenhado. Como não tem tampa, quando chove enche-se de água. A capela é muito pequena e está literalmente submersa pelos pés de milho, mas os rapazes solteiros, na noite de S. João, fazem-lhe a festa. Ainda dentro do núcleo principal da povoação, encontramos, aqui também, vários relógios de sol, entre os quais avulta o da Casa da Ponte, que ainda pertence, como muitas outras propriedades nesta freguesia, ao morgadio de Seirós. É perto do rio Beça, que corre ao fundo da aldeia, fazendo limite, e é transposto por uma ponte sólida, que os habitantes mais velhos dizem, por o saberem dos seus avós, que nem nos tempos das maiores cheias, a água jamais passou por cima da dita ponte! Sendo esta freguesia rica em gado ovino, em comparação com o outro extremo do concelho, em que abundam os rebanhos de cabras, encontramos, volta e meia, um rebanho a beber, comandado muitas vezes por pastor jovem, que assim participa nas tarefas familiares. Então podemos apreciar o espectáculo lindo de ver as ovelhas brancas a confundirem-se com as pedras alvas que o rio vem lavando numa barrela de séculos. A caminho da sede da freguesia, encontramos algumas casas que constituem o lugar do Couto, de onde é, aliás, natural, a maior parte dos rapazes que festejam o S. João na tal capelinha. Ao cimo de uma ladeira, à direita, ergue-se uma construção pré-fabricada, em bom estado e com uma decoração identificativa algo curiosa, onde funcionavam as actividades lectivas da telescola. Um pouco adiante, aparece a Capela da Senhora de Fontelos, com o seu pequeno átrio, estranhamente voltada de costas para a estrada. Depois, mais umas centenas de metros percorridos, chegamos a um largo onde o que mais chama a nossa atenção é o nome da rua, orgulhosamente gravado em placa colocada na parede de uma casa, velha construção rural com o número gritado a branco e umas curiosas alminhas que nos fazem lembrar um monumento. Para visitar a igreja paroquial, o melhor é ir a pé, a partir de determinado ponto. Senão, teremos que dar uma volta. Como a viela até parece suficientemente larga para comportar uma viatura, parece uma decisão insensata. Há que descobrir que se justifica a caminhada porque, por esta, em breve encontramos, a partir de determinado ponto, um declive íngreme onde, acauteladamente, foram escavados, bem no meio do caminho, degraus que tornam a subida e a descida mais fáceis e seguras. Por outro lado, só temos que nos sentir gratos pela obrigação de ir a pé, porque o ar está muitas vezes perfumado de hortelã, que cresce em tapete espesso de cada lado da estrada, entre as pedras. E ouve-se, como temos vindo sempre a ouvir, murmurar a água, para, lentamente, o murmúrio se transformar num som mais definido, que é já um rumor. De facto, lá em baixo, ao pé da igreja, corre água e, sobre a corrente estreita mas com certo significado, atravessa-se um pontão de cimento que mais não é do que isso mesmo: um pontão de cimento sobre uma corrente. A igreja paroquial, essa, começara a deixar-se ver bem de trás, porque a sua torre sineira, independente do corpo do templo, ergue os seus dois campanários acima do pequeno cemitério. Quando nos chegamos mais de perto, podemos observar alguns elementos góticos, tanto no edifício da igreja propriamente dito como nas restantes construções que com ele fazem conjunto, embora uma parte com nítidos sinais de abandono e degradação. Teriam sido estas moradias as de uma pequena congregação de monges beneditinos. Todo este conjunto foi, de facto, património da Ordem dos frades bentos, sendo o reitor de Canedo apresentado pelo Abade do Mosteiro de Refojos de Basto. A via sacra começa logo ali, no adro, com cruzes de grandes dimensões, e estende-se até a um monte em frente. Numa das paredes do edifício mais antigo, praticamente em frente à porta principal da igreja, a nossa atenção é acordada por uma pedra de dimensões apreciáveis, com uma longa inscrição. Trata-se, muito provavelmente, de uma inscrição popular que virá do séc. XVII. Nesse edifício, que apresenta as suas portas escancaradas, podia ainda ver-se, no Verão de 1993, na saleta à direita, no rés-do-chão, uma talha de pedra, como as que eram utilizadas para guardar azeite. A igreja, cujo padroeiro é, como já vimos, o Divino Salvador, tem um relógio de sol assente numa espécie de cornija sobre o telhado e, na parede lateral direita, bem encostados ao corpo do templo, os tais cruzeiros de bom tamanho, com as suas numerações para rezar as estações da Via Sacra. Voltando à estrada que atravessa a povoação, encontramos conjuntos de cortiços que nos informam que a apicultura é um factor económico de interesse. Depois, já no caminho do regresso, ainda passamos por uma propriedade de aspecto senhorial, com uma capela de bela aparência. É conhecida por Capela de Matos, por pertencer à quinta com o mesmo nome de família. Chegamos, finalmente, à ponte porque vamos atravessar novamente o Beça. A água espraia-se um pouco mais largamente, uma velha moagem ergue-se como sinal de outros tempos e retomamos o estradão novo que nos leva de regresso à 312. A floresta continua a bordejar a estrada e, em breve, chega o momento de mudarmos de direcção para entrarmos em Seirós. A primeira visão que se obtém da povoação é a da parte nova, resultado do crescimento da aldeia, com as casas quase sempre rodeadas de um jardim ou quintal, aproveitando o espaço livre, que ainda não escasseia. Um pouco adiante, deparamos com um lavadouro encostado a um declive cortado a pique, do cimo do qual podemos obter uma bela vista do conjunto, por ser um miradouro natural. Essa elevação recortada como que divide a povoação em duas partes, mesmo no que se refere ao seu núcleo mais antigo. Se pretendermos subir para apreciar o panorama, encontramos, logo ao fundo da ladeira, as alminhas e vai-se vendo depois uma torre bem alta, encimada por uma cruz, onde ainda se destacam os sinos e o mostrador de um relógio que nos parece estar acima e fora do conjunto. Esta ideia surge-nos porque a referida torre tem o aspecto mais moderno que possamos imaginar e, para nos aproximarmos dela, temos que percorrer umas ruas estreitinhas, agora quase completamente de terra batida, mas ainda com seus troços, mostrando restos de calçada, ladeadas por casas rurais antigas de boa dimensão. Chegamos, finalmente, ao ponto desejado e descobrimos que a torre que vinha captando a nossa atenção não faz parte da igreja. Esta, dedicada a Santa Bárbara, é uma construção relativamente pequena, com 18 metros de comprimento por 8 de largura, e foi mandada construir em 1852 por Frei Domingos Sanches. De entre as imagens que enchem os seus altares, destacam-se a padroeira, claro, e ainda Santa Ana, S. Bento, S. Mamede e S. Brás. Este Frei Domingos Sanches que a mandou construir foi um franciscano nascido em Eiró a 14 de Maio de 1841. Tomou o hábito de S. Francisco a 6 de Outubro de 1875, mas já então era padre, tendo-se ordenado com 23 anos de idade. Dentro da sua Ordem exerceu altas missões, como, por exemplo, encarregar-se da reforma do cerimonial litúrgico e doméstico do seu convento. Foi o guardião dos conventos de S. Bernardino de Atouguia da Baleia e do Varatojo, tendo sido neste último que, antes, se preparara para a profissão de fé. O seu nome está ainda ligado à fundação de dois novos conventos, o de Montariol e o de Gesteira. Morreu em Braga, a 18 de Abril de 1929. Mas, voltando a falar da torre, que foi construída mais recentemente, não falta quem diga que ela resulta da vontade de competir com a igreja matriz de Salvador, atingindo ambas as torres a mesma altura. À direita da igreja e por detrás, estende-se a vasta propriedade do Morgadio de Seirós. É enorme, conservando as grandes casas de recolha e uma das suas componentes mais interessantes é uma vasta bateria de espigueiros, quase em semicírculo, que fazem uma espécie de divisória entre o pátio e as searas de milho. É de referir que o morgado de Seirós, Alvares Pereira, foi um dos que mais se interessaram pela experiência da cultura do triticale. Todo este núcleo à volta da capela é de rural antigo, o que lhe dá um carácter que será de preservar e que exige algumas imprescindíveis obras de conservação. Num outro larguinho da povoação, mesmo por detrás de mais um lavadouro e fontes públicas, ergue-se um bem conservado relógio de sol, que brilha brancura e que ostenta orgulhosamente a data de 1851. de Freguesia de Cerva A freguesia de Cerva foi um município independente até 31 de Dezembro de 1853, constituído pelas freguesias de Cerva, Limões e Alvadia. Com inúmeras marcas de povoamento de épocas muito antigas, em especial representadas por castros e vestígios da presença romana... Tem 4605 ha, cerca de 2611 habitantes e dista da sede de concelho 16 Km. É constituída pelas povoações de Adoria, Agunchos, Alvite, Asnela, Cabriz, Cerva, Escoureda, Feira de lomba, Formoselos, Minas de São João, Ribeira, Rio Mau, Seixinhos. Ponte românica sobre o rio Poio Rua de Agunchos Pelourinho em Cerva A freguesia de Cerva foi um município independente até 31 de Dezembro de 1853, constituído pelas freguesias de Cerva, Limões e Alvadia. Com inúmeras marcas de povoamento de épocas muito antigas, em especial representadas por castros e vestígios da presença romana, teve o seu foral a 3 de Junho de 1514, dado por D. Manuel. Este foral encontra-se registado no Livro de Forais Novos de Trás-os-Montes, a folhas 27, coluna 1, gaveta 20, maço 11, n.º 22, da Torre do Tombo. Antes, este território tinha sido concedido como 'honra' a Afonso Sanches, filho ilegítimo de D. Dinis mas não menos dilecto por ser ilegítimo, como está historicamente provado. Basta recordarmos as relações por vezes tempestuosas entre D. Dinis e seu filho Afonso, o futuro Bravo do Salado, as escaramuças em que ambos se enfrentaram com seus homens de armas, a necessidade de a Rainha Santa Isabel usar a sua paciente bondade para acalmar o filho, a quem o ciúme cegava, para termos uma ideia de quanto esta povoação representava aos olhos do rei, que a dava ao filho que era a menina dos seus olhos. Mais tarde, Afonso Sanches fundou o Convento de Santa Clara em Vila do Conde, e doou alguns dos seus direitos sobre Cerva ao convento que fundara. Em 1406, quase um século após ter sido doada como honra a Afonso Sanches (que a recebera em 1313), estava na posse de Vasco Martins de Sousa e, no século XVII, passou a pertencer ao 1º marquês de Marialva, D. António Luís de Meneses, que era o 3º conde de Castanhedo e que foi agraciado com este novo título por D. Luís de Gusmão quando governava como regente durante a menoridade do seu infeliz filho D. Afonso VI. Esta mercê, dada por carta de 11 de Junho de 1661, foi confirmada mais tarde pelo referido rei por alvará de 14 de Maio de 1675 Note-se que o Marquês de Marialva se apelidava de Senhor de Cerva, embora fosse o senhor de muitas outras terras. O território da freguesia estende-se pelos contrafortes das serras do Alvião e da Ordem e é regado pelo rio Póio, ou Alvadia (vai desaguar ao Louredo, afluente do rio Tâmega) não menos importante para a irrigação deste espaço. A freguesia de Cerva é composta por várias povoações, em que avulta a sede, com o estatuto de vila e que se dispõe como presépio na encosta da serra. Como ponto central, prendendo a nossa atenção de onde quer que olhemos, temos a sua velha igreja de S. Pedro, que foi reconstruída em 1673, embora tenha sido alvo de obras ultimamente. O santo patrono avulta numa estátua colocada na parede lateral que se vê primeiro quando nos aproximamos e os modilhões que podemos observar recordam-nos a sua base romântica. O pelourinho, que data de 1617, relembra a prerrogativa de concelho e julgado na administração da Justiça e estaria bem enquadrado pelas paredes da velha casa conhecida por Casa de Paço Vedro e pela fonte da Água Boa, não fora uma útil mas deslocada cabina telefónica ali colocada recentemente. Bem no meio da vila, temos um edifício de boa traça portuguesa, e dimensão condizente, onde funciona a Casa do Povo. Subindo uma rua que a rodeia lateralmente, chegamos à igreja, mas, antes, temos que observar a bela Capela de S. Sebastião, cuja entrada não pode deixar de atrair a nossa atenção pela arte exibida nas colunas torsas. Descemos novamente para nos dirigirmos a um ponto médio, a caminho do fontenário, e de onde se pode admirar a povoação abandonada das explorações mineiras de S. João. Um pouco mais abaixo, a imponente casa senhorial dos Crespos exibe um brasão espectacular. À direita, o edifício dos bombeiros com as suas viaturas muitas vezes brilhando ao sol no pátio em frente. Deslocamo-nos rua abaixo, voltamos à estrada principal e, dando mais umas voltas de acordo com o sentido que nos é permitido tomar, encontramos os equipamentos urbanos mais importantes, representados pela GNR, por escolas de ensino básico e secundário, correios, centro de saúde, cooperativa agrícola, etc. Enquanto estamos deste lado da igreja, podemos aproveitar para ir a Seixinhos, uma povoação espalhada pela serra e pelas encostas que levam até ao rio Louredo, isto se pensarmos que os magníficos panoramas valem (como valem, de facto) o sacrifício de arrostar com o estradão difícil que teremos que utilizar. No caminho, podemos começar por admirar a Capela do Bom Jesus, em Burgos, rodeada por belas casas rurais: a Casa de Marante, com duas entradas principais, uma delas atravessando o edifício da casa de habitação até ao pátio, mas com construção por cima da passagem (o que faz lembrar alguns edifícios de apartamentos urbanos que passam de um lado ao outro da rua fazendo um viaduto), e também a Casa Alves Costa. Aliás, todo este caminho para Seixinhos é rodeado de belas casa rurais. No território, procuremos restos de um velho castro sobranceiro ao rio Louredo, e o "Castelo", isto é, um imponente rochedo em peça única que mais não é do que um grande bloco de quartzito, e a ponte medieval sobre o rio. Nesta altura, aconselha-se vivamente a fazer o resto do passeio a pé e não só pelo estado do piso do estradão. Importa, sim, enchermos os pulmões deste ar puro dos pinhais, ouvir o Louredo ora rumoroso ora em murmúrio, consoante o declive do leito, olhar estas urzes, admirar cautelosamente o chão salpicado de fungos das mais apetitosas cores e perigos, procurar as rochas escavadas onde os 'mouros' guardavam o ouro, como ainda por cá se diz. E não nos faltará quem se lembre de alguém que conheceu alguém que, ao lavrar uma leira ou a tirar uma pedra para uma construção, tenha encontrado o dourado metal que tão profundamente atrai os homens. Seja como for, há notícia de que em 1870, foi encontrado no território dinheiro, em cobre do tempo do Imperador Vespasiano. Retomemos o estradão, que foi calçada romana e da qual restam ainda grandes lajes aflorando as camadas de terra que o tempo e os homens lhe foram colocando por cima. Em breve, sempre por entre o verde das árvores, o rumor das águas e o ar puro, chegamos à velha ponte. Em muito bom estado, estreita, perfeitamente calcetada, a sua idade já lhe permitiu que, em sucessão primária, lhe nascesse uma árvore numa das paredes laterais. E precisa de ser podada todos os anos, tal o seu tamanho, constando-nos ainda que a actual é apenas a última de uma velha geração. O rio, cerca de trezentos metros a montante da ponte, vem bifurcado, como se dois irmãos se tivessem desavindo e depois reconciliado, e corre sobre um leito pedregoso mas com águas extraordinariamente límpidas. Apetece-nos atravessar a ponte para lá e para cá e repetir os passos do número infinito de pessoas que, desde a sua construção, a utilizaram para, subindo e descendo a serra, irem ter a Salvador, do outro lado da montanha. E apetece-nos fazer um piquenique neste ambiente simultaneamente calmo e imponente que, de facto, se nos impõe com um todo. Agora, há que fazer o caminho de volta e visitar as restantes povoações do lado de lá da sede da freguesia. Na altura de tomar decisões, hesitamos. Por onde começar? Por Alvite, com seu nome de ressonância gótica? Por Adoria e Rio Mau, que nos não apetecem menos? Retomemos a estrada que nos trouxe de Santa Eulália e não resistamos a subir uma ladeirinha que nos há-de conduzir à Capela de Santa Bárbara. Vale a pena, pois o espectáculo que de cima se desfruta é fantástico. A capela tem um átrio coberto e murado à frente e um cruzeiro da independência também. Numa das paredes interiores do átrio uma data - 1703 - e, na parede da igreja propriamente dita, uma imagem de Santa Bárbara e, do outro lado, a do Sagrado Coração de Jesus, as duas, em azulejo. Se seguirmos novamente a estrada, podemos depois descer para Alvite, onde pontifica uma magnífica ponte românica, de dois arcos, sobre o rio Poio, ainda com a calçada que a precede depois a segue, e que é geralmente conhecida como a ponte 'romana' de Alvite. Seguimos pela estrada engalanada de parreiras que se abraçam a choupos e lódãos e, em breve, chegamos junto da Capela de Nossa Senhora do Socorro. Esta capela merece um visita para apreciar o seu tecto, cujo forro se apresenta pintado restaurado. Muito perto da capela, chamam a nossa atenção várias casas solarengas, algumas já dedicadas a outras actividades que não aquelas para que foram de facto criadas, enquanto umas tantas se apresentam cuidadosamente restauradas. A Casa de Pombeiro é um grande edifício rural, que ainda mantém todos os seus pertences mais típicos, em que incluímos a cozinha tradicional, oratório, adega e lagar de vinho, além de alpendre, eira, espigueiro e azenha. A designação vem-lhe do facto de ter pertencido ao Mosteiro de Pombeiro, de Felgueiras. Julga-se que a actual construção terá sofrido obras de restauro em 1895, o que lhe dá, mesmo assim, uma provecta idade. A Casa do Ribeiro apresenta algumas pedras com inscrições, a Casa de Fundo de Vila, vulgarmente referida como Casa de Fundevila, mostra as mesmas características de abastança e no seu lagar de vinho pode ver-se a data de 1821. A Casa do Aleixo tem como particularidade uma estátua de santo em cada esquina do telhado, enquanto a Casa Rural da Fraga está cheia de referências a lendas e encantamentos. Esta não é uma listagem exaustiva de todas as construções imponentes de Alvite, mas apenas um pequeno levantamento, que não pode deixar de ser complementado por todos os que se interessam por estas construções de antanho, a partir das quais se podem traçar genealogias e sagas familiares. Retomemos Cerva, para nos deslocarmos pela estrada para Adoria. Logo à entrada desta povoação, o terreno conhecido por Feira da Lomba, onde tem lugar a referida feira, com os sectores destinados a cada mercadoria perfeitamente definidos. Em dia de não-feira, o espaço faz-nos lembrar um adro de igreja, apesar do tanquelavadouro público. Nos dias de feira, contudo, é um pequeno mundo cheio de interesse em que se podem adquirir as mais diversas mercadorias, com realce para os artigos de cultivo, os doces feitos por antigas e novas doceiras, e os enchidos. Na feira mais próxima do Natal, é um mundo de verduras que extravasa o seu espaço próprio e se prepara para nos ajudar a celebrar consoladamente o nascimento do Menino-Deus. A capela dedicada a S. Jorge, montado no seu cavalo, ergue-se mais acima, construída sobre um pequeno socalco, num larguinho mesmo em frente à casa fundada por António José Gonçalves, um dos que procuraram a fortuna no Brasil e um dos homens mais ricos do seu tempo. A casa está em estado de abandono, mas apresenta ainda sinais visíveis de um bom gosto contido, sem extravagâncias, pelo menos no exterior. As janelas são altas, em arco, e, no meio do edifício, ressalta uma elegante água-furtada, enquanto cá fora, ainda que destoando um pouco da construção principal, um tanque de pedra de boa dimensão reclama atenção. Nas imediações, erguem-se ainda outras construções de boa traça e tamanho, reflectindo uma certa opulência, ligadas ainda hoje à actividade agrícola. Continuando a subir, chegamos a Rio Mau, onde não vemos rio mau nenhum, mas por onde corre, rumorosa e fresca, água límpida por sobre um encanamento de pedra encostado às casas e muros. Os núcleos de casas rurais multiplicam-se e contrastam com o edifício da escola nova. Voltemos a Adoria, para, em plena povoação, tomarmos o estradão que nos leva até às minas de S. João. A estrada é íngreme e pouco confortável, mas o panorama que se vai desfrutando de um e outro lado compensa todo o sacrifício. Uma povoação atípica, S. João, onde as construções não obedecem a nenhum estilo especial. Fácil é deduzir e confirmar que a sua existência estará muito ligada às explorações mineiras que se fizeram nas redondezas durante dezenas de anos e se destinavam, essencialmente, a comerciar com os mineiros. Chegamos finalmente ao local que a administração das minas de S. João escolheu para construir alojamentos. Um grupo de casas, geminadas em simetria, erguese um pouco mais acima. Entra-se para uma sala, onde ainda se reconhece bem o local da lareira, e as restantes poucas divisões não atingem grandes dimensões. No entanto, uma fileira de casas em madeira, mais à face da estrada e num estado deplorável de degradação, espanta-nos pelas divisões minúsculas, por se destinarem, provavelmente, a dormitórios. O local é um miradouro natural fantástico e todo o ambiente de declínio e abandono é acentuado pelos sinais de incêndio e queimada que se têm vindo a suceder, chamuscando a vegetação rara e rasteira. Os locais de exploração, que era realizada a céu aberto, oferecem outro tipo de espectáculo em que a sensação de queimado prevalece. Diga-se, contudo, que todo este conjunto é digno de admiração, como único, pelo seu carácter, que se deverá saber aproveitar devidamente e mesmo rentabilizar. Desafiamos quem quer que seja que, no caminho de regresso, não pare uma e mais vezes a admirar Cerva em frente, ou as pequenas povoações de Escoureda e Quintela. Lá de cima, a Capela de Nossa Senhora da Piedade, de Quintela, e a de Santa Apolónia, de Escoureda, parecem construções para enfeitar presépio D de Natal ou cascata de S. João. O vale é um manto de verde a que algumas vacas dão cor e feitio. Em qualquer altura do ano, uma infinita paz nos rodeia e nos afasta de toda a perturbação. Não admira, pois, que tantos procurem repetidamente estes locais para uns momentos de repouso e convívio, em especial no Verão. Resta-nos ainda um rosário de povoações para visitar: Agunchos, Formoselos, Asnela, para um lado, e Cabriz e Mourão, para o outro. Usemos de uma certa lógica e é natural que comecemos por Asnela. A povoação propriamente dita, isto é, o conjunto das habitações, está implantada na encosta, enquanto a parte mais plana e irrigada é aproveitada para a agricultura. A capela recebe-nos logo à entrada, dedicada a Nossa Senhora da Ajuda. Logo aí, nesse centro, encontramos edifícios de bom recorte, como a Casa da Eira ou a da Costa, a do Jorge, a do Ribeiro. Aqui já se nota mais claramente um interesse pela fonte de renda representada pelo turismo rural, em habitação de qualidade. O mesmo, aliás, também se vem notando nas povoações de Agunchos e Formoselos, onde ainda hoje se podem admirar extensas e belas propriedades agrícolas, com o seu núcleo principal em construções de traça sóbria e elegante, como a Casa do Cerrado, a Casa da Fonte, a Casa de Avelino Valadares, apenas algumas entre muitas. Como o rio passa lá ao fundo, podemos ainda apreciar em Agunchos algumas azenhas que funcionavam como lagares de azeite, o que é uma característica desta região. Em Formoselos, podemos apreciar um belo cruzeiro encostado a uma casa que ostenta, gravada na pedra, a data de 1794, mesmo em frente da Casa de Eiró, uma grande propriedade que contém, integrada na parede da parte mais dedica da à recolha de alfaias e produtos agrícolas, umas curiosas alminhas representando Nossa Senhora do Carmo. A tradição diz-nos que estas alminhas foram mandadas construir por José Joaquim Pacheco, em 1884. No caminho de regresso, aproveitemos para saborear melhor todas estas belezas, em que predominam as que a natureza produziu, enquanto nos vamos confortando com a ideia de que não só estas construções e belezas se têm aproveitado, como ainda se nota um gosto cada vez maior pela sua conservação. Vamos, pois, visitar Cabriz e Mourão. Nesta última povoação, começamos por apreciar, aqui sobre a encosta, uma singela capela dedicada a Santa Quitéria, com o seu adro fechado e com bancos de pedra para os crentes descansarem enquanto esperam que se lhes abram as portas. Mais abaixo, os restos do seu castro, conhecido por Alto dos Mouros. No ponto mais central, ainda mais duas casas rurais de certa importância, que é mister conservar. Cabriz é um autêntico ninho de boas casas, todas elas mandadas fazer com dinheiro enviado do Brasil. Umas alminhas plantadas na esquina daquilo a que chamaremos um largo minúsculo, e logo, na curva do caminho, a Casa do Capitão, a Casa do Martins, etc. Note-se que é rara a povoação onde se não encontra uma "Casa do Capitão", o que tem a ver com a existência da figura do capitão-mor. Neste caso concreto, em Cabriz, diz-se de esta casa ter pertencido ao famoso Capitão de Vidoedo, o tal que imaginou aquela artimanha para assustar os invasores franceses. Um irmão do actual proprietário da Casa do Martins informa que esta não foi construída com dinheiro do Brasil, como é voz corrente; tendo estado sempre na posse da mesma família, teria sido fruto de bens próprios, herdados ou granjeados pelos seus construtores. Aí se admira uma bela entrada, enfeitada com uma estátua, representando Santo António, embora alguns elementos decorativos tenham sido roubados. Um pouco mais adiante encontramos uma cuidada capela, cujo orago é Santo António, onde não poderemos deixar de apreciar um altar do século passado que é uma pequena maravilha. À sombra amiga de umas árvores, vamos seguidamente poder admirar o cruzeiro de Cabriz, com a sua inscrição. Temos, pois, que o território que constitui a freguesia de Cerva apresenta variadíssimos cambiantes espalhados por uma extensa superfície, o que exige do visitante, seja de fora ou do concelho, a disponibilidade de tempo para poder observar tudo o que merece ser visto, e que tanto é. Quem puder dispor desse capital sem preço que é o tempo, encontrará, com os seus olhos e a sua inteligência, sempre motivos de interesse, desde o património arqueológico ao religioso e, dentro das construções para habitação, tanto solares como robustas casas rurais, além das pontes antigas às escolas de hoje, dos rios cantantes às serras negras da mineração do estanho. Terra de solos férteis e gentes doces, venha-se ao menos vê-la nas suas feiras mensais ou apreciar as suas romarias de Agosto. Da visita ficarão admiradores fiéis. Freguesia de Salvador Tem 3814ha, cerca de 2560 habitantes e integra as seguintes povoações: Bacelar, Balteiro, Bustelo, Caminho, Cavalinho Brunhedo, Daivões, Escarei, Friume, Portela de Santa Eulália, Póvoa, Reboriça, Ribeira de Pena, Ruival, Santa Eulália, Senra de Baixo, Trofa, Vilarinho. Desde que a terra de Ribeira de Pena foi considerada um núcleo municipal que a sua sede tem estado localizada no território que compõe a freguesia de Salvador. No entanto, tem havido deslocação dessa sede, que, numa primeira fase, esteve localizada num lugar que até hoje mantém o sugestivo nome de Concelho e depois foi transferida para o Largo do Pelourinho (Venda Nova), onde se erguia o pelourinho de Pena, símbolo da sua autonomia em termos de administração de justiça. Este teria sido o ponto central de um vasto largo, ainda hoje existente, onde se levantam também o edifício em que funcionavam os Paços do Concelho e a Cadeia Municipal e a imponente casa senhorial da Temporã, com sua capela vinculada, que todos recordamos ter pertencido ao dote que Nuno Álvares Pereira deu a sua filha aquando do casamento desta com o filho legitimado de D. João I, isto é, D. Afonso, o primeiro Duque de Bragança. Hoje, contudo, o fulcro central da freguesia e, por acrescento, do concelho, é o aglomerado à volta da igreja matriz, dedicada ao orago da freguesia, o Divino Salvador, e cuja construção veio atrair a fixação das populações, movimento este que a construção do edifício dos Paços do Concelho, na década de trinta deste século, veio confirmar e acelerar. De facto, a sede do concelho morou no Largo do Pelourinho, na Venda Nova, até 1932. Esta freguesia de Salvador é muito vasta e estende-se tanto pelos montes que se apresentam de um dos lados da estrada 312 como na concha em declive que enfeita o outro lado e em que domina o Tâmega e a ribeira de Antrime. Para a percorrer na sua totalidade é preciso tempo, pois é um espaço em que os pontos de interesse são múltiplos e se integram em vários campos, que vão do rico estudo genealógico que se pode fazer até à bibliografia de Camilo, do património natural ao artístico, nas suas versões de popular, arqueológico, rural, etc.. Vindos de fora, tanto podemos entrar pela estrada que nos traz de Vila Real via Vila Pouca de Aguiar, atravessando a serra de Alvão e entrando por Bustelo e pela Portela de Santa Eulália, como vir pela estrada que nos conduz de Arco de Baúlhe a Vila Pouca de Aguiar. Como é forçoso começar por algum lado, o melhor é entrar pela ponte de Cavez e depois sair pelo Alvão. Ora, depois de passar na ponte sobre o Tâmega, em Cavez, entra-se, em determinada altura, no Concelho de Ribeira de Pena, o que está devidamente sinalizado, e uma das primeiras povoações que surge é Daivões, que também já foi grafado Gaibões. A estrada atravessa a aldeia mas o seu núcleo principal está instalado no lado esquerdo, para onde se inclina a margem do rio. Mesmo à beira da estrada, uma capela nos chama a atenção, na sua pedra de granito de cara lavada. É a capela da Senhora da Ajuda, pertencente à Casa do Silvado, uma casa de bom tamanho e ar vetusto, pelo menos no seu núcleo mais antigo, mesmo nas traseiras da capela. Contornando esta, aliás, encontramos outras casas interessantes, tanto pela dimensão como pela cor que a idade lhes deu, de onde sobressai a Casa da Casinha, com uma torre, embora com alguns acrescentos. Voltando à estrada, e se quisermos ir visitar a magnífica propriedade que é a Casa d'Além, temos que nos aproximar de uma outra capela, a da Senhora das Dores, e que é um exemplo acabado da moderna arquitectura, pois apenas a cruz nos lembra que aquele é um lugar sagrado. Desçamos, pois, lentamente, até à Casa d'Além. O rio ouve-se lá em baixo, e a encosta é suficientemente abrupta para ter dimensão e espectáculo. Merece uns minutos de silêncio para ouvir a natureza. À direita, uma velhíssima pedra com inscrições já praticamente ilegíveis falanos de outros homens e outros tempos. Mais abaixo, aparece-nos a capela da propriedade, erigida pelos proprietários em honra de Nossa Senhora do Carmo, em 1912, e o seu aspecto é de nobre singeleza e sobriedade. Perto, edifícios destinados a recolhas agrícolas, onde não falta um velho espigueiro belamente trabalhado, amplas divisões nos pisos inferiores, indivisos, e, logo abaixo, a casa da família, interessante construção rodeada por jardim. Esta propriedade teria sido iniciada por um senhor Padre Augusto, de que os actuais proprietários são sobrinhos, directos ou por casamento. Voltemos à estrada nacional 312 e, um pouco acima, à direita, é altura de cortar para Escarei. Povoação antiquíssima, teve carta de aforamento em 1255, aos 25 dias do mês de Agosto, dada pelo Rei Afonso III, quando este passava algum tempo no Mosteiro de Cete. A subida é acompanhada de mata de pinheiros, eucaliptos outras árvores e o arruamento principal, velho de séculos, debruado de casas muito antigas, mas não obrigatoriamente degradadas. A sua capela, dedicada a Santo Antão, tem história que baste: bem cuidada na sua pequenez, apresenta, num altar à direita, uma bela e singular estátua de Cristo Crucificado que a tradição diz ter aparecido nuns campos, no meio de silvas. Queimaram-se as silvas mas a imagem não ardeu e logo o povo a considerou milagrosa e a baptizou com o nome de S. Romão, querendo com esta designação dizer que era do tempo dos Romanos. E embora os párocos continuem a dizer que é um Cristo, não falta quem ainda lhe chame S. Romão. Outra sua particularidade, é que, em certas circunstâncias, esta imagem chora. Singularidades que se encontram quando menos se espera e sem delas fazer grande propaganda. Outro motivo de interesse dentro da capela é o seu púlpito para o qual se ascende por escada exterior e que só é utilizado em ocasiões muito especiais mas que já deve ter sido, como é natural, mais usado. Sobre uma pequena credência, ao fundo, um bela toalha de linho e renda apresenta Nossa Senhora de Fátima em cuidadoso pormenor. Voltamos ao caminho que nos trouxe e mesmo em frente da Casa de Riba (ou de Cima) apresenta-se-nos uma construção sólida onde sobressai uma inscrição que a filha do actual proprietário diz pertencer à habitação antiga sobre a qual os seus antepassados mandaram construir a presente e que refere o nome do proprietário - Domingos Ribeiro - e o nome do construtor - Mestre José Araújo. Neste cimo do monte ouve-se cantar a água, que corre liberal e generosa por junto às casas e dizem os seus habitantes, com um respeitoso orgulho, respeitoso porque a água é um dom dos céus, que 'quando é tempo de seca todos trememos, mas, graças a Deus, quando nós gritarmos com sede já os outros morreram sedentos'. Frase linda que tem um certo tom de oração. Voltamos a descer à estrada, a caminho de Reboriça, e numa curva do caminho, um recanto nos encanta: uma minúscula cascata, ao pé de um moinho em ruínas. Mas temos que seguir em frente porque Reboriça nos espera, com a sua parte mais antiga à esquerda da estrada, na encosta que é margem do Tâmega, e para chegarmos à sua capela de Santo António temos que passar pelo meio do velho casario, que aproveita o declive e onde, por isso, abundam as escadinhas. Em todo o território do concelho deve ser este o espaço em que se encontra maior número e variedade de escadas de acesso: a campos, a casas, a quintais, a espigueiros, etc. A capela tem um adro murado à frente e fechado por um portão, e à sua volta velhos muros cobertos de musgos e líquenes parecem forrados a um veludo de verde tenro e macio. No regresso à estrada, reparando melhor, as casas mais antigas, muito encostadas umas às outras, fazem lembrar velhinhas em passeio, que, abraçadas, se amparam e seguram mutuamente. Da Reboriça seguimos em frente, encontrando de quando em vez uma casa ou mesmo um núcleo de edifícios à beira da estrada quase todos novos, em que volta e meia sobressai uma construção mais antiga por uma ou outra particularidade que lhe dá carácter, e em breve, como que aninhada numa concha natural uma povoação belamente disposta nos elementos fornecido pelas montanhas, rios e vales, chama-nos com uma e mil vozes de que se realça a sua imponente igreja matriz. Infelizmente, o tempo, esse tirano que manda mais em nós do que o destino, poucas vezes dará oportunidade aos viajantes de cumprirem a sua vontade, saírem da estrada que têm vindo a percorrer, e descerem a desempenada avenida que actualmente faz a ligação a Salvador, partindo do Entroncamento. Mas todos os que aí vivem, trabalham ou que conhecem este território não podem deixar de recomendar a visita e com calma porque não faltam os mais variados motivos de interesse. A descer, o panorama é de sonho, fazendo-nos lembrar orgulhosamente cenas tão geralmente famosas e louvadas com as da Suíça, a própria serra é bela na sua face mais inóspita, a que o verde da floresta dá um toque de suavidade. A certa altura, porque vamos devagar para apreciar bem tudo o que nos rodeia, é uma bela casa que um pequeno relevo do terreno quase rouba à nossa vista a pedir-nos ainda menor velocidade. O seu brasão, de nobre recorte na pedra de granito, com a data de 1660, merece um olhar demorado, como toda a Casa de Bucheiro. Hoje já não está na posse da família que a fundou, de que o primeiro foi Fernão Leitão. O brasão que chamou a nossa atenção foi concedido a João Manuel de Sousa Aragão, que foi ajudante de ordenanças, em 20 de Julho de 1795. A sua capela vinculada, dedicada a S. Pedro, está a certa distância da casa e é hoje património da Câmara, a quem foi doada por um dos últimos proprietários, o Dr. Rui Machado. Mais abaixo, as ruas largas ladeadas por grandes edifícios que albergam casas dedicadas ao mais variado comércio e serviços. A urbanização não deixa Ribeira de Pena mal colocada se a compararmos com outros núcleos considerados de maior importância, mas à volta da igreja mantêm-se as construções mais antigas, cuja traça não desmerece de enquadrar o tempo do Divino Salvador. Em frente deste, O cruzeiro da Independência, e, ao lado, o edifício sóbrio e elegante dos Paços do Concelho, mas que alberga muitos outros serviços administrativos, e de que falaremos com mais pormenor noutro local. A igreja e os Paços funcionam como um centro de onde saem vários caminhos e é mister decidirmo-nos, depois de termos dado uma volta para apreciar a localização das delegações bancárias, de nos situarmos perante os Correios, a Casa do Povo, a G.N.R., as Finanças, os Serviços Florestais, o Centro de Saúde, a Delegação Escolar, os Bombeiros Voluntários, a Escola etc. Camilo fala alto nestas paragens e decidimo-nos por Friúme em primeiro lugar. A estrada é estreita e só com alguma dificuldade e boas manobras se conseguem cruzar dois carros, mas de um lado e de outro, o campo domina e enche-nos a alma de cores e beleza, seja qual for a estação do ano que escolhamos para a visita. Em breve chegamos a Ruival, terra da naturalidade daquele Manuel José de Carvalho que procurou a sua boa estrela no Brasil e, mais tarde, mandou erigir a igreja matriz. Passamos pela casa do Enxertado, cheia de ecos camilianos e em breve estamos em frente da capela da povoação, devotada à Senhora da Graça. No meio dos campos, em que avultam algumas oliveiras, surgem as casas, umas mais antigas e de certa imponência, mesmo na sua feição agrícola, outras mais modernas, mas quase todas implantadas no meio de culturas. Numa curva da estrada, uma ou outra construção prende o nosso olhar pelas suas linhas sóbrias e elegantes, quase inesperadamente, ou pela sua traça antiga. Assim, surge um edifício declaradamente rico, mas que algumas obras de manutenção não terão favorecido e, nas suas traseiras, quase de sopetão, uma bela capela anexa à Casa. As aberturas baixas estão sem vidros e deixam entrar os malefícios das intempéries e do simples passar dos dias, mas a capela continua linda. É a casa de Fontes, e, de facto, se dermos uma volta à capela e deitarmos uma vista de olhos à paisagem perfeitamente agrícola que se nos depara, começaremos por ouvir rumorejar água e em breve nos aperceberemos de que se trata de mais do que uma fonte que canta. Entre Ruival e Friúme, que vem a ser o nosso destino, começamos a ver o Tâmega mais claramente, com os campos delimitados, onde se vêem a pastar vacas e ovelhas. À entrada de Friúme, a capela de S. Gonçalo e, à volta, casas antigas de boa dimensão se bem que sem brasão. Se formos desconhecidos e pararmos, logo alguém nos perguntará se andamos à procura da casa de Camilo. Quando a resposta é afirmativa (e quem fugirá jamais àquele apelo irrecusável que é ir ver o local real, concreto, em que esse homem mítico viveu, onde está o chão que ele pisou, a porta a que ele assomou certamente), não faltam cicerones orgulhosos e solícitos. Refira-se, contudo, que o orgulho quase familiar desta gente ao falar do 'seu' Camilo tem também uma réstia de amargura e dizem sempre: "Parece que agora sempre vão arranjar isto, fazer como era dantes, para ficar para o futuro". De facto, a modesta habitação em ruínas apresenta um aspecto confrangedor, como se a Necessidade, que se comportou sempre como parenta próxima do escritor, lhe tivesse sobrevivido e por ali habitasse. E todos nós desejamos sinceramente que sim, que não seja tarde demais, que se reconstrua e recheie a casa, mas que se não deixe como obrigação apenas desta terra conservar um património que é de todos os portugueses. Uma das vizinhas, a casa do Ferreira, apresenta um nicho de bom tamanho mas que está vazio. Em breve terá o seu santo, como sempre teve, com umas grades mandadas fazer em Braga... Outra casa, mais próxima da de Camilo, a Casa do Moreira, e nela pontifica uma espécie de torreão. Há, na povoação, outras casas cujo aspecto denota uma certa riqueza e que dizem pertencer ou ter pertencido à Casa do Moreira. Agora, é preciso deixar o meio de transporte (e quem precisa dele?) e caminhar lentamente pelo resto do estradão que nos leva até ao Tâmega e à ilha dos Amores ou Ínsua. Todos a sabem indicar e os mais velhos até com um certo olhar cúmplice, de quem muito sabe de ínsuas e ilhas dos amores. No regresso, enchem-se novamente os ouvidos daquele som cantante de água correndo, ou de pássaros trinando, ou de cigarras chiando, isto conforme a estação do ano e do nosso coração. Voltemos, pois, ao centro de Salvador. Aí, ainda nos interessa e é obrigatório visitar o Picanhol, com a sua Casa, rica de fidalguia, brasonada com as armas dos Pachecos, Freires de Andrade, Meireles e Gouveias. Mas ainda muito perto do centro, não podemos deixar de lado a Casa de Boumilo, mandada construir pelo capitão António d'Oliveira Pena que granjeou a sua fortuna no Brasil, tendo sido brasonado a 5 de Maio de 1762, com as armas dos Oliveiras e dos Queirós. E mais adiante, a Casa da Touça Boa, ressoando a nomes ilustres, que vão dos Teixeira da Cunha aos Teixeira Pena, de que foi varão egrégio, o Presidente do Brasil, Dr. Afonso Augusto Moreira Pena. Depois, é descer e tomar o caminho de Senra de Cima, de Senra de Baixo e admirar as suas belas casas brasonadas, que nos falam de fidalguias, de aventuras amorosas, de fortunas granjeadas no Brasil. E o caso da Casa de Senra. Este solar foi mandado construir no princípio do século XVII por um outro clérigo que também tinha demandado terras brasileiras, Miguel Joaquim de Carvalho e Almeida, e que foi capelão do rei D. João V. Pela primeira vez que esteve no Brasil aí permaneceu 34 anos, entre 1665 e 1699, tendo mandado construir aquela magnífica mansão com a sua capela anexa dedicada a Nossa Senhora da Assunção. A frente e a fachada da direita do edifício são adornadas com uma magnífica varanda de pedra, dominando a frontaria e o brasão de um irmão do fundador da casa, do seu nome Domingos Carvalho e Almeida. A capela tem por sobre a entrada, uma imagem de Nossa Senhora, de que existe a réplica no seu altar. O tecto é de belos caixotões de pedra e, mesmo no meio do chão da entrada, existe um túmulo inserido à superfície, onde estão enterradas duas familiares antepassadas do proprietário. Ao lado, uma minúscula sacristia, com sua cómoda antiga e um nicho onde pontifica uma imagem de Nossa Senhora de Fátima muito antiga, mesmo tendo em conta que o seu aparecimento aos três pastorinhos apenas ocorreu em 1916. Por sobre a entrada da capela, e como era costume, há um meio piso que se destinava, no lado esquerdo, aos donos da casa e, no lado direito, aos serviçais, durante as cerimónias religiosas. O conjunto do edifício é valorizado por um bom pátio interior, para onde se debruça uma larga varanda coberta como um claustro e da qual se desce por uma escadaria de bom porte. No pátio quadrangular, um fontanário invulgar pontifica, residindo a sua invulgaridade em não apresentar nenhum fauno ou qualquer ser mais ou menos mitológico, mas sim um gato, a que não falta sequer uma certa estilização. Um pouco mais acima podemos ver a Casa das Pereiras com os seus dois brasões e, um pouco mais abaixo, a bela casa que pertenceu a Francisco Xavier de Penha, que foi administrador de Ribeira de Pena. É mister que se diga, contudo, que muitas outras construções há que, não sendo brasonadas, merecem um olhar especial pela sua dimensão e organização como casas rurais. Mesmo em frente à Casa de Senra está um desses bons exemplares, a Casa da Laje, que esteve na posse de Tiago José Alves, hoje a ser recuperada por uma descendente com um respeito cuidadoso pelas suas raízes. Sobre o portão de entrada desta casa, ergue-se um relógio de sol, mandado ali colocar por aquele proprietário que não se pode deixar de ver. Como ainda nos falta muito para visitar, talvez seja altura de descermos até Balteiro, onde nos sobram motivos de interesse em especial se for dia de feira. No dia 13 de cada mês, e particularmente no Verão, quando é tempo de todos os emigrantes virem a férias, o seu movimento é incessante. Nessa altura, pais, filhos e netos misturam-se numa algaraviada de línguas, em que, entre as gerações de extremos, a compreensão se faz mais na base do amor do que da tradução. O colorido impera e as mais desvairadas mercadorias apetecem naquele tempo quente de lazer. Subamos novamente a caminho de Salvador e lá vamos passar pela Venda Nova, onde temos a nossa já conhecida Casa da Temporã, com a sua capela e o edifício já referido, onde estiveram sediados os Paços do Concelho e a cadeia municipal, no largo do pelourinho, nesse largo onde a população ainda não esmoreceu de esperar voltar a ver erguer-se o pelourinho, agora apenas representado por velhas pedras amontoadas. Embora não haja notícia certa de quando o pelourinho foi destruído ou, muito simplesmente, se deixou vencer pela força do tempo, tem-se geralmente como certo que em 1888 ainda se erguia naquele local. Muitas tentativas têm vindo a ser feitas para ressuscitar este velho símbolo, a exemplo, aliás, do que já foi realizado noutros concelhos, para promover a sua reconstrução, mas, até hoje, tudo se mantém como desde esse dia triste em que um belo monumento se transformou num informe monte de pedras. Um dos ribeirapenenses que mais se interessaram pela reconstituição foi Francisco Canavarro de Valladares, da Casa de Santa Marinha, que, com a colaboração de Manuel António de Noronha, outro cidadão interessado, chegou mesmo a preparar um projecto completo, incluindo medidas, formas e disposição dos elementos decorativos. Está na hora de nos prepararmos para apreciar outro ponto da freguesia, pelo que é necessário continuar a subir até à sede e, aí, tomar o caminho da Capela de S. Pedro. Ao lado, a residência paroquial e, nas redondezas, alguns espigueiros antigos, muito interessantes. Se seguirmos em frente, em breve estaremos em Brunhedo, de onde, seguindo sempre pela estrada, poderemos atingir a Senhora da Guia. Nesta parte do território, convém fazer uma pausa, ainda que curta, pois estamos num daqueles lugares em perigo de extinção, em que todos os elementos, quer sejam os construídos pelo homem, quer as águas, o ar, os animais, grandes e pequenos, tudo se conjuga numa proporção e harmonia extraordinárias. Para terminarmos esta peregrinação à freguesia-sede de Ribeira de Pena, restanos ainda percorrer a parte alta, em que se situam Santa Eulália, Portela de Santa Eulália, Bustelo e duas outras povoações que, embora no meio de montes, se encontram abrigadas pelos mesmos, pois se dispõem em vales mais ou menos protegidos: estamos a falar de Vilarinho e da Póvoa. Retomemos a nossa visita a partir da nova e larga avenida que faz o acesso à estrada 206 e, ao cimo, depois de mais um olhar a magnifica vista, voltemos à esquerda. Começamos, pouco a pouco, a notar a mata frondosa e cuidada que corre ao nosso lado, preparada para ser usufruída: há as mesas para o piquenique informal torneiras de água, os recipientes para o lixo, as já conhecidas construções que permitem fazer alguns cozinhados com um mínimo perigo de incêndio. É o Parque de Lazer de Lamelas. Todo este aspecto acolhedor convida-nos a tomar o estradão e a seguir por ali acima. Respira-se um ar muito puro e o panorama impressiona pela sua força. Mas acontece que o nosso destino são aquelas vastas lajes que há milhares de anos outros homens enfeitaram com os seus desenhos. Todo o ambiente ali, em Lamelas, tem, ainda hoje, uma atmosfera de santuário, de catedral natural, que nos exige uma reflexão mais aprofundada pelo que falamos deste local mágico em capítulo próprio (Património Arqueológico). Em frente, uma elevação escarpada está 'paramentada' com monólitos de grandes dimensões e, a uns 200 metros de distância, à direita, por entre os pinheiros, podemos ainda observar grandes pedras com um certo alinhamento e que não deixam muitas dúvidas de terem pertencido a um antigo castro, ali erguido para aproveitar a protecção natural oferecida por um enorme penedo. Deste se sabe já não estar completo no momento, por ter sido utilizado para dele se retirar pedra que foi aplicada em construções várias. Chama-se a este lugar o Alto dos Mouros, o que se justifica por, cómoda e simplesmente, o povo localizar tudo o que se passou num tempo mais ou menos longínquo, como se tivesse ocorrido no tempo dos Mouros (ou dos Romanos). É, ao fim e ao cabo, uma ingénua mas não menos valiosa prova de admiração pelas civilizações que estes povos souberam construir. Seguindo pelo estradão que nos trouxe até aqui, vamos serpenteando por entre lódãos e variedades de pinheiros mais apetrechadas para estas altitudes. Quando menos o esperamos, e estamos numa clareira, seremos surpreendidos, se não conhecermos o local, por um conjunto de construções em que sobressai o edifício que funciona como quartel dos Bombeiros Florestais. Em frente, uma casa do tipo geralmente destinado aos guardas-florestais faz-nos pensar em como seria agradável tomar aí um refresco no Verão e acolhedor sentarmonos à lareira no tempo mais agreste, com uma chávena de uma reconfortante bebida quente. E em qualquer estação usufruir simplesmente daquela calma limpa que ali se respira. Muitos sentem ou sentiram o mesmo, certamente, ao visitar ou apenas passar por este lugar. Todo o espaço é demasiado prometedor para não ser aproveitado em termos de lazer, incluindo turismo, e pode abarcar desde um parque de campismo (o que já foi considerado como hipótese) até locais para a prática de desportos, que poderiam incluir o golfe e o hipismo. Não poderá, contudo, deixar de ser uma ocupação controlada e comedida, para que se possa manter por muito tempo, com benefício de todos. Mais à frente, chegamos a um entroncamento e temos que nos decidir a tomar a esquerda ou a direita. Vamos pela direita, percorrendo o mesmo estradão, que, agora, vai aproveitando a curva de nível da encosta. De um lado, que faz o declive para o vale, continuam as árvores, enquanto do outro, que nos leva ao cume da montanha, se nos apresenta volta e meia, num cimo mais calvo ou num planalto nu de vegetação, uma ou outra construção megalítica que nos parece ter sido erigida por gigantes brincalhões. Estamos a caminho de Vilarinho, uma pequeníssima povoação que parece defendida pela encosta coberta de rochas aflorantes, das quais nem a própria estrada se livra. Lá em baixo, um vale verdejante e as casas que podem ser contadas pelos dedos, tudo mal pulsando no silêncio apenas perturbado pelo ladrar de um cão ou pelo vento que leva pedras e arvores Da povoação sai outro caminho que talvez possamos considerar mais fácil e que nos levará até Santa Eulália, mas nenhuma paisagem se nos mostra plenamente enquanto não a virmos pela esquerda e pela direita e em todas as estações. Por isso, regressemos pelo mesmo caminho e confirmemos que tudo tem duas vistas, pelo menos. Chegando a Santa Eulália, passa-se primeiro por um bairro novo de construções modernas, mas, à medida que nos aproximamos da capela, começamos a ser envolvidos por boas construções rurais ladeando uma calçada que também nada deve à mocidade. A levada de Santa Eulália corre ordenadamente, de acordo com o que cabe a cada um, aparecendo e desaparecendo por entre as casas. Os sinais da actividade agrícola surgem-nos, agora, de todos os lados e mesmo em plena povoação se ouve a água. Lá em baixo, poderemos ver deslizar o rio, no meio de um mundo verde e uma povoação. É a Póvoa, que construiu as suas habitações encosta abaixo, quase até à borda da água, enquanto reservou os solos do vale irrigado para agricultar e criar gado. Na parte mais baixa, duas casas grandes se destacam: a da Costa e a dos Carvalhos. Mais abaixo, uma vacaria dá sinais de dimensão e modernidade de equipamento, visíveis mesmo do exterior. No alto da pequena colina domina a Capela de Santa Luzia, com o seu adro murado e empedrado, como se de uma casa particular se tratasse. No dia 13 de Dezembro, contudo, o adro é pequeno para a festa, quando, singelamente, se comemora a sua padroeira, protectora dos olhos. Retomemos a estrada que nos vai levar à Portela de Santa Eulália, um entroncamento afinal que dá saída para Cerva e Mondim de Basto de um lado e para Salvador e Arco de Baúlhe do outro, e num terceiro braço, para Vila Pouca de Aguiar, Vila Real e Chaves. Quase completamente nova na sua construção, de momento predominam as actividades comerciais voltadas para a restauração, isto é, cafés e mesmo uma das poucas residenciais do Concelho, um pouco mais abaixo. Neste centro podemos ainda apreciar com calma e pormenor a levada com o seu sistema de consortes e no cimo da colina, uma capela minúscula, devotada a N.ª S.ª da Conceição, domina e protege a paisagem. O nosso destino é, agora, Bustelo. Poucos minutos andados, surge, na curva do caminho, uma placa que orienta o visitante. A estrada é a subir e os campos que a rodeiam, murados em pequenas áreas, desenham uma paisagem característica. A povoação em si aparece mais à frente, escura na idade das suas paredes de granito, das casas encostadas umas às outras, sustendo-se mutuamente. Mas levamos os olhos alegres por umas simples alminhas dedicadas a N.ª S.ª do Carmo e o sorriso das gentes é sereno. A capela, no entanto, tem por padroeiro Santo Amaro, que aqui é festejado a 15 de Janeiro e ergue-se um tanto afastada do centro do povo, o que não é costume. A razão para tal é que esta foi construída em 1963, pois a primitiva, que era, de facto, no centro da povoação, estava muitíssimo velha e acanhada. No entanto, as pedras aproveitáveis vieram todas, assim como a cornija e as componentes da torre sineira, tendo tudo sido incorporado neste edifício. Isto por fora, porque, no interior, também podemos ver o altar-mor que já o era na capela antiga e uma pintura em madeira, um retábulo, de bom tamanho e ingénua composição. Tanto o suporte como a pintura começam a dar sinais visíveis da idade, mas, entre os residentes, há uma certa placidez mesclada com desconfiança perante o problema, pois nem acreditam que haja grande solução para ele nem tal lhes merece grande confiança, escaldadas como estão as paróquias da província com imagens e pinturas que foram para restauro e não voltaram. Assim, filosoficamente, vão adiando o caso, desculpando-se com os custos, que certamente seriam altos e com a incerteza do resultado. Interessa, afinal, é continuar a usufruir do seu pequeno tesouro, que vale pela singeleza do conjunto. A população já não tem tantos carvoeiros como Camilo pintou em "O Santo da Montanha", mas a descrição do viver destas gentes no século passado ainda se pode adivinhar hoje, pelo que não estranhamos que também aqui não faltem emigrantes na Alemanha, em França e no Luxemburgo. Os que ficaram dedicam-se a criar gado bovino, tanto maronês como turino, aproveitando os incentivos financeiros para descansarem do cultivo da terra dura, de que agora quase só tiram a batata e o centeio para gastos domésticos. A floresta é outra fonte de rendimento que têm sabido utilizar e defender, sempre prontos a responder ao rebate dos sinos que se fazem ouvir ao mais ténue sinal de fumo. A escola primária é um edifício novo, também ele afastado do centro, mas os seus utentes são em número muito reduzido, pelo que nos não admiraremos se, mais ano menos ano, a virmos a desempenhar outra função na comunidade. Depois de mais uma volta a pé por estas ruelas tão estreitas entre as casas aconchegadas, saímos de Bustelo e tomamos novamente a estrada 206, que agora nos leva para fora do concelho, visto que, em breve, estaremos em Vila Pouca. É a outra parte do Alvão que vai agora dominar a paisagem Panorâmica da Vila com nuvens Casa de Camilo Castelo Branco Igreja Matriz do Salvador Freguesia de Santa Marinha Tem 3171 ha, 668 habitantes, dista da sede de concelho 2 Km e é constituída pelas povoações de Abelheira, Amarelos, Boavista, Choupica, Fragalhinha, Fonte do Mouro, Granja Nova, Lomba, Melhe, Paço, Santa Marinha,Simães, Venda Nova, Viela. A freguesia de Santa Marinha esteve desde sempre integrada no Concelho de Ribeira de Pena, e já aparece referenciada como tal nas Inquirições de 1220. Tendo como padroeira Santa Marinha, era reitoria e comenda da Ordem de Cristo. A ser assim, como vários documentos o provam e ainda há sinais, convém lembrar que esta Ordem foi criada pelo Papa João XXI, que mais não foi do que o nosso compatriota que dava pelo nome de Pedro Hispano. Nessa altura criara-a com a designação de Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a sua primeira sede foi em Castro Marim, embora todos nós a relacionemos com Tomar. De facto, só mais tarde foi transferida para esta segunda localidade, onde deixou ligado a si o conhecido Convento de Tomar, com a sua ainda mais famosa janela manuelina. Um dos testemunhos para relacionar Santa Marinha com a Ordem de Cristo é o facto de podermos encontrar ali, bem perto da igreja matriz da freguesia, a Quinta das Terças, tendo-lhe vindo a designação precisamente de, certamente, ser ali que os moradores pagavam os seus foros ou rendas à Ordem, como seu senhorio. Dentro da igreja, mais propriamente na sua parede sul, está inserida uma inscrição votiva a Júpiter e que vem do tempo da romanização. Essa inscrição foi encontrada por acaso aquando de obras de restauro da igreja; sabe-se, contudo, que já lá se encontrava anteriormente, e está classificada como imóvel de interesse público. Outro elemento a considerar é a capela anexa, dedicada a S. Francisco Xavier e que está vinculada à Casa de Santa Marinha. A capela orgulha-se de um belo altar de talha dourada, podendo ainda admirar-se um túmulo em pedra com o brasão dos Pachecos de Andrade e a inscrição 'OCAPP.MOR E. PACHECO ANDR. AQUIJZ', que se refere ao capitão-mor Baltazar Pacheco de Andrade, da Casa de Santa Marinha, que está também ligado à construção da capela da Granja Velha por ter sido nomeado, por procuração do Dr. Lourenço Valladares Vieira, seu administrador. Situada junto ao Tâmega, uma parte para cá e outra para lá do rio Santa Marinha é um território misto com uma parte montanhosa mais árida, da qual fazem parte as terras espalhadas pelos montes do Ouro e pelos declives da serra do Larouco (logo, já fazendo parte das terras de Barroso) enquanto uma outra parte é mais amena e fértil, em especial a que se localiza nas margens do rio. É esta a parte que se dedica à agricultura, ainda hoje a principal actividade económica. Esta sempre foi, aliás, a principal fonte de rendimento da população, visto que nesta zona existiam grandes propriedades senhoriais onde os habitantes trabalhavam a terra, esta terra que fornecia (uma outra fonte de rendimento representada pela floresta que ocupava e ocupa um espaço de relevo na utilização do solo. O subsolo merece também uma menção especial, pois durante muitos anos foi explorado para dele se extrair o estanho, em particular no princípio do século. As principais minas a referir são as de Padroselos, de que era concessionária a Societé Minière et Industrielle du Tâmega, que criou largas expectativas de desenvolvimento para a região, atendendo aos elevados investimento que nelas foram feitos, mas que, infelizmente, não passaram disso mesmo: expectativas. Delas resta uma povoação abandonada onde certamente jazem enterradas as esperanças de muitos. Não com uma história tão conhecida mas com um determinado valor são ainda de referir as minas de Corissa, Sobradelo e da Fonte da Telha. A tradição traz-nos até hoje a nostalgia da exploração do ouro no rio do Ouro, e que teria tido lugar há séculos. Desse tempo, se existiu, e dessa nostalgia, ficaram os topónimos Ouro, Aldeadouro, Amarelos, etc. Ouro, hoje, apenas no coração da sua gente, sempre disponível e bem disposta para receber os seus visitantes. Para visitar a freguesia podemos partir da sede do Concelho e tomar a sempre presente e necessária 312 para, um pouco abaixo da Venda Nova, virarmos à direita e subirmos por ali acima. Dentro em breve estamos no meio da sede da freguesia, onde avulta a igreja de Santa Marinha e o solar do mesmo nome. Este solar ou Casa de Santa Marinha é um belo edifício que viu a sua construção iniciada no século XVI, tendo servido de residência à família de onde saiu o 1º Barão de Ribeira de Pena, fidalgo pelo nome e pela alma, que à sua terra devotou sempre um amor entranhado e actuante. À sua acção se deve a manutenção do Concelho, que esteve para ser extinto, como já várias vezes se proporcionou referir e o seu alargamento, com a inclusão dos territórios de Canedo e Cerva. Ainda que a construção desta casa tenha tido início no século de Quinhentos, ela tem sido alvo de obras de manutenção e até de algumas alterações, o que seria aconselhável continuar a acontecer porque é importante que ela permaneça como símbolo de uma fidalguia fixada na terra e a ela dedicada. Com verdade se diz que não se pode fazer a história de Ribeira de Pena sem a documentação que a Casa de Santa Marinha compilou, tratou, seleccionou, buscou e guarda na sua rica biblioteca. Muito do que se tem dito, senão tudo o que se tem dito, foi aí bebido e a Família, em cuja posse ainda se encontra, embora indivisa por falta de herdeiros directos dos últimos barões de Pena, quer continuar essa obra amorável, estando em projecto a instalação da Biblioteca Municipal no próprio solar, de modo a tratar, catalogar e utilizar o valioso e volumoso espólio. Quase em frente da igreja, e em contraste com algumas novas construções, está a Quinta das Terças, identificada por uma tabuleta que não podia ser mais moderna. Ironias do tempo... Continuemos a subir e após alguns povoados com toda a marca da actualidade, e que nos fazem lembrar a larga faixa da população que tem emigrado e que tem procurado novos espaços para construir as suas habitações, na hora do regresso, chegamos a um largo em que nos aparece uma bela capela. É a Senhora da Guia, onde mora a Padroeira do Concelho, aquela que é tão rijamente celebrada a 14 e 15 de Agosto, a que Camilo tinha diante dos olhos da mente quando escreveu o sexto de "Doze casamentos felizes". O adro é largo e em Agosto os plátanos dão uma sombra convidativa, enquanto no Outono nos encantam com as suas cores especiais e na Primavera nos enternecem o coração com o seu verde tenro. E se no Verão a sede apertar, temos um interessante e generoso fontenário, o de Santo António, para nos dessedentar. O adro é largo, repetimos, e está ali à nossa espera todo o ano, com o seu coreto e um miradouro que nos dá outro espectáculo fantástico em que a serra e o rio são protagonistas máximos. Com o olhar preso a essa vasta paisagem quase não damos por umas alminhas que parecem ter sido integradas na rocha e que ali estão ao pé de uma fonte. A estrada convida-nos a subir, esta estrada que foi muito desejada. Seguimos em frente e em breve estamos em plena serra. Estamos tão em cima que vemos nuvens abaixo de nós, como se estivéssemos a sobrevoar de avião. É um cenário inolvidável, simultaneamente único e múltiplo, que apetece fixar numa tela ou na película de um filme, mas que é essencial viver pelo menos uma vez. Estamos a aproximar-nos da Choupica, em breve passamos pela Casa da Choupica, pela Capela de S. Domingos com, o seu altar de talha e depois estamos na povoação parada. Parada porque despovoada, pois tendo estado tantos séculos afastada de tudo e de todos pela falta de estradas, os seus habitantes não se deixaram abater e procuraram outras terras onde pudessem granjear um pão melhorado para o corpo e para o espírito. Hoje, os seus habitantes são pouquissímos e de muita idade, muita sabedoria, muita história. As casas são vetustas como eles e algumas autênticos exemplares de antigas casas rurais. A escola ainda nova fala-nos de crianças mas que vêm de lugares mais próximos, na sua maioria. Mais adiante, vê-se novamente a povoação da Fonte do Mouro, onde está a Capela da Senhora da Guia. A serra chama por nós mas há outros espaços a percorrer, onde a natureza e os homens deixaram marca e há que voltar à sede da freguesia para podermos procurar a Granja Velha e apreciar a sua bela Capela votada à Senhora da Conceição e mandada construir por Lourenço Valadares Vieira, que emigrou para o Brasil, depois de se licenciar em Coimbra, e onde já se encontrava um irmão seu, o Padre Manuel Valadares Vieira. A capela é de belas proporções e tem uma escada exterior, na parede da esquerda, tomando a entrada como ponto de referência. Lá dentro, um magnífico altar de talha dourada e algumas pinturas são elementos que não podem deixar de nos atrair, assim como uma belíssima credência e três túmulos antigos. Além disso, lembremos que a esta capela está ligado o nome daquele nosso conhecido padre Manuel da Lixa, o que foi professor de Camilo. Ali perto, dando uma curta volta, temos a Granja Nova que também tem uma pequena capela dedicada a S. Tiago e as ruelas estreitinhas são bordadas de casas, de plátanos e de videiras altas que todo o ano nos oferecem uma visão diferente mas sempre bela: nua e torcida no Inverno, pontilhada de folhas novas na Primavera, com brincos de cachos que se vão colorindo mês a mês Verão fora até ao Outono, em que os tons dourados e escarlates criam jogos de cor da maior fantasia. Do lado de lá do rio ainda temos as povoações de Viela e do Melhe. Esta última povoação, como se refere em local próprio, tirado o seu topónimo de 'mel', produto natural fabricado pelas abelhas em grande quantidade na terra e de não menor qualidade. Povoação minúscula, a sua capela está dedicada a nossa Senhora do Carmo. Tão afastada está da sede que quase se não acredita que pertença a Santa Marinha, e o mesmo se aplica à aldeia fantasma de Padroselos, mas tal assim é. Bem mais perto está a povoação de Viela, com os seus antigos pergaminhos que lhe vêm de ter tido foral próprio que lhe foi dado por D. Afonso III em 1255, estando o Rei no belo mosteiro de Cete, hoje pertencente ao Concelho de Paredes, a 25 de Agosto. Dava o rei por essa carta de aforamento aos habitante de Viela a herdade 'que aí possuo na mesma vila e o seu termo' como ela parte pelo fundo de Balteiro e segue pelo curso de água e depois parte com a Granja Velha e daqui vai até à portela de aulo e passa no cimo de Esbarrondinho e depois pelo mesmo curso de água que parte em Paço e torna pelo Tâmega seguindo pelo curso de água até onde primeiro começámos. A carta de aforamento segue dando conta dos deveres e direitos dos ditos moradores e por aqui se pode ver como, tal como acontece com os homens (que as fazem) as povoações nascem, crescem, enriquecem e alargam umas, definham e quase desaparecem outras, até que um dia, inexoravelmente, todas morrem. Hoje pouco mais resta do que a lenda da Pedra Cavalar, a capela de S. Gonçalo, velhas casas rurais que ainda denotam a sua importância passada, mas a natureza, em que o rio pontifica, essa, é perene e generosa nas suas dádivas de beleza para os nossos olhos. Santa Marinha, esta antiquíssima freguesia que se perde na bruma dos tempos, vai transformar o seu destino difícil e carenciado, como o espaço em que nasceu, e caminhar uma senda de progresso comedido porque humanizado, de modo a usar com proveito. Porque o querem os seus habitantes e os seus dirigentes. E porque o merecem todos. Aldeia de Melhe Nuvens na Serra Solar de Sta. Marinha Freguesia de Santo Aleixo de Além Tâmega Tem 1230 ha, 447 habitantes, dista da sede de concelho 4 km e é constituída pelas povoações de Bragadas, Manscos e Santo Aleixo de Além-Tâmega Ponte Pensil em arame Represa em Manscos Aspectos da Casa de Barroso ligados à "História de uma Porta" de Camilo Castelo Branco O seu nome não poderia ser mais lógico nem explícito - Santo Aleixo advém do nome de Santo Orago e o Rio Tâmega, para além do qual se situa quando nos movimentamos no Concelho a partir da sua sede, indica a localização. O rio, que a separa de Salvador, proporciona uma situação geográfica digna de menção no que diz respeito à beleza paisagística e o seu vale definiu, através dos tempos, terras ricas de aluvião que o homem tem sabido aproveitar. Neste caso concreto, o Tâmega pouco mais tem dado do que a beleza e as terras de aluvião, pois que, ao cortar o concelho, quase obriga a definir outra área administrativa, empurrando Santo Aleixo para os lados de Barroso, de onde resulta que, ao longo da história das populações se tenham estabelecido relações muito mais fáceis e privilegiadas com as terras de Barroso e de Cabeceiras. Durante séculos as duas margens do rio só tiveram ligação usando a natureza e a força bruta do homem. Quer isso dizer que as freguesias de Salvador e de Santo Aleixo só comunicavam por meio das "poldras" e "presa" que permitiam a passagem a vau, pelas barcas impulsionadas à vara, à força de pulso, com que os barqueiros atravessavam as águas e, mais tarde, através do pontão de granito construído em frente a Viela e que liga esta povoação a Balteiro permitindo não só a passagem de pessoas como de carros. O local escolhido para construir este pontão, estratégico do ponto de vista de facilitar a construção da obra, tem o inconveniente de se situar numa secção muito baixa do rio, o que traz como consequência que no Inverno fica muito frequentemente submerso pelas águas grossas da estação. Então, até à década de 60 do século XX, durante as estações mais chuvosas, as duas povoações e as suas gentes ficavam isoladas entre si, a menos que alguém menos timorato se atrevesse a enfrentar as águas recorrendo às citadas barcas. Sabe-se quantas vezes o engenho se sobrepõe à força e, segundo a tradição, terá sido o engenho que esteve na origem da edificação de uma outra construção que também serviu para ligar as terras e as gentes que se miravam de cada uma das margens. É o caso da ponte pênsil ou ponte de arame, neste momento desactivada por entretanto se ter construído, utilizando materiais e técnicas mais evolutivas, a actual ponte, inaugurada em 1963. A ponte pênsil foi obra do padre Albino Afonso e é outro melhoramento que Santo Aleixo lhe deve, de importância vital. De facto quando em Invernos mais rigorosos se tornava quase impossível o contacto entre as duas margens, Santo Aleixo ficava altamente prejudicado em termos de abastecimento e de assistência médica ou medicamentosa. E é um acontecimento daquela natureza que se costuma pôr na origem da ponte pênsil. Assim, conta a tradição que aquela bela ponte suspensa nasceu de uma ideia que um padre engenhoso, que teria sido o padre Álvaro Pimenta, teve num Inverno excepcionalmente rigoroso. Não existia então em Santo Aleixo nenhum local de abastecimento dos víveres que é costume adquirir em mercearias. O Natal estava à porta e não se via maneira de aparecer uma aberta no tempo de desanuviasse e fizesse baixar as águas tumultuosas, que originavam perigosa correnteza. Não se vislumbrava como seria possível festejar o nascimento do Menino sem uma deslocação à Ribeira ou a Venda Nova para adquirir nos estabelecimentos comerciais aí existentes aqueles mimos que marcavam de uma forma concreta a esperança que o homem tem de que Jesus nasceu para o nosso bem. E quantas vezes apenas essa esperança nos alumia o caminho da vida... Mas voltemos àquele Natal. Terra como as outra situadas nesta zona de Portugal, a serra, o rio, o Inverno, o afastamento, a forma de vida, tudo se conjugava para essa época do ano justificar uma pausa consubstanciada nos mimos da Consoada os doces da época, as pequenas lembranças para os filhos e representadas por coisas úteis como socas, o primeiro chapéu, as primeiras calças compridas, e o bacalhau. Apesar de em todas as casas se poder recorrer, em caso de necessidade, à capoeira ou à arca salgadeira, no Natal era impensável, como se fosse um sacrilégio. Mas o tempo não esmorecia na sua braveza e os dias passavam. Conta-se então que o padre Álvaro Pimenta, que era de Santo Aleixo mas paroquiava o Salvador, tinha vindo, como de costume, consoar à casa natal. Mas naquele temporal via-se na iminência de fazer jejum e abstinência em época de alegria e de Glórias, e teve a ideia de fazer chegar o bacalhau que lhe fazia negaças do lado de lá do rio utilizando um cabo de arame e uma roldana. Mas há também quem diga que o impaciente padre tentou resolver o problema de abastecimento de bacalhau recorrendo ao sistema de envio por foguete, com a ajuda de um seu empregado ou conhecido que ainda estava do lado de lá da ponte. Mas o comparsa não teria tido competência para o efeito ou a força do foguete não teria sido a bastante para levar ao pastor de almas o desejado peixinho... Mas, como todos nós conhecemos a história do ovo de Colombo e de que como é fácil fazer as coisas quando se sabe como, daquela ideia natalina à ponte mediou apenas a vontade dos homens. É uma ponte muito bela, considerada por muitos como um dos mais belos exemplares do género e que, por isso, merecia ser cuidada, limpa e mantida. Foi construída em 1913 e ainda existe, 80 anos depois, quem se lembre da sensação de atravessa-la a cavalo, quando outra não existia. E esperamos que felizmente continuem a existir os espíritos jovens que têm amor por esta velhinha construção e que gostariam de ver preservada para além das vantagens mais próximas de uma albufeira da barragem, por exemplo, e que a poderiam submergir. Foi ali mesmo ao lado da ponte que Camilo localizou o episódio dramático em que Josefa da Laje foi vencida pelas fraquezas que lhe advinham da prolongada estadia na cama, do parto antecipado e não assistido, da tentativa de fuga com a filha recémnascida na cestinha de vime, a caminho da Quinta do Enxertado onde esperaria pelo seu amado e pai da filha, se o destino e os homens se não tivessem voltado contra eles. Esta longa referência ao Tâmega relativamente a Santo Aleixo não nos desobriga do dever de afirmar mais uma vez que Santo Aleixo pouco deve a este rio, que antes a tem separado da sede do Concelho. É outro rio que devemos ilustrar como benéfico para a freguesia e é o Beça, o tal em que nadavam "as maiores trutas dos córregos riquíssimos de Portugal" (Primeiro parágrafo do conto "História de uma porta"). Porque é afinal o Beça que alimenta a 'levada', um sistema bem antigo de transportar a água através de canais e regos, que permitem uma distribuição do precioso líquido da forma que se pretendia mais equitativa. Estas levadas, muito úteis em terras que necessitavam de regadio para ajudar o solo, tanto quando ele é fértil e generoso, como, e ainda mais justificadamente, quando tal não acontece, eram muito frequentes em terras transmontanas em que a água por vezes escasseia onde mais faz falta. Fruto, elas também, do engenho nascido da necessidade, podemos dizer que são obras de engenharia rural, e por esta água que elas transportam, necessária e insubstituível, se mata e se morre. Há espaços de tempo determinados e cimentados por direitos que se perdem na lembrança dos homens e quando alguém se decidia, por necessidade ou ganância, a ultrapassar aquilo a que tinha direito ou interromper a rega do que lhe estava antes, os resultados eram funestos. Tais desacatos eram por vezes dirimidos por uma luta corpo a corpo, em que frequentemente a sachola que servia de chave para abrir a água para a propriedade de cada um era também a tesoura que cortava o fio da vida do antagonista. Mas quantas vezes eram o fermento de uma inimizade que o tempo engordava em vez de enfraquecer. Dizem os investigadores que uma das razões porque existem ainda hoje tantos relógios de sol em Ribeira de Pena (o que faz pressupor que já foram muitos mais) era a sua utilidade ao permitir ver facilmente e a vários utilizadores ao mesmo tempo, quando é que acabava o espaço de tempo que lhes cabia para rega e dar lugar a outros. Era o sistema de consortes, sendo a água levada aos campos de cada um, como dissemos, por um sistema de canais e regos que são abertos e fechados com uma simples enxada. Em Santo Aleixo, desde tempos imemoriais que o rio Beça tem alimentado esta levada que é mãe da fartura das mesas e da verdura dos campos da aldeia e que foi, ela também, fruto da mente engenhosa do já citado padre Albino Afonso. Infelizmente durante algum tempo, que a todos pareceu longuíssimo, esteve esta levada inoperacional, porque, tendo secado, se lembraram de a cimentar. Não era, afinal, o cimento o remédio para o mal, senão foi ainda mal pior. Foi coisa para dizer-se que "foi pior a emenda que o soneto" pois durante três anos não só a levada não trouxe água como, em consequência do recurso a tudo o que havia que a desse, conduziu a que a maioria das fontes tivesse secado. Felizmente e num ambiente quase de festa a que não faltaram representantes de todas as gerações, foi possível remediar o mal e os campos de Santo Aleixo são novamente alegrados pelo som cantante da água correndo de acordo com os fechos e as aberturas que nos "goretes" lhe dão. A "inauguração" da velha levada teve lugar no Verão de 1992 e mereceu foguetes, música e a bênção paroquial. Apesar desta introdução ter toda ela um cunho muito rural e agrícola, não poderemos deixar de realçar o facto de Santo Aleixo ser uma povoação que podemos considerar assim como que um berço de solares. As casas brasonadas espreitam-se a cada canto e, felizmente, a maioria encontra-se no melhor estado de conservação, tendo sido feito um esforço pelos seus proprietários para que as imprescindíveis obras de restauro a que foram sujeitas não adulterassem demasiado a arquitectura primitiva. E dizemos que os restauros eram imprescindíveis porque estas construções datam, na sua maioria, dos séculos XVII e XVIII, tendo como uma das suas origens as fortunas conseguidas com a Emigração para o Brasil, a que geralmente se seguia um processo de enobrecimento do novo rico, como Camilo nos conta em tantas das sua obras. No entanto, a riqueza proveniente da agricultura deste solo úbere também teve a sua quota parte, para não citar o facto de, como vimos, estas terras de Pena, Barroso e Basto terem sido desde sempre prática de fidalgos que não desdenhavam a sua terra natal. A Casa da Aldeia, a Casa do Fragão, a Casa da Fecha, a Casa da Corga não são mais do que algumas a referir. A igreja de Santo Aleixo, apenas separada da estrada 312 pelo cemitério, foi reconstruída há poucos anos, tendo nessa altura sido ampliada, integrando-se nela uma capela anexa devotada a Nossa Senhora da Conceição e na qual existia um túmulo. Este, contudo, foi mantido no mesmo lugar. Ainda hoje é possível identificar os paroquianos que, em 1894, tomaram a responsabilidade financeira de mandar construir os altares da Rainha do Céu e do Sagrado Coração de Jesus, respectivamente, os proprietários da Casa do Casal e Manuel Gonçalves. Outra povoação de Santo Aleixo é Bragadas, que a estrada 312 corta a meio, podendo dizer-se que a mais antiga, a que se debruça sobre o rio, tem um cariz tão especial que quase não forma identidade com a parte mais nova para onde a povoação se tem alargado como resultado mesmo da abertura da sonhada estrada 312 e, evidentemente, da ponte sobre o Tâmega. Referimos a abundância de casas senhoriais que existem na freguesia de Santo Aleixo, mas, em Bragadas, o que é ainda mais de realçar são as suas típicas construções rurais. Grandes casas na generalidade, lá encontramos os amplos pisos de entrada funcionando como armazéns de recolha de sementes, produtos agrícolas e algumas alfaias. Um relógio de sol marca o tempo sem tempo, enquanto um antigo lagar de azeite mostra o seu cartão de identidade com a roda que, movida a água, fazia depois girar as mós que transformavam a azeitona em pasta. Esta era em seguida colocada em ceiras de onde escorria o dourado óleo, tão divino e santo que com ele se untavam os deuses e os heróis gregos e com eles se marcavam os filhos de Deus na hora do Baptismo e na hora de partida para o encontro com o Pai, na Santa União. Está desactivado, o lagar, mas em bom estado de conservação, tanto por dentro como por fora. As eiras são largas, empedradas e não lhes faltam os canastros ou espigueiros. As alminhas de Bragadas datam de 1880 e são uma oração por dentro e por fora. A Casa de Barroso, tratada com mais pormenor noutro capítulo deste trabalho, lá está com o seu magnífico portal, a pedra de armas de grandes proporções, e, ao cimo da sua escadaria exterior. Depois de atravessar uma porta que dissimula o que vamos encontrar a seguir, uma enorme e magnifica varanda alpendrada. A Casa do Santo, mesmo ao lado da capelinha reconstruída, está agora a servir de recolha a produtos agrícolas e na sua sala ainda se vêem os nichos onde, segundo os proprietários, estavam as imagens dos santos e até, dizem, uma pia de água benta onde se realizavam os baptizados. A Capela do lugar, dedicado a S. Pedro, é de aparência comum e até destoa um tanto no meio de todas aquelas construções de granito em que se insere. Ora o que acontece é que ela foi mandada construir pelo capitão-mor da Casa de Barroso, para lhe servir de túmulo. A pedra tumular, com inscrições de difícil leitura, está integrada na fronteira deste edifício que foi reconstruído pelo povo em 1982. Ao lado, vêem-se ainda velhas pedras, como os restos do antigo campanário, de onde a cruz já desapareceu, deixando como osso o ferro que a prendia ao corpo sineiro, e onde se podem ver claramente as tíbias e a caveira, símbolo da transitoriedade da nossa vida terrena. Do outro lado da estrada espraia-se a parte nova de Bragadas, com maioria das suas casa ainda a brilhar de novidade. Para visitar Manscos é preciso voltar a descer e meter por um estradão que não oferece, para já, o melhor piso às viaturas. No entanto, a caminho do núcleo da povoação sempre vamos encontrando uma ou outra habitação e o seu tamanho e aspecto pode surpreender-nos. Uma das casas que aí atraem a nossa atenção é a casa rural de Manscos, com a sua capela agregada, paredes-meias com a habitação, e cuja patrona é Santa Bárbara. A casa de habitação é de dimensões apreciáveis, com duas entradas independentes, estando uma delas já vendida a outra proprietária, e nas traseiras borbulha uma nascente de água fresca que mesmo no pino do Verão canta. A capela tem uma fronteira ingenuamente trabalhada e a padroeira é uma pequena estátua de madeira. Precisava de certos cuidados, esta capela, para um nível de manutenção mínima ou vêla-emos desaparecer muito em breve, talvez até com os seus três túmulos. Nesta freguesia não se pode deixar ainda de referir o belo parque de lazer em Bragadas. Freguesia de Limões Tem 1718 ha, 394 habitantes, dista da sede de concelho 22 km e é constituída pelas povoações de Azeveda, Cadaval, Limões, Maceira e Tojais. O linho em Limões Espigueiros em Macieira Casa do Cabo A freguesia de Limões fazia parte do antigo município de Cerva até que, em 31 de Dezembro de 1853, ao ser extinto aquele concelho e julgado, passou a fazer parte integrante do concelho de Ribeira de Pena. Esta freguesia apresenta uma área de 1762 ha, o que a coloca na posição de segunda freguesia mais pequena do concelho em tamanho. Constituem-na, além da sede com o mesmo nome, mais quatro povoações: Azeveda (de Cima e de Baixo), Cadaval, Tojais e Macieira. Apesar deste número reduzido de povoações e de a população não atingir também valores representativos, é extremamente agradável apresentar a freguesia de Limões tanto no seu todo como remetendo-nos aos elementos que a compõem. A serra é a mãe destas povoações, em que as casas parecem ter nascido das próprias pedras que formam a montanha, e esse fio umbilical e ancestral foi, de alguma forma inexplicável, transmitido aos seus habitantes. Senão, como explicar o amor, o respeito que se vê relativamente a estas velhas casas que formam autênticos ninhos espalhados pela serra? As terras são áridas e mal dão para retirar o pão nosso de cada dia. As vias de comunicação foram sempre uma força a empurrar para fora e nunca a trazer para dentro o progresso (tal como o vemos, representado pela indústria e serviços), e os homens tiveram que sair, procurar o pão em outros locais. No princípio, o Brasil, depois Lisboa, foram destino de muitos, assim como o Porto, mas as gerações mais novas abalançaram-se a outros horizontes: França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça. "Tudo nos empurrava daqui para fora, há 30, 40 anos a terra, a serra, os outros homens, os que mandavam", diz um habitante de Tojais, que religiosamente, há já mais de 30 anos, sempre que teve férias, veio de Lisboa passá-las à sua terra, à "casa em que fui criado com oito irmãos. Estes telhados de colmo que eu herdei e comprei, há lá alguma coisa que se lhes compare em fresquidão de Verão? Olhe que eu podia pôr um destes telhados de telha, mas ainda não tive coragem''. Mas a serra tem magia, sente-se no ar. É uma atmosfera quase religiosa que mistura a beleza singela das numerosas alminhas que, de todo o lado, surgem aos olhos dos visitantes, as capelas e igrejinhas tão cuidadosamente mantidas com estas construções ciclópicas que nos aparecem quase em cada curva do caminho. É como se pudéssemos ainda esperar, a qualquer momento, ver surgir dos confins do tempo um grupo de filhos de gigantes que brincasse com as peças que arrancavam da serra para preencher os seus tempos de traquinice infantil. Em Agosto, mês de todos os encontros e em que os filhos pródigos regressam à terra, a serra veste-se de verde-roxo, saia curta que lhe é dada pela vegetação rasteira em que a urze sobressai. Os muros de pedra a enquadrar os parcos prados parecem bordados a ponto pé-de-flor quando vistos dos pontos mais altos, as casas antigas e as novas, estas muitas vezes erguidas um pouco afastadas para não estragar o conjunto, abrem-se ao sol que vivifica e ilumina tudo de uma luz muito clara, como que a dizernos que a armazenemos nos olhos para a usar no Inverno, rigoroso, frio. Sim, porque no Inverno é tempo de lar, de hibernar, de preparar o corpo e o solo magro, pelo descanso, para mais um ano de trabalho. Tudo isto porque o segredo está nas gentes - estas gentes alegres, destemidas, aventureiras quando partem à procura do que ali não têm, porque "a beleza da terra não se põe no prato", mas que as faz tão ciosas e orgulhosas das suas origens que permitiram que até ficassem de pé e respeitadas as construções que levaram o Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico a classificar um trecho da povoação de Limões, sede da freguesia, como "Conjunto arquitectónico de interesse público". E que ainda as leva a acatar as determinações no que respeita a novas construções ou a restauro das antigas, de maneira a ofender o conjunto o menos possível. A povoação de Cadaval, por exemplo, surge-nos na curva do caminho como um autêntico ninho de casas rurais antigas, abrigadas debaixo de uma asa da capelinha de S. Bentinho, que deve dar felicidade porque os noivos gostam de se casar lá. Mesmo ao lado, ainda habitada, está a Casa do Capitão, capitão esse que foi quem mandou construir a dita capelinha e já não se sabe qual tenha sido. A sua cozinha antiga tem o forno onde se coze o pão duas vezes por semana, como em muitas outras casas, a caldeira de cobre que se suspende do tecto, prendendo a alça à corrente que cai mesmo sobre o lume, que quase não se apaga desde que os primeiros frios o apetecem até que a Primavera põe o nosso sangue a girar com mais força. E o escano, e o aparador suspenso para guardar os pratos de uso diário, e o outro aparador de alçado, bem colado à parede, com suas ferragens antigas a prenderem bem forte a madeira verdadeira, legítima, tal como saiu do castanheiro centenário que o homem afeiçoou com a sua arte e o seu trabalho. Não tem escola, claro, porque as crianças são poucas - e, quando não é Verão, os dedos das suas mãos são quase bastantes para contar os habitantes. As crianças têm, contudo, escolas perto - a primária logo ali em Azeveda e o 2º Ciclo em Cerva. "E a camioneta da Câmara vem buscá-las", como confirmam os familiares mais velhos. Em Azeveda (de Cima e de Baixo, convém não esquecer), o fenómeno migratório é o mesmo. Afora o Verão, quase só pessoas idosas e crianças, enquanto os pais andam a mourejar por outros lados. Muitas casas novas, sim, mas muitas reconstruídas de acordo com as regras autárquicas estabelecidas. A escola é um edifício novo, logo à entrada da povoação, um tanto alcandorado sobre a encosta. Azeveda de Baixo está situada num vale pouco profundo, onde corre o rio que, em Agosto, mais parece uma corrente de calhaus rolados e lisos, por entre os quais a água corre miudinha mas muito límpida e fresca. Saindo do Cadaval, a estrada nova, sonho muito antigo, leva-nos ao longo da freguesia, sempre a serpentear e aproveitando a curva de nível da montanha. Após um trecho em que a serra impera, surge quase inesperadamente um campo de milho viçoso e a povoação de Tojais. Raramente será possível partilhar como aqui uma tão íntima relação entre as pedras e os homens e as pedras entre si. A rocha domina nas construções, nos quinteiros, nos espigueiros, nas casas para os animais. Em alguns casos, não há qualquer outro elemento a prendê-las entre si senão uma força atractiva vinda do fundo dos tempos, quando o nosso planeta não era senão um imenso caos. Noutros casos, as casas foram construídas a aproveitar a rocha, o que lhes deu uma solidez que desafia o tempo. À entrada da povoação, o primeiro edifício é a capela, bem mantida, com a inscrição de 1753 e aquelas curiosas cruzes embutidas na parede, como aparece tão comummente nas igrejas e capelas da região, para marcar as estações da Via Sacra. A sua abóbada desafia o tempo e a gravidade, pois é feita de pedra. Mas a porta, no ano da graça de 1993, está revestida a zinco isto numa aldeia em que há numerosas casas cobertas de colmo, cuidadosamente preservadas. Será para evitar roubos e proteger a madeira da porta, mas é uma pena. Não se ouvem cantar as fontes na povoação, mas não falta o abastecimento público e algumas famílias têm água ao domicílio. As crianças frequentam a Escola Primária de Macieira, povoação logo a seguir, e também aqui, como, aliás, em Cadaval, não encontramos qualquer estabelecimento comercial. A última povoação da freguesia, a fazer-lhe fronteira com Bilhó, que já pertence ao concelho de Mondim de Basto, é precisamente Macieira, outro exemplo extraordinário da variedade dentro do mesmo tipo. À entrada, a Capela de S. Tiago, com as suas alminhas no muro que ladeia as traseiras da capela, onde se desenha a estrada que há-de abrir caminho para fora da freguesia e do concelho. A embocar num dos flancos da igrejinha está uma rua aldeã de aspecto milenar, em que até o simples fontenário de abastecimento de água, por ser de 1961, parece destoar. Nos meses de canícula, apetece subir a rua levemente inclinada, muito devagarinho, aproveitar a sombra das casas e a impregnarmo-nos de uma atmosfera simultaneamente antiga e vivificante que nos é dada pelas velhas habitações e pelo buliçoso deambular dos seus habitantes. Subamos, pois, devagarzinho, e logo paramos surpreendidos pela casa com uma pequena escada exterior e alpendre que nos surge à esquerda, com o seu relógio de sol bem instalado na extremidade à direita, enfrentando os raios solares com rosto largo e disposto a cumprir a sua tarefa milenar. É a Casa do Rolo, uma das quatro que possuem este tipo de conta-tempo. Os outros três encontram-se na Casa do Jeiroto, na Casa da Carvalha e na Casa do Jorge. A Casa da Carvalha é um largo edifício que foi cuidadosamente reconstruído, embora se note que nele foram introduzidos os confortos que hoje nos são possíveis. O relógio está limpo e brilha, na sua brancura sobre aquele simpático compartimento para as galinhas porem os ovos, logo numa das entradas. A Casa do Jorge é um pouco mais para cima, à direita, e está menos bem conservada, talvez por falta de habitantes, mas é bem um exemplo de uma outra relação que, nestas terras, se estabelece entre os homens e os animais. O abrigo para os bois ergue-se paredes-meias com a casa dos proprietários e, no entanto, ainda hoje, todo o edifício dá sinal de que aqueles eram (e serão, não interessa agora) pessoas de teres e haveres. Pois os animais, aqueles amigos que nestas regiões nos põem a comida no prato tanto enquanto são vivos como depois de mortos, moram mesmo ali ao lado. Pois se são eles que, lavrando, dão o pão, a que se junta o leite, o queijo, os ovos, isto quando vivos, mas que, depois de mortos, nos oferecem a carne saborosa, temperada pela dieta da montanha! Enquanto percorremos a aldeia à procura dos seus relógios de sol, vamos subindo as suas ruinhas apertadas, cruzando um ribeiro em que só correm pedras e velhos plásticos, no Verão, mas que o Inverno e a Primavera fazem rumoroso e límpido. Cumprimentando os seus habitantes amistosos, admiramos os espigueiros quase em ninho, passamos pela escola de granito mandada construir por um filho de naturais que tinham saído da terra em busca de melhores dias e vamo-nos deixando envolver pelo sossego e encanto de todo o ambiente. A povoação é pequena e rapidamente estamos a passar pelos mesmos lugares, notando pormenores que nos tinham escapado - por exemplo, por cima da porta principal da Casa da Fonte, a parede apresenta uma pomba e um coração esculpidos na pedra, assim como uma inscrição centenária. Casa da Fonte? Esta designação é de fácil explicação. Quando o nosso ouvido se habitua ao tom local, mesmo em pleno Verão se ouve o cantante ruído da água a correr. E também ali encontramos quatro nascentes, dentro dos quinteiros das habitações. Estão elas na Casa do Jeiroto, que tem nascente e lavadouro, na Casa da Fonte, (já utilizada pelo público em geral e cuja pia foi entretanto alargada de modo a manter o seu aspecto natural), na Casa do Cabo e na da Capela. Esta água das nascentes da Macieira é de frescura espantosa no Verão, que dá ainda mais sabor à sua limpidez, e garantem-nos que morna no Inverno, óptima para lavar a roupa, visto que a água que sai dos canos é gélida nessa altura. Por isso, não admira que como o lavadouro da Casa do Jeiroto é coberto, muitos particulares solicitem dos seus proprietários autorização para o utilizar no tempo frio e chuvoso. Note-se, contudo, que esta troca de gentilezas faz parte da própria vivência tradicional da aldeia. O abastecimento de víveres também aqui exige uma boa coordenação doméstica, pois os estabelecimentos comerciais estão reduzidos a uma pequena loja, misto de taberna (no sentido de um estabelecimento que vende bebidas alcoólicas, predominantemente vinho, ao balcão), e a um café que só funciona um mês no Verão, quando o seu proprietário, que se encontra a trabalhar em França, vem de férias. Não podemos ainda sair de Macieira sem dar um salto ao rio Covelo, para ver as suas 13 azenhas, embora só uma esteja ainda a trabalhar. Como dissemos, Macieira é a última povoação da freguesia de Limões e, para já, resta-nos dar a volta e regressar para apreciar com calma a sede da freguesia, com o mesmo nome. A estrada traz-nos novamente serpenteando, mostrando-nos ora a encosta da serra do Alvão, ora os vales ou meias encostas com as povoações que já visitámos à ida, eis-nos chegados a Limões. Os visitantes que não estejam prevenidos para o facto de o Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico já ter classificado o seu núcleo como "Conjunto arquitectónico de interesse público" pensarão que é uma pena que não se tomem medidas para o conservar tal como se encontra e reconstituir, mais do que reconstruir, o que não conseguiu resistir ao tempo e à usança dos homens. Lá do alto, domina a igreja de S. João, que guarda e é guardada pelo Cruzeiro do Centenário da Independência, um dos exemplares do concelho, um daqueles marcos que se encontram pelo país a lembrar que Portugal é nação independente e muito lutou para isso desde que o germe da autonomia começou a fermentar com o Conde D. Henrique, levedou com o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, e tornou a ganhar forças em 1640, quando os insubmissos procuraram a chefia de D. João, o 4º de seu nome, para o colocar no trono português. Ainda mais acima, está o cemitério murado e bem cuidado. Tanto na subida como na descida, ouvimos rumorejar água que se não vê: é que corre, lado a lado com a berma da estrada - um pequeno ribeiro encanado ou levada que vai desaguar mais abaixo, para o vale. A rua é ladeada por casas de granito dos séculos XVII e XVIII, e algumas delas exibem a data da sua construção, enquanto outras apresentam belas varandas alpendradas. Um larguinho tem um nome prosaico com muita ternura no fundo do seu significado - Largo dos Reformados. Apresenta-se airoso, desimpedido, com a sombra das ramadas e das paredes a dar protecção aos que a procuram à calma para um pouco de convívio. A falta de acessos, a morfologia do terreno e as características do solo têm sido determinantes para a situação actual da freguesia, representada por um decréscimo populacional que, de uma maneira geral, ultrapassa a média concelhia. As receitas são, por isso, muito dependentes do exterior, visto que o factor emigração tem sido o único capaz de permitir o desafogo económico a que todos têm direito. A falta de acesso foi, até ao momento, e como na generalidade do território concelhio, talvez a causa mais forte para a diminuição da população, fenómeno que é de âmbito muito alargado na Europa. Note-se, no entanto, que aqui muito se tem feito e se continuam a tomar medidas que venham a permitir uma movimentação mais fácil e rápida tanto para Alvadia, ainda dentro do concelho, como para Mondim de Basto e Vila Real. No entanto, em 1993-94, a tendência era ainda para uma regressão, demográfica, que já aponta, por exemplo, para o encerramento de escolas primárias e a sua adaptação a centros de convívio para a terceira idade. É uma verdade insofismável e em todo lado que, quando diminuem as crianças, aumentam os idosos; eles também voltam a precisar de cuidados especiais. Esta situação não é, contudo, irreversível - além da paisagem natural com condições extraordinárias para se tomar um autêntica investimento no campo do turismo tanto nacional como internacional, temos o património construído pelo homem e que é outro elemento a considerar, como temos estado a observar ao longo desta descrição da freguesia. Fonte: www.cm-rpena.espigueiro.pt